| "Talvez
seja uma viagem fascinante dedicar alguns minutos de cada dia para
buscar novos ângulos, informações surpreendentes,
enxergar o avesso das coisas, saindo da obviedade. Essa abertura para
vida acabará desenvolvendo em nós uma atitude criativa
e flexível perante o mundo" |
Há alguns anos uma amiga me relatou
o prazer de ter feito um curso de fotografia na cidade de São
Paulo chamado “Descondicionando o Olhar”. Nunca me esqueci
do nome, tão apropriado. |
Alguém já percebeu o quanto muda nossa visão do
mundo físico quando deixamos de ser bitolados motoristas e nos
tornamos passageiros? E na hora em que nos convertemos em pedestre? E
quando percorremos uma mesma rua usando a direção contrária
ao do caminhar habitual?
Você já se deu conta das linhas da palma de sua mão?
Não me refiro à oculta arte da quiromancia, apenas sugiro
o quanto podemos descobrir sobre nós mesmos se nos dermos ao trabalho
de um olhar mais atento, focado, gentil, não avaliador, apenas
um longo olhar...
Consultores de imagem dizem que devemos nos olhar por todos os ângulos,
para descobrir nossas formas, medidas, maneira de andar, linguagem corporal,
postura. Só quem se conhece terá condição
de experimentar mudanças, de explorar as possibilidades do corpo
recém-descoberto.
Observe nos jardins: quais flores estão a brotar, que árvores
perderam as folhas e quais começam a nascer. Você reconhece
as aves que habitam os galhos? Estamos frequentemente desconectados dos
eventos da natureza. Hoje precisei sair a pé, coisa que deveria
fazer com mais frequência e desse modo me dei conta do luar que
se instalava no céu, ocasião propícia para nosso
deleite estético.
Conversando com um especialista em cafés, aprendi um pouco sobre
as sutilezas das torras e moagens, os vários tipos de grão
e seus distintos graus de acidez. Ele me contou que o tempo que uma colher
de açúcar leva para se depositar no fundo da xícara
é medida indireta do quanto o café expresso foi bem tirado
pelo barista. Ninguém nasce pronto para captar tantas propriedades
de um grão avermelhado.
Há um longo treino, propiciado pelo ambiente ao nosso redor, que
nos ensina a atentar para o que é importante para a sobrevivência
dos membros de nosso grupo. O homem pré-histórico precisava
descobrir pegadas, fosse para fugir ou se aproximar do animal (ou humano)
que deixou no solo sinais de sua presença. As crianças,
convivendo com os adultos, aprendiam a ser influenciadas por aquelas informações
e a tomar decisões acertadas, “aqui passou a jaguatirica”,
“lá caminhou alguém de botas”.
Talvez seja uma viagem fascinante dedicar alguns minutos de cada dia para
buscar novos ângulos, informações surpreendentes,
enxergar o avesso das coisas, saindo da obviedade. Essa abertura para
vida acabará desenvolvendo em nós uma atitude criativa e
flexível perante o mundo. É fato que não vale pensar
apenas em expandir o sentido da visão, mas também os outros
sentidos e a maneira de interpretar a subjetividade da existência.
Cada objeto, indivíduo ou paisagem, tudo possui mais de um jeito
de ser apreendido, e cada jeito nos será benéfico por um
motivo ou outro.
Minha proposta de hoje é essa: veja o mundo com os olhos da criança,
para a qual tudo é novo, e merece um segundo e terceiro olhares,
até que se esgotem as perspectivas.
Artigos
relacionados - clique no título |