| Sessão de
sexta-feira com Ermínia, uma empresária de modas que, na
segunda-feira seguinte irá fazer a apresentação,
em desfile, de sua nova coleção de inverno. Está
evidentemente nervosa. Mais do que isso, está dividida entre, por
um lado, passar o fim-de-semana em um SPA para recuperar-se de toda a
tensão que passou preparando o evento e ficar longe do Rio, sem
poder atender a alguma complicação de última hora,
e, por outro, ficar aqui para solucionar qualquer imprevisto de última
hora. Após uma série de ires e vires, decide que vai para
o SPA e se despede. Quando está começando a descer a escada
da cobertura onde atendo, chamo-a:
LC: — Ermínia!
ERMÍNIA (parando na escada): — Sim?
LC: — Não se preocupe!
ERMÍNIA: — Não?
LC: — Não. Vai dar tudo errado.
Como era de se esperar, deu tudo certo e, na sessão seguinte, a
paciente comentou:
ERMÍNIA: — Puxa, foi ótimo! Descansei pra burro no
SPA! Toda vez que me passava uma nuvem de preocupação e
eu pensava que alguma coisa poderia estar saindo dos eixos aqui embaixo,
eu me lembrava do que você havia dito e pensava: “Também,
pra que vou me ralar? Vai tudo dar errado mesmo!” E relaxava outra
vez... Descansei muito. Olha, amigo, muito obrigado! Foi bom, muito bom!
E por que diabos eu ter dito para Ermínia que tudo iria dar errado
no evento que era tão importante para ela e que ela tanto se esforçara
por bem preparar pôde relaxá-la, transformando-se em algo
“bom, muito bom”?
Parece-me simples: com meu comentário, eu emprestei LEGITIMEI os
naturais pensamentos de Ermínia relativamente a que seu evento,
como qualquer outro empreendimento humano, está sempre sujeito
ao imponderável e, por mais que tenhamos dado o melhor de nós,
pode soçobrar. Faz parte da vida e a tentativa de negar o que,
no fundo de nós, sabemos ser verdade, PROVOCA ANGÚSTIA.
Quando eu disse “Não se preocupe, tudo vai dar errado”,
é como se tivesse dito: “Você TEM DIREITO de pensar
que pode ser que não dê certo”! E a legitimação
de um pensamento anteriormente considerado ilegítimo, traz sempre
alívio.
Essa legitimação pode ser feita, naturalmente, de várias
maneiras. Vejamos outra:
PACIENTE: — Estou com vontade de falar uma coisa, mas estou com
medo de que você pense que eu sou veado.
LC: — Já pensei, pode continuar.
PACIENTE: — Hein?
LC: — Ué, seu medo não é o de que eu pense
que você é veado? Como eu já pensei, você não
tem nada mais a temer.
PACIENTE (relaxando-se e rindo): — Você não é
fácil!
E passou a relatar o que lhe interessava.
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