|
Resposta:
Cada caso clínico deve ser individualizado. Não há soluções
únicas para todos os dependentes de álcool. Múltiplos e diferentes
fatores atuam em conjunto. As condutas devem ser tomadas apenas após
uma avaliação clínica, psiquiátrica e psicológica.
O planejamento terapêutico depende do nível de gravidade e incapacitação
gerados pelo alcoolismo, dos prejuízos sócio-funcionais (em atividades
de estudo, profissionais, familiares e sociais), dos problemas físicos
de saúde envolvidos (cirrose, alterações de memória,
pancreatite, alterações cardíacas, neurológicas, etc),
da presença de comorbidades psiquiátricas (associação
com outros transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade,
transtorno bipolar do humor, e dependência de outras drogas como cocaína),
além do nível de interesse e motivação do paciente
para iniciar o tratamento.
Fatores
relacionados à personalidade individual também são importantes
para serem incluídos na avaliação da terapêutica a
ser utilizada. Histórico pessoal e familiar detalhado na anamnese é
importantíssimo.
| "Alcoolismo
é uma doença crônica, não há cura e sim controle
dos sintomas e sinais. A abstinência é algo que se buscará
por toda a vida, dia após dia" | Portanto,
pelo exposto acima, pode variar desde a internação compulsória
(em casos extremos e urgentes com riscos de suicídio, psicose e prejuízos
sérios nos diversos níveis) até tratamentos ambulatoriais
e auxílios significativos em grupos como o AA, extremamente sérios
e importantes. Os tratamentos podem ser em conjunto, ou mesmo alternados, dependendo
do estágio e do nível de gravidade da doença - além
da motivação e conscientização do doente sobre a doença.
Posturas rígidas, reducionistas e arcaicas só prejudicam a todos. |
Costumam
ser tratamentos e acompanhamentos longos, por toda a vida, mesmo após grandes
e prolongados períodos de abstinência. O alcoolismo é uma
doença crônica, não há cura e sim controle dos sintomas
e sinais. A abstinência é algo que se buscará por toda a vida,
dia após dia. Recaídas, infelizmente, são comuns
no processo de recuperação. Familiares, geralmente, migram por diversos
médicos e terapeutas. Infelizmente, de forma involuntária, interrompem
bons tratamentos por puro desespero ou desconhecimento. Família
e co-dependência Vários
sentimentos ocorrem nos familiares como ansiedade, raiva, impotência, tristeza,
culpa, insegurança, desânimo e abandono. Podem até se tornar
co-dependentes. Por isso, nunca deixo de orientá-los a também procurarem
ajuda em locais apropriados como o Nar-Anon (www.naranon.org.br) ou Al-Anon (http://www.al-anon.org.br/default.asp).
E também fazerem psicoterapia própria. O alcoolismo é
uma doença crônica e complexa, requer vários níveis
diferentes de ajuda. Todas são bem-vindas, inclusive de voluntários
e religiosos. Todos, de alguma forma, contribuem no processo, desde que conduzidos,
é claro, por pessoas sérias e éticas; além de embasadas
por profissionais ou entidades qualificados de diversas áreas. Fatores
genéticos, psicológicos, familiares, sociais, culturais e ambientais
devem ser analisados, pormenorizadamente, pois diminuem as chances de recaída
quando bem abordados. Bem, espero que todos tenham entendido que a minha
posição de médico psiquiatra é de um amplo e bem estruturado
projeto de reabilitação e tratamento, através da integração
séria dos diferentes níveis de atuação profissional
e voluntária. Pela
complexidade e multifatoriedade do alcoolismo, jamais pode haver posturas reducionistas.
Por fim, no âmbito governamental, deveria haver maior orientação
e esclarecimento dos riscos sérios do alcoolismo, além de rigor
no controle do excesso de propagandas e comerciais sobre cerveja. Garotos-propaganda
como o Zeca Pagodinho, que eu admiro, ganhou 5 milhões de reais da empresa,
no seu novo contrato. Além de belas modelos e atrizes seminuas, acabam
seduzindo crianças e adolescentes a experimentarem, cada vez mais precocemente,
o álcool. Parece tudo uma grande festa, quando na realidade é o
oposto.
|