Saúde Mental
Dicas para a saúde mental

Por que Cho Seung-Hu cometeu massacre nos EUA?
por Joel Rennó Jr.

Massacre nos EUA é motivado por vários fatores, entre eles: sentimento de rejeição, baixa auto-estima, estresse...

Um dia após a tragédia que matou mais de 30 pessoas na Virginia Tech University, na cidade de Blacksburg, nos EUA, não se discute outro tema em todo o mundo. O que levou o jovem sul-coreano Cho Seung-Hu de apenas 23 anos a matar 32 pessoas e, em seguida, cometer suicídio? Todos estão chocados, ouvi diversos depoimentos de profissionais e comentários em telejornais e imprensa.

Acredito que cada ato de violência tenha as suas especificidades e particularidades. Não há regras, generalizações podem induzir a erros de julgamento.

Alguns culpam, exclusivamente, os fatores sociais e culturais de um determinado país, além da própria oferta indiscriminada de armamentos. Levando-se em conta a maior freqüência de tais atos nos EUA (com livre oferta de armas), com certeza, há uma predisposição. Até pela mensagem subliminar de uma violência justificável dentro de alguns preceitos ético-morais questionáveis (e que podem ser mal interpretados por jovens frágeis psiquicamente). Mas, não podemos nos esquecer das outras formas de violência (física, sexual, moral) e até crueldade que podem permear o universo jovem em todas as partes do mundo.

Embora tais fatores possam ter um papel facilitador e influenciador, sem um conhecimento prévio do psiquismo das pessoas envolvidas, em tais assassinatos, fica difícil se fazer generalizações. Os dados disponíveis, até o momento sobre esse jovem coreano, são muito limitados. Portanto, tudo fica no campo das hipóteses apenas.

A pressão massacrante por um destaque social, dentro de um mundo capitalista e consumista (onde apenas o primeiro colocado é valorizado), sem dúvida, pode levar ao estresse de diversos jovens, em uma cultura que valoriza o sucesso e status material como fonte única de felicidade e prazer.

Em um mundo que estereotipa e classifica as pessoas, em pontos corridos, de acordo com as metas atingidas, como se fossem meros objetos de produtividade, isso é evidente. Alguns vão chegando ao limite extremo da ruptura do equilíbrio mental. Não justifica o ato, é claro, até porque quando o indivíduo possui um aparelho psíquico saudável e estável, sem transtornos mentais graves (incluindo álcool e drogas) ou de personalidade, aprende a gerenciar tais cobranças e pressões de uma forma construtiva. Elaboram sentimentos negativos de frustração, agressividade, raiva, inferioridade, angústia e baixa auto-estima de uma forma não patológica e muitas vezes até sublime, desenvolvendo projetos de cunho social. Daí a orientação e ajuda necessárias desde os primórdios da infância.

Não é segredo para ninguém a necessidade do apoio da família (inclua-se toda a sociedade), na valorização de padrões saudáveis de comportamentos individualmente estabelecidos (com base nos próprios referenciais pessoais) em detrimento dos coletivos impostos de forma superficial (como ser feliz, como conquistar o afeto das pessoas, qual é o corpo mais bonito dentro dos padrões sociais, o sucesso do vencedor guerreiro no mundo capitalista, etc).

Jovens excessivamente tímidos, isolados, tristes, com sentimentos de frustração e rejeição, de alguma forma, por serem constantemente segregados, podem querer se suicidar ou cometer assassinatos coletivos como forma "digna" ou "heróica" de encerrar a sua existência no universo de vida que eles julgam ser medíocre.

"Muitos jovens considerados "nerds" e marginalizados me relatam. Adoram jogos eletrônicos violentos e dizem sonhar em cometer, um dia, tal ato "heróico". Alguns até falam que "invejam" a "coragem" de tais criminosos"Falo isso por experiência clínica. É assim que muitos jovens considerados "nerds" e marginalizados me relatam. Adoram jogos eletrônicos violentos e dizem sonhar em cometer, um dia, tal ato "heróico". Alguns até falam que "invejam" a "coragem" de tais criminosos. Imagino o quanto as pessoas leigas devem se assustar ao lerem isso (e acharem absurdo!), mas é a vivência de um profissional da área que ouve, de alguns adolescentes que se sentem rejeitados, tais relatos.

O limiar entre o imaginário e o concreto pode ser mais tênue do que nós imaginamos nos jovens. Na prática, a discriminação e eventuais humilhações que tais pessoas vulneráveis sofrem podem levá-los a atos insanos, quando predispostos psicologicamente.

Por isso sempre fortaleço a visão de que familiares e profissionais devem ficar mais atentos aos sinais e sintomas psíquicos que podem ser um indício da propensão de um jovem cometer um ato de auto ou heteroagressividade. É a psicoprofilaxia que deveria ser realizada em todos os meios sociais, inclusive, nas escolas. E os políticos investirem mais, sem dúvida.

É nítida a melhora de tais jovens quando fazem um trabalho de psicoterapia séria e regular, além do uso de "estabilizadores de humor" e antidepressivos quando o diagnóstico psiquiátrico justifica. O universo de vida deles se amplia (com outras válidas opções de felicidade), sendo reconstruído dentro de parâmetros e valores resignificados positivamente.

Não quero que fique, por parte de vocês, a interpretação e dedução de que os transtornos mentais predisponham à violência. Isso não é verdade, felizmente, na maior parte dos acontecimentos. Já há discriminação demais da sociedade com relação aos pacientes que sofrem de transtornos mentais.

Porém, não podemos ignorar que algumas fragilidades psíquicas sérias, não detectadas e acompanhadas, possam, com a colaboração da própria sociedade e cultura, predispor tais jovens a atos criminosos que deixam o mundo perplexo.

Toda a sociedade precisa repensar os valores que são disseminados na nossa sociedade atual. Alguns adolescentes me relatam que se sentem na obrigação de "vencer ou morrer". Relatam-me que o mundo só é bom com os "vencedores", independentemente dos recursos utilizados para tal. Conseguem observar, dentro do período de transição, caminhos muito restritos e rígidos que precisam da ajuda de "guias" experientes, constituídos de pais, amigos, professores e profissionais. Tais cognições distorcidas precisam ser retificadas. E oferecendo, é claro, ajuda médica e psicológica efetiva aos que delas necessitarem. O assunto é, portanto, complexo por ser multifatorial.



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Joel Rennó Jr.
Doutor em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da USP. Coordenador do Projeto de Atenção à Saúde Mental da Mulher-Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. Médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein-SP (HIAE)
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