| "Os grupos heterogêneos
ofereciam a vantagem da riqueza de pontos de vista. Podíamos
ter, em um mesmo grupo, pessoas mais jovens e mais idosas, de diferentes
sexos e posições sociais trazendo questões relativas
a suas situações específicas" |
Hoje pretendo falar sobre uma forma particular de
psicoterapia: a psicoterapia de grupo, também chamada de grupoterapia.
Trata-se de um procedimento que foi sendo desenvolvido na segunda
metade do século passado com muito sucesso. |
Deixado de lado entre nós há alguns anos, está voltando
a se tornar uma das formas mais procuradas de terapia. É um método
rápido, barato e eficaz de ajudar as pessoas a lidarem com suas
dificuldades emocionais.
Existem muitas modalidades de grupoterapia, com diferentes referenciais
teóricos. Aqui vou me referir especificamente à psicoterapia
psicanalítica de grupo.
Na época em que, depois de uma longa formação profissional,
me qualifiquei como psicanalista, considerava-se que o tratamento psicanalítico
deveria ser exercido em quatro a cinco sessões semanais. Isso implicava
que, trabalhando oito horas por dia, um psicanalista poderia atender a
nove clientes em média. Levando-se em conta que o tratamento de
cada cliente durava cerca de quatro anos, chegava-se ao cálculo
de que após quarenta anos de duro trabalho um analista teria atendido
em torno de 90 pessoas. Todo o enorme investimento em tempo e energia
para a formação, e para a necessária atualização,
do psicanalista era pouco aproveitado ao ficar limitado a essas 90 pessoas.
Era uma visão claustrofóbica - um analista encerrado em
seu consultório por 40 anos para atender a mais ou menos 90 pessoas
apenas.
Quando ouvi falar pela primeira vez em psicoterapia de grupo meu interesse
foi enorme. Atender grupos terapêuticos significava multiplicar
a possibilidade de interferir positivamente com meu trabalho junto a um
número muito maior de pessoas. Era a libertação do
claustro do consultório e a sonhada possibilidade de ampliar o
alcance de meu trabalho. Uma forma de democratizar o conhecimento psicanalítico
então restrito às poucas pessoas com acesso aos poucos analistas.
Rapidamente me envolvi com esse tipo de terapia.
Na investigação dos parâmetros referenciais para a
constituição dos grupos terapêuticos, algumas conclusões
foram obtidas através da vivência prática adquirida
pelos diversos terapeutas pioneiros. A primeira delas foi a de que quanto
maior a heterogeneidade do grupo, melhores eram os resultados obtidos.
Os grupos heterogêneos ofereciam a vantagem da riqueza de pontos
de vista. Podíamos ter, em um mesmo grupo, pessoas mais jovens
e mais idosas, de diferentes sexos e posições sociais trazendo
questões relativas a suas situações específicas.
Era comum se ver pais falando de problemas com seus filhos ao mesmo tempo
em que filhos se queixavam dos pais. Idem, em relação a
maridos e mulheres, patrões e empregados, professores e alunos,
etc. todos trazendo suas diferentes formas de ver os conflitos de seus
relacionamentos. Naturalmente que não se tratava de pessoas que
se relacionavam entre si, mas representantes de uma condição
humana encontrando com representantes da condição oposta.
Inicialmente, considerávamos que a terapia grupal seria uma forma
menor de terapia, sem a profundidade e sem o alcance da terapia individual.
Mas com a vantagem de poder oferecer terapia a um número muito
maior de pessoas, principalmente porque havia estabelecido que as sessões
de grupoterapia (onde eu atendia dez clientes) ocorressem apenas uma vez
por semana (por cerca de duas horas) em contraposição às
quatro ou cinco sessões semanais de psicanálise individual.Ou
seja, com as quatro horas semanais que dedicava a um único cliente
individual, eu podia atender a 20 clientes em grupo.
Porém, após três ou quatro anos de trabalho, para
minha surpresa, comecei a constatar que um grande número de meus
clientes de grupo apresentava um resultado mais positivo em comparação
com muitos dos meus clientes de psicanálise individual. Refleti
bastante sobre o assunto em busca de explicações para um
fenômeno tão inesperado.
Minha primeira observação importante foi da existência,
nos grupos, de uma energia fraterna que se manifestava sob dois aspectos
um negativo outro positivo: a rivalidade e a solidariedade. Na medida
em que capitalizávamos a solidariedade em favor do trabalho terapêutico
e aprendíamos a administrar a rivalidade de forma a evitar que
a mesma atrapalhasse, tivemos ao mesmo tempo, importantes evoluções
na capacidade dos membros do grupo de explorar positivamente a fraternidade
solidaria - que é útil em muitas situações
da vida e também na capacidade de neutralizar situações
de rivalidade que poderiam ser prejudiciais.
Na segunda e última parte deste texto, falarei mais sobre os benefícios
da terapia de grupo. Até lá. Um abraço!
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