| "É
preciso evitar um discurso a favor da rebeldia sem propósito
com relação aos alucinógenos, pelo simples prazer
de fuga de seus medos e angústias. Deixemos que os jovens saibam
que os medos e as angústias sempre existirão, e que,
quanto mais cedo aprendemos a conhecê-los, mais chance nós
teremos de superá-los" |
Esse tema tão comum em escolas
e na mídia parece não se esgotar, e, se a ele retornamos,
é porque há algo que ainda não compreendemos:
por que, com tanta informação, nossos jovens ainda cedem
à armadilha das drogas? |
A questão é mais profunda do que nós pensamos. Estamos
todos, jovens, pais e educadores, envolvidos numa rede de interesses que
supera a simples questão do consumo das drogas lícitas e
ilícitas.
DROGA. Como a própria palavra sugere, é algo ruim, nocivo,
uma droga. Até mesmo os remédios, que são usados
com objetivos específicos de cura, carregam este nome para nos
lembrar que é uma droga, ou seja, algo que não deve ser
usado à revelia. Devem ser indicados com cuidado por um médico.
Falando nisso, o uso de remédios aumentou substancialmente nas
últimas décadas, o que tem descaracterizado o perigo desse
uso. Tal banalização, estimulada pela indústria farmacêutica,
agrava, indiretamente, a relação sem escrúpulos da
sociedade, principalmente dos jovens, com as drogas alucinógenas.
Além disso, a rede de interesses existente no negócio das
drogas é enorme, englobando desde empresários e jovens de
classe alta e média até crianças de baixa renda sem
instrução.
Há algumas décadas, criamos nossos filhos rodeados de elementos
químicos, que, na maioria das vezes, são ministrados sem
escrúpulos. Ou seja, desde a mais tenra idade alimentamos as crianças
com enlatados, corantes, agrotóxicos, suplementos e remédios.
Essa é uma atitude cotidiana muito estimulada pela mídia,
que vende a ideia de que não vivemos sem determinadas substâncias,
o que nos leva ao consumo exacerbado de produtos cada vez mais milagrosos
e “imprescindíveis” para a nossa saúde.
O organismo humano, a cada dia que passa, a cada alimento ingerido com
agrotóxico, a cada substância com adoçante artificial,
a cada enlatado, tem o seu paladar alterado e vicia os seus cinco sentidos
em cores berrantes, pacotes coloridos e fortes sabores distorcidos.
Sabemos que esses elementos químicos danificam alguns órgãos
do nosso corpo, o que nos leva ao consumo de outros elementos protetores,
remédios paliativos e novos sabores, pelo simples prazer sensorial,
sem os necessários benefícios físicos.
As crianças crescem e se acostumam a esse paladar produzido, perdendo
a delicadeza do olfato, imerso em cheiros fortes e misturados.
Produzimos em nossos filhos uma necessidade química e uma tolerância
perigosa em relação a esses elementos consumidos desde a
infância. Esse costume, aparentemente inofensivo, abre possibilidades
para o uso de várias substâncias nocivas, difundidas pelas
propagandas televisivas.
Atualmente, nos intervalos comerciais, existem inúmeras propagandas
sobre remédios para gripe, dores de cabeça, estômago,
etc. que você deve ter em casa como medida preventiva para a dor.
Todavia, na maioria dos rótulos há uma inscrição:
uso sob prescrição médica. Mas todos são adquiridos
livremente nas prateleiras das farmácias.
Ora, se a pessoa adquire o remédio facilmente, quando estiver com
dor, será que irá ao médico para só depois
fazer uso do remédio que já tem em casa, ou será
que vai usá-lo imediatamente?
O enredo é tão complexo que para retirar o agrotóxico
da fruta, dos legumes e das verduras há um comprimido que, dissolvido
na água, purifica-a e assim limpa melhor o alimento. Isto é,
para limpar a água que nós sujamos, há uma química
para purificá-la, lavar o alimento que nos envenena.
Percebemos, então, que criamos uma sociedade que faz uso de drogas
diariamente, desde o adoçante aos inofensivos remédios para
combater a gripe. O fundamental é que perdemos a noção
do perigo que isso representa, pois, aos poucos, as crianças e
jovens passam a aceitar o uso de elementos químicos como algo normal,
e, mais tarde, como algo indicado. Sem escrúpulos, o ser humano
vai se transformando em um poço de desejos consumistas alucinados.
O proibido sempre foi uma tentação para o ser humano; lidar
com o desejo é difícil, é preciso amadurecer, ponderar,
discernir. E com a juventude tudo se agrava, o proibido lhe interessa
naturalmente. É preciso evitar um discurso a favor da rebeldia
sem propósito com relação aos alucinógenos,
pelo simples prazer de fuga de seus medos e angústias. Deixemos
que os jovens saibam que os medos e as angústias sempre existirão,
e que, quanto mais cedo aprendemos a conhecê-los, mais chance nós
teremos de superá-los.
Droga! Não podemos esquecer o significado da palavra. Algo que
não combina com organismo vivo, com corpo humano, com respeito
à vida. É preciso reacender os verdadeiros valores e princípios
éticos no coração dos seres humanos, reordenando
as prioridades e retomando a solidariedade entre nós, a fim de
preencher de sentido a existência humana.
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