| "Cuidar da infância humana
é fazer um trabalho preventivo, criando o hábito de
pensar, o qual seria o principal benefício do aprendizado.
A educação deve ser inspiradora, evitando atitudes mecânicas
que formam um aluno apático diante do conhecimento. Esse deve
aprender a argumentar, a dar exemplos, a fazer inferências e
a questionar. É preciso criar crianças mais compreensivas,
mais atentas, mais articuladas que busquem razões, façam
julgamentos, dando critérios para as suas escolhas. E isso
é alcançado na medida em que aprendem a pensar, ouvindo
os outros" |
A Filosofia não é interessante
por si mesma, visto que há uma preguiça para pensar
inerente ao ser humano, atividade essa fundamental para a Filosofia.
Poucas são as pessoas que pensam por si mesmas, sem estímulos
externos, sem dificuldades aparentes. Isso se tornou claro para mim,
a partir de numerosas observações, ao longo de 18 anos
de trabalho com jovens em sala de aula. |
Para fazê-lo pensar, é preciso instigar o jovem com um
problema que já seja o seu, é preciso trazê-lo para
dentro do que lhe interessa, é preciso tirá-lo de dentro
de seu ego, para que ele perceba a necessidade de pensar. E ele o fará
na direção de si mesmo, para resolver um problema seu. Então,
você o leva ao prazer de pensar sobre si. Quando ele percebe esse
prazer, ele torna-se capaz de pensar sobre o outro ou sobre algo que não
seja ele mesmo, criando então o prazer pelo ato de pensar.
Pensar por si mesmo é uma atitude de contravenção
É necessário ensinar ao ser humano a importância de
ter consciência, e de que é preciso ser ousado para exercer
o pensar. Conquistamos mais um pensador, quando o jovem percebe que pensar
por si mesmo é uma atitude de contravenção, de que,
nesse instante, ele faz diferença, e mais uma vez, voltando a si
mesmo, querendo afirmar-se como alguém diferente, ele aparece para
o mundo, ele busca ser reconhecido. Aí, ele aproxima-se verdadeiramente
da Filosofia.
Uma afirmação de Mattew Lipman, da qual eu gosto muito,
diz o seguinte: “Fazer Filosofia não é uma questão
de idade, mas de refletir escrupulosa e corajosamente sobre o que a gente
considera importante”. Realmente, podemos instigar qualquer pessoa
a pensar, desde que sejamos hábeis o suficiente para levá-la
a esse prazer, a esse caminho. Aprendi, por meio de muitas tentativas
e erros, que ensinar a pensar é um trabalho árduo na medida
em que precisamos provocar o interesse inicial de um interlocutor desacostumado
a isso.
Atualmente, a tecnologia e os meios de comunicação dificultam
muito esse pensar. Ou seja, os jovens ‘ganham’ a possibilidade
de agir sem pensar em suas atividades diárias (desde a alimentação
‘empacotada’ até os programas e jogos ‘enlatados’).
Até mesmo a educação nas escolas, muitas vezes, vem
facilitada, com métodos de aprendizado direcionados a uma percepção
áudiovisual.
Como dissera Kant, “o homem é a única criatura que
precisa ser educada, entendendo educar por cuidar da sua infância”.
Parece que não estamos sabendo cuidar da infância humana,
visto que observamos nas escolas uma enorme falta de educação,
alunos complicados, turmas confusas, professores incapazes de disciplinar,
pais insatisfeitos, todos repletos de problemas particulares. Ora, tudo
isso sempre existiu, mas em menor número. Atualmente, essas reclamações
são corriqueiras, atingindo as mais diversas classes sociais.
É óbvio que a sociedade consumista em que vivemos aumenta
muito esse problema, evitando o pensar, utilizando estímulos repetitivos,
rápidos demais, incapacitando a concentração necessária
para a tomada de consciência geradora de uma ação
positiva.
Parece que deixamos de lado valores tão essenciais à Educação
e à formação de cidadãos. Não se fala
mais em ética, em respeito ao próximo, em honestidade, em
generosidade e em responsabilidade. A busca desenfreada à fama
e ao dinheiro fácil caminha junto à corrupção,
onde os fins justificam os meios.
Cuidar da infância humana é fazer um trabalho preventivo,
criando o hábito de pensar, o qual seria o principal benefício
do aprendizado. A educação deve ser inspiradora, evitando
atitudes mecânicas que formam um aluno apático diante do
conhecimento. Esse deve aprender a argumentar, a dar exemplos, a fazer
inferências e a questionar. É preciso criar crianças
mais compreensivas, mais atentas, mais articuladas que busquem razões,
façam julgamentos, dando critérios para as suas escolhas.
E isso é alcançado na medida em que aprendem a pensar, ouvindo
os outros.
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