| "Como falar da violência
presente no ser humano sem falar das prisões que o ameaçam,
dos limites que lhe são impostos pelo macrocosmo e pelo microcosmo?"
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“A Violência
[...] não pode definir-se sem relação com as
leis que ela viola (leis humanas ou naturais). Representa a suspensão
dessas leis, a ‘vacância da legalidade’. Ao
contrário, a opressão pode ser institucional.”
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“Princípios práticos são proposições
que encerram uma determinação geral da vontade, à
qual estão subordinadas várias regras práticas. São
subjetivos e formam máximas quando a condição é
considerada pelo sujeito como válida somente para sua vontade;
mas são objetivos e fornecem leis práticas,
quando a condição é reconhecida como objetiva, isto
é, como válida para a vontade de qualquer ser racional.”
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Violência e lei, opostos necessários. Movimento heraclitiano
3, onde a lei nos domina violentamente enquanto
a violência agride (e transgride) o discurso legal. E como uma mesma
coisa, elas coabitam em nós, humanos, a lei e a violência.
Onde “o caminho a subir e a descer é um e o mesmo”4
, de forma que não é possível impedir esse
movimento.
O homem, este ser definido como um animal político por Aristóteles
5 e Marx 6, é um ser que se diferencia
por estar algemado ao tempo, ao espaço e às suas representações.
Como falar da violência presente no ser humano sem falar das prisões
que o ameaçam, dos limites que lhe são impostos pelo macrocosmo
e pelo microcosmo? Como citar a lei criada por esse homem sem deparar-se
com esse corpo que “respira” desejo? O qual, segundo Sartre,
é “por natureza fuga de si na direção do objeto
desejado [...]. O desejo é falta de ser; é perseguido no
seu ser mais íntimo pelo ser do qual é desejo.”7
Na trajetória deste ensaio pretendo discursar sobre a natureza
violenta do humano que é lançado como projétil num
mundo sem sentido 8 e que busca dar direção
e fim à sua existência como se isso o levasse a um outro
lugar. Contudo Aristóteles nos diz que tudo o que se desvia do
caminho marcado é violência 9. E eu
me pergunto, há um caminho marcado?
_______________________________
1Sartre, J. P., Cadernos para uma Moral, p.579, Ed. Gallimard.
O grifo é meu.
2Kant, I. Crítica da Razão Prática, edições
70, 1986. O grifo é meu.
3Heráclito de Éfeso (540-480 a.C.)
4Hipólito fragmento 60, sobre a unidade essencial dos contrários,
ref. IX, 10, in Os Filósofos Pré-Socráticos, G.S.Kirk
& J.E. Raven, 1966.
5Política, livro 1, p.40, Nathan.
6“O homem é, no sentido mais literal, um zoon politikon,
[ animal social, em grego] não apenas um animal sociável
mas um animal que só pode isolar-se na sociedade”. Contribuição
à Crítica da Economia Política, p.150, Éditions
Sociales.
7Sartre, J. P. O Ser e o Nada, 2a. parte, cap.1, p.126, Ed. Gallimard.
8“O homem nada mais é do que seu projeto, só existe
na medida em que se realiza, nada mais é, pois, do que o conjunto
de seus atos, nada mais do que sua vida.”, in Sartre, J. P., O Existencialismo
é um Humanismo, Ed. Presença, 1970.
9Ética a Nicômaco, in Os Pensadores, ed. Abril Cultural,
1973.
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