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"Por
outro lado, os padrões observados culturalmente mostram uma
tendência a negar toda e qualquer forma de tristeza, tentando
eliminá-la a qualquer preço. Drogas – lícitas
e ilícitas, processos de esquecimento e alienação,
atividades constantes, entre outras formas, denotam a preocupação
em manter a felicidade geral"
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O leitor pergunta: “O que é
a felicidade para a filosofia?”. No artigo “O que é
ser feliz” (clique aqui e
leia) abordei a questão por uma perspectiva. |
Tentarei abordá-la, aqui, diferentemente. É uma questão
difícil, pois apesar de encontrarmos muitos filósofos que
trataram e tratam da felicidade, nenhum deles a determina como uma coisa
única, nem estabelece formas para nos tornarmos felizes. E isso
é próprio da filosofia. Talvez a frase de Erasmo de Rotterdam,
no Elogio da Loucura, que cito no artigo sobre o que é
ser feliz – “A felicidade consiste em ser o que se é”,
esboce um caminho para a questão.
Quando alguém afirma sentir-se feliz, o que isso significa? Como
saber? Como é para você, leitor, sentir-se feliz? É
o mesmo para as pessoas com as quais convive? Há como mensurar
formas, intensidades de felicidade ou apenas nomeamos alguns de nossos
estados subjetivos?
A felicidade, assim como nossas emoções, sentimentos, pensamentos,
crenças, desejos, sonhos, etc. são estados mentais e estes
só nos são acessíveis a partir de uma linguagem em
primeira pessoa, ou seja, uma descrição sobre o que sentimos.
Não há como ter acesso aos sentimentos de outros senão
através de suas descrições e o mesmo ocorre conosco:
os outros não têm acesso ao nosso sentir, exceto se o descrevermos.
Ainda assim, quando descrevemos o que sentimos, o outro interpreta a partir
de seus próprios referenciais, o que o impede de ter uma concepção
exata de nosso sentir.
O que significa, então, para uma pessoa, ser feliz? Será
que todas as vezes que você afirmou estar feliz, sua afirmação
se referia exatamente a um mesmo estado? Ou haveria diferentes estados
de felicidade? É comum cobrarmos de nós mesmos e dos outros
um padrão de felicidade. Todos devemos nos sentir felizes com nossas
vidas, com nossos afazeres cotidianos, com nosso trabalho, com nossas
relações... Partindo de nosso próprio existir, de
nosso cotidiano, o leitor considera possível ser feliz o tempo
inteiro? Observo, no consultório de filosofia clínica, a
perplexidade de algumas pessoas com o fato de não se sentirem felizes
em contextos onde “deveriam” sentir felicidade. Ou ainda,
mais perplexas por nunca terem sentido isso que dizem ser “felicidade”.
Poderíamos falar que “devemos” ser felizes? O que isto
significa? Em geral, nas falas que aqui cito, significa corresponder a
um padrão do que é considerado, socialmente, felicidade.
Estar sempre sorrindo, animado, motivado, com vontade de se relacionar,
de ir a lugares, de se divertir... Se ampliarmos o espectro de observação
dos contextos sociais, poderemos verificar que os padrões poderão
variar de acordo com uma série de fatores. Mas isto, na maioria
das vezes, sequer é considerado. Além disso, as formas como
as pessoas se constituem, como são, como lidam com suas questões,
são diferentes; assim, o que me faz feliz pode não fazer
o outro feliz. O que me traz felicidade poderá trazer aborrecimento
ou tédio a outras pessoas. Quero dizer, com tais questionamentos,
que esquecemos de observar a singularidade de nossas formas de vida quando
buscamos, ou cobramos de nós mesmos, corresponder a padrões
genéricos.
Por outro lado, os padrões observados culturalmente mostram uma
tendência a negar toda e qualquer forma de tristeza, tentando eliminá-la
a qualquer preço. Drogas – lícitas e ilícitas,
processos de esquecimento e alienação, atividades constantes,
entre outras formas, denotam a preocupação em manter a felicidade
geral. Se consideramos, em tempos anteriores, a tristeza como algo natural,
como parte de um processo necessário às movimentações
do ser humano em suas interações com o mundo, a tendência
atual é não apenas buscar, mas exigir uma felicidade constante,
ainda que adquirida artificialmente. Dessa perspectiva é possível
observar uma modificação no modo de lidar com a felicidade
e a tristeza, antes consideradas complementares, naturais e necessárias
ao desenvolvimento humano, são hoje opostas: a felicidade sempre
necessária, e a tristeza confundida com uma patologia que precisa
ser extirpada, curada.
