| "Como assim, eu não
posso parar tudo para almoçar com antigas amigas? A vida de
adulto ganhou ou perdeu o sentido? O que antes era simples agora ficou
muito complicado. E nós nos sentimos obrigadas a cumprir com
afazeres sem graça, sem vida, sem sentido. E aí, o que
tem sentido fica pra depois, ou simplesmente não fica" |
Intermináveis vinte e três dias para
agendar um almoço. Entre sete dias de cada semana, duas horas
em comum são impossíveis.
“O assunto dos e-mails, inicialmente, era ‘o encontro’,
depois, ‘ a missão” – e quando acontecer,
será: o ‘milagre’. |
Quatro mulheres na mesma cidade não conseguem criar espaço
em comum em suas agendas “superatribuladas”.
O tempo passou e deixou para trás quatro meninas que frequentavam
o mesmo colégio, e se encontravam invariavelmente, cinco dias por
semana, na mesma sala de aula.
O fato é que a vontade de agendar este evento, ou melhor, a dificuldade
da concretização deste almoço, me fez refletir no
que fizemos com nossas vidas, e, obviamente, com o nosso tempo.
Na esquisita agenda adulta, parece que o último item a ser priorizado
é o do encontro com amigas. Nosso tempo é antes de tudo
um cumprimento ininterrupto de obrigações: exames médicos
periódicos, academias de ginástica, trabalho, filhos, afazeres
dos filhos, saidinhas com os maridos ou namorados, e até o sexo
de muitas pessoas é programado para tal dia da semana. Além
dos compromissos sociais, culturais, comerciais e familiares.
Sei lá, é uma sensação estranha de perda de
controle e de gosto por nossas próprias vidas.
Como assim, eu não posso parar tudo para almoçar com antigas
amigas? A vida de adulto ganhou ou perdeu o sentido? O que antes era simples
agora ficou muito complicado. E nós nos sentimos obrigadas a cumprir
com afazeres sem graça, sem vida, sem sentido. E aí, o que
tem sentido fica pra depois, ou simplesmente não fica.
O almoço estava marcado para amanhã, mas o tempo não
para e, imprevistos também acontecem. Não bastassem as perdas
que tivemos como meninas, perdemos entes queridos fora do tempo, os quais
nos fazem, mais uma vez, parar para pensar que o que mais nos dói
é a falta de tempo que dedicamos a eles, pois tempo para estar
junto tem de ser sempre mais importante, mesmo nas agendas modernizadas.
Que saudade dos tempos de menina em que todos os dias eram feitos para
as amigas!
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