|
Coluna Vida Saudável
- Dicas para a sua saúde e para uma vida saudável
|
As
eleições e o despedício dos alimentos
Por Jocelem Salgado
O desemprego e a fome foram temas presentes na campanha eleitoral cujo primeiro turno está acontecendo neste domingo. Ninguém falou em desperdício de alimentos. Por exemplo, o Brasil joga fora a cada ano R$ 12 bilhões em comida.
Nesse momento em que o país inteiro está voltado para os grandes temas nacionais, vale a pena lembrar que o desperdício de cada um de nós poderia alimentar 30 milhões de pessoas. Caberia à sociedade civil, e ao governo, evitar que tanta comida fosse jogada fora.
O Brasil joga na lata do lixo o equivalente a R$ 12 bilhões
em alimentos por ano. Essa montanha de comida daria para alimentar cerca de
30 milhões de pessoas, ou 8 milhões de famílias durante
um ano inteiro.
O cálculo foi feito pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do
Estado de São Paulo. O número já é conhecido dos
políticos há algum tempo, mas não apareceu nas campanhas
dos candidatos que hoje estão esperando pelo nosso voto.
O desperdício pode parecer um tema de menor visibilidade
e menor atração quando comparado com a fome e o desemprego. Todos
os candidatos à presidente da República e a maioria daqueles que
concorrem aos governos dos Estados falaram nos 12 milhões de desempregados
do país. Sem trabalho, nem salário, as famílias vivem no
limiar da fome e da miséria.
Segundo estimativas da Organização das Nações
Unidas para a Agricultura e a Alimentação, a FAO, 10% dos brasileiros
são desnutridos. Somam 17 milhões de pessoas que vivem com fome
ou não comem o suficiente para manter a saúde. Dentro desse contingente,
há mais de cinco milhões de crianças e idosos, os que mais
sofrem com a desnutrição.
Esses números são chocantes e é natural
que sejam usados pelos candidatos nas suas campanhas. No entanto, o gigantesco
desperdício de alimentos também choca e impressiona, justamente
porque poderia contribuir para reduzir a fome. Choca mais ainda porque o desperdício
é alguma coisa que poderia ser evitado, basta decisão e organização
para isso.
É por isso que aproveito esse domingo de eleições, quando estamos escolhendo aqueles que vão conduzir esse país, para falar um pouco desse tema.
Vivemos numa sociedade acostumada ao desperdício, jogamos fora energia, bens de consumo, geladeira, TVs, vestimentas... Quanto mais rica e mais consumista a sociedade, mais ela desperdiça.
A prática norte-americana de trocar seus bens a cada
ano pode parecer compreensível porque seus cidadãos têm
poder aquisitivo, podem estar comprando e assim alimentam o mercado, geram empregos
e salários.
Mas quando falamos em alimentos que são jogados fora num país
onde há fome e desnutrição, esse raciocínio fica
inaceitável.
A questão não pode ficar de fora do debate nacional motivado pelas eleições. Seja quem for o vencedor dessas eleições, presidente, governadores, senadores e deputados, o tema precisa ser tratado com seriedade. Porque quando falamos em desperdício de alimentos, estamos falando em fome, em perda de dinheiro, em mal aproveitamento dos nossos recursos e dos nossos potenciais.
Quanto o Brasil joga fora
Pelos cálculos da Secretaria de Agricultura e Abastecimento
de São Paulo, só os supermercados jogam fora 13 milhões
de toneladas de alimentos a cada ano. Mais de mil toneladas de produtos das
feiras livres vão para o lixo a cada dia. Um quarto de tudo o que se
produz em frutas, verduras e legumes no país é jogado fora. Se
fossem recolhidas as sobras dos restaurantes e cozinhas industriais, seriam
toneladas de alimentos. O que jogamos fora em nossas casas, somariam uma quantidade
maior ainda.
Essa realidade faz com que numa mesma sociedade a fome e a desnutrição
convivam ao lado de uma gigantesca sobra de alimentos. Um sistema gerenciado
pelo Estado poderia fazer com que essa "sobra de comida" chegasse
a quem tem fome. É isso o que vêm fazendo dezenas de organizações
não-governamentais.
Uma das primeiras iniciativas surgiu de uma idéia do
Betinho, em 1992, quando lançou pelo país inteiro uma campanha
contra a fome. Não era possível que um país de tantos recursos,
com safras cada vez maiores, ainda abrigasse tanta gente passando fome, ele
dizia.
Uma das iniciativas mais bem-sucedidas é o "Mesa
São Paulo", do SESC Carmo, em São Paulo, criado ainda em
1994. Hoje, uma equipe de profissionais treinados e com veículos percorre
dezenas de empresas na cidade, recolhendo doações em alimento.
São quase 40 mil pessoas atendidas em cerca de 200 instituições