"Na década de setenta
havia um interesse muito grande por parte do público pela
terapia de grupo, que foi refluindo aos poucos ao longo dos anos
seguintes por razões que nada tinham a ver com a eficácia
do trabalho grupal. O principal fator foi o fato de que em função
de uma grande demanda de terapia houve um movimento de formação
de um elevado número de terapeutas, o que criou um excesso
de oferta de terapia no mercado de trabalho. A pressão pela
busca de clientes resultou em uma campanha de descrédito
da terapia de grupo"
|
No texto anterior (clique aqui), expliquei
por que a terapia de grupo pode ser mais enriquecedora que a terapia individual.
Nesta segunda e última parte deste texto, falarei sobre outros
benefícios da terapia de grupo. Vamos lá!
Outro valioso elemento na minha reflexão foi a compreensão
de que a atividade psicoterápica pertence muito mais à área
da educação do que ao campo da saúde, pois ensinamos
muito mais do que curamos. Uma vez percebido este dado, nada mais natural
do que considerar que da mesma forma que o aprendizado é prioritária
e predominantemente exercido em grupo, nas salas escolares, a terapia
também deveria ser vivida de forma coletiva. Há séculos
que já se estabeleceu a ideia de que as pessoas aprendem melhor
quando em grupo. Costumo dizer que até a rainha da Inglaterra manda
seus filhos para o colégio em vez de terem aula particular em casa.
Assim como o aluno problemático necessita de atendimento individual,
também alguns clientes precisam ser consultados individualmente,
mas como exceção e não como regra geral.
Na prática verifiquei que a convivência no grupo facilitava
a compreensão e superação dos problemas e dificuldades
individuais. Os companheiros ajudavam com comentários e estímulos;
ajudar era saudável e presenciar a terapia dos outros esclarecia
dificuldades próprias.
Muitas vezes tenho ouvido clientes comentarem que entendem muito melhor
o que o terapeuta diz para seu colega do que as observações
do terapeuta diretamente dirigidas a eles. É compreensível,
pois a tensão de estar falando de seus problemas dificulta o entendimento.
Uma questão também importante é a presença
do outro no grupo. Em uma terapia individual, o outro é virtual,
ele pode ser mencionado ou esquecido, deixado de lado. No grupo, para
o bem e para o mal, o outro é presente. As questões de relacionamento
são enfrentadas – e resolvidas – na prática
do convívio permanente, não há como nem porque fugir
delas. Tanto a administração dos sentimentos positivos de
amor e carinho, quanto o gerenciamento dos sentimentos negativos de raiva,
ciúme, desprezo etc. são foco de atenção e
se tornam elementos de evolução emocional.
Finalmente, deve-se levar em conta o fato de que em uma terapia individual
o trabalho de estimular o terapeuta e orientá-lo a perceber os
elementos emocionais mais relevantes é responsabilidade de uma
só pessoa, enquanto que na terapia grupal, todos os membros do
grupo fornecem estímulo para o terapeuta.
Enquanto o silêncio do cliente em uma terapia individual pode vir
a ser uma dificuldade a mais, tal situação dificilmente
ocorrerá em uma sessão de grupo. A vantagem que o cliente
do grupo tem sobre o cliente individual reside no fato de que enquanto
a responsabilidade de informar e ajudar o terapeuta recai toda sobre uma
pessoa só, no grupo está diluída por todas as pessoas
que o compõem.
Quando por vezes um cliente de grupo acha que necessita de um atendimento
individual, não vejo razão para negar a ele esta oportunidade.
Costumo marcar um horário sem questionar, mas uma vez juntos coloco
a importância de entendermos a real necessidade de tal entrevista
como o assunto inicial a ser tratado por nós. Ao concluirmos pela
indispensabilidade da sessão, levamos a mesma avante. Caso contrário,
encerramos nossa conversa e nos reencontramos no grupo. Mas acho fundamental
que haja esta disponibilidade para atender eventuais necessidades, pois
por vezes existem assuntos que a pessoa não consegue falar dentro
do grupo, podem ser temas sigilosos ou mesmo comprometedores.
Todos estes elementos me fizeram perceber a terapia de grupo como uma
forma preferencial de terapia. Nos primeiros tempos eu me perguntava se
o cliente seria passível de ser atendido em grupo, depois de certo
tempo de experiência, minha pergunta era oposta – haveria
algum impedimento para que ele fizesse parte de um grupo? Haveria algum
empecilho que inviabilizasse colocá-lo em um grupo e que, portanto,
me levaria a atendê-lo individualmente? Os impedimentos para a grupoterapia
não decorriam necessariamente de problemas emocionais das pessoas,
mas muitas vezes de circunstâncias desfavoráveis como horários
de trabalho irregulares.
Na década de setenta havia um interesse muito grande por parte
do público pela terapia de grupo, que foi refluindo aos poucos
ao longo dos anos seguintes por razões que nada tinham a ver com
a eficácia do trabalho grupal. O principal fator foi o fato de
que em função de uma grande demanda de terapia houve um
movimento de formação de um elevado número de terapeutas,
o que criou um excesso de oferta de terapia no mercado de trabalho. A
pressão pela busca de clientes resultou em uma campanha de descrédito
da terapia de grupo.
Nessa época ouvi argumentos tais como: “porque andar de ônibus,
quando podemos ir mais confortavelmente de taxi?” Os novos terapeutas
necessitando de clientes passaram a oferecer terapia individual por um
preço menor do que o que estava sendo praticado na terapia de grupo.
Era constrangedor para os terapeutas de grupo argumentar a favor de seu
trabalho, pois parecia que estavam defendendo seus interesses pessoais
e não debatendo clinicamente. Decidi de me abster de contestar
o argumento do taxi, embora me ocorresse que para longas viagens –
como era o caso de uma psicoterapia – um transporte coletivo costuma
ser mais confortável, rápido e eficaz. Tendo de escolher
entre um taxi aéreo e um jato comercial para ir à Europa,
acredito que a maior parte das pessoas vai preferir o transporte coletivo.
O fato é que a campanha funcionou e aos poucos as pessoas foram
tendendo a procurar a terapia individual e com isso não houve reposição
de clientes de grupoterapia. No fim do século passado encerrei
melancolicamente meu último grupo terapêutico. Porém,
como tenho percebido um recrudescimento do interesse pela terapia grupal,
neste ano retomei, com alegria, o trabalho com grupos que, espero, daqui
em diante venha a ocupar o lugar que merece entre as diferentes formas
de psicoterapia.
Artigos relacionados - clique no título
|