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Síndrome de abstinência de maconha pode ser curada sem medicamento?


por Danilo Baltieri

Sou músico, fumei maconha durante 25 anos, resolvi parar, queria uma vida limpa. Como tinha síndrome de abstinência e muita ansiedade meu médico me indicou o remédio psicosedin. Já faz 2 anos que eu não fumo mais e perdi totalmente a vontade de fumar, o meu mal-estar causado pela síndrome de abstinência controlo tomando um ansiolítico. Eu tomo um comprimido chamado psicosedin 10mg todos os dias antes de dormir, já faz quase 2 anos. Com a orientação do meu médico fui diminuindo a dose do remédio gradualmente com intenção de largá-lo, mas infelizmente não consegui ficar sem tomá-lo, pois os sintomas da síndrome de abstinência voltaram. O que eu faço?

"Apesar de ser a substância ilícita mais comumente abusada, não existem no momento medicações comprovadamente eficazes para o manejo clínico da síndrome de abstinência de maconha" Resposta: A maconha é de longe a substância ilícita mais abusada em vários países ocidentais. Embora seja bastante comum o público leigo acreditar que o risco da indução de quadros de dependência por maconha seja pequeno. Entre os usuários crônicos é clinicamente frequente o vislumbre de quadros de síndrome de abstinência franca.

Os sintomas dessa síndrome incluem ansiedade, irritabilidade, dores abdominais, perturbação do sono, desconforto físico geral, grande desejo de voltar a usar a droga (fissura ou craving). De fato, qualquer síndrome de abstinência, devido ao inerente desconforto ou sofrimento físico e/ou psíquico, representa um notável empecilho para a manutenção da retirada da substância e, consequentemente, para o sucesso terapêutico.

Apesar de ser a substância ilícita mais comumente abusada, não existem no momento medicações comprovadamente eficazes para o manejo clínico da Síndrome de Abstinência de Maconha. Contudo, pesquisas têm sido constantemente desenvolvidas para a avaliação de novas propostas medicamentosas que possam reduzir os sintomas da síndrome de abstinência de maconha, com o máximo de segurança terapêutica possível.

Mais recentemente, pesquisas envolvendo modelos animais (por exemplo, com ratos que se tornaram experimentalmente dependentes de maconha) têm revelado algumas novas propostas farmacológicas para o combate dos sintomas da síndrome de abstinência da maconha. Porém, repito, ainda em nível experimental. No cérebro, existe o sistema neuroquímico conhecido como endocanabinoide, consistindo tanto em repectores quanto em substâncias endógenas (produzidas pelo próprio organismo), que reconhece a maconha utilizada e produz diferentes ações intra e extraneuronais. As propostas farmacológicas mais atualmente estudadas têm envolvido enzimas que degradam os endocanabinoides endógenos, revelando relativo sucesso experimental.

De qualquer forma, apesar dos esforços de pesquisadores, ainda não temos quaisquer medicações aprovadas para prescrição durante a fase de retirada da maconha. Assim sendo, outras medicações, chamadas sintomáticas, são comumente prescritas na prática clínica diária para ajudar o paciente motivado a controlar os sintomas desconfortáveis resultantes da cessação do consumo da droga. Algumas dessas medicações têm sido os benzodiazepínicos e os antidepressivos, que sempre devem ser prescritas com rigor, cautela e acompanhamento médico intensivo.

Tratamento psicoterapêutico é necessário

Seguramente, o paciente dependente de maconha deve estar inserido em tratamento psicoterapêutico durante todas as fases do acompanhamento médico. As medicações sintomáticas devem, nesse caso, funcionar como adjuvantes ao tratamento psicoterapêutico, principalmente do tipo comportamental, e não como a única forma de abordagem médica.

É importante ressaltar que a síndrome de abstinência de maconha tem uma duração variável. Alguns autores têm revelado um tempo de até 4 semanas. Isso não significa que não existam sintomas de maior e de menor duração. Logo, o uso de medicações sintomáticas não deve ser prolongado, exceto se o paciente dependente também sofre de outros transtornos mentais e de comportamento comórbidos (transtornos associados), como depressão e ansiedade.

Você tem usado benzodiazepínico há cerca de 2 anos, sem conseguir interromper a medicação. Você deve procurar o médico para avaliar o seu quadro e determinar o que de fato está acontecendo. Caso você padeça de algum outro problema que dificulte a interrupção do consumo dessa medicação, você deverá ser adequadamente tratado.

Abaixo, recomendo a leitura do seguinte manuscrito:
Preuss UW, Watzke AB, Zimmermann J, Wong JW, Schmidt CO. Cannabis withdrawal severity and short-term course among cannabis-dependent adolescent and young adult inpatients. Drug and alcohol dependence. 15;106(2-3):133-41.

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ATENÇÃO: As respostas do profissional desta coluna não substituem uma consulta ou acompanhamento de um profissional de psicologia e não se caracterizam como sendo um atendimento

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Danilo Baltieri
Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas
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