Allan Horwitz e Jerome Wakefield, no livro A tristeza perdida,
mostram como a tristeza é confundida com a depressão, inclusive
por médicos, que optam por medicar casos de tristeza. Será
que a tristeza advinda de nossas insatisfações com a vida,
de nossa reação às perdas, ao mal-estar deve ser
simplesmente extirpada? Curada? Ou seria ela um indicativo da necessidade
de encontrarmos formas para superarmos o que se colocou para nós
como limitação, como incômodo?
O número de pessoas que tomam antidepressivos aumenta cotidianamente,
o uso de drogas, feito por pessoas que buscam manter um estado de “felicidade”
constante, também. O mundo não é perfeito, nós
também não somos. A constatação das imperfeições,
as insatisfações podem nos mover a transformar nossas vidas,
a criar alternativas. Mas se nos contentarmos com isto que não
está bom, suprindo nossas necessidades de bem-estar e prazer artificialmente,
sem encararmos o que nos incomoda, simplesmente perpetuaremos as condições
nas quais nos encontramos, ou pior, talvez estejamos permitindo que as
condições indesejadas se alastrem, enquanto vivemos nossa
felicidade artificial. A tristeza é, muitas vezes, inevitável
ao movimento, à transformação.
Contudo, basta estarmos um pouco tristes para alguém já
querer nos tirar de nosso estado. Muitos se aborrecem conosco se não
abandonamos nossa tristeza em suas primeiras tentativas. No mundo do trabalho,
não há lugar para a tristeza, ela deve ser tratada, porque
o profissional, seja de que área for, na maioria dos contextos
deve estar sempre sorrindo. Ainda que seu trabalho seja inadequado a você,
ainda que sua rotina seja extremamente aborrecida, ainda que seu salário
não pague as contas do mês, é preciso que você
se sinta feliz, perfeito, forte, vencedor. Isto é possível?
Este ser feliz, perfeito, forte não existe, ele é uma ficção,
um ser abstrato e inatingível plenamente. Contudo, cobramos diariamente,
de nós mesmos e dos outros, uma felicidade abstrata e perene. Temos
momentos de felicidade, de bem-estar, de saúde, de vida, etc.,
mas tristeza, mal-estar, doença, morte também são
partes constitutivas de nosso existir. É claro que não se
trata de sucumbir a tais estados e eles se tornarem perenes, destruindo
nossas possibilidades de existência. Trata-se, sim, de encontrarmos
as formas possíveis para lidarmos com tais estados, trata-se de
observarmos nossos processos e buscarmos as mudanças necessárias
em nossas vidas.
Mas a busca da felicidade artificial nos leva, contrariamente, a um “fazer
menos”, “viver menos”, para não colocarmos em
risco uma pretensa estabilidade que denominamos felicidade. “Se
é difícil estabelecer relações, e é
difícil, melhor não se relacionar. Se há insatisfação
com a carreira, assim é a vida, melhor não arriscar o certo”.
Ao optarmos pelo não movimento a fim de evitarmos a tristeza, fazemos
uma opção: já estamos em movimento, perpetuando um
estado. Será que nosso movimento garantirá felicidade? Ou
nos impedirá de alcançá-la? Temos consciência
das possibilidades de realização daquilo que buscamos, das
prováveis consequências de nossas escolhas? Sabemos como
construir as bases para que nossas buscas possam ser realizadas? Estes
são aspectos importantes para avaliarmos, mas também é
preciso que tenhamos consciência que as coisas podem dar errado,
e que se isto ocorrer, é natural que fiquemos tristes, não
há nada errado com isso.
Referências Bibliográficas:
HORWITZ, A.; WAKEFIELD, J. A tristeza perdida: Como a psiquiatria transformou
a depressão em moda. São Paulo: Summus, 2010.
ROTTERDAM, E. O elogio da loucura. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
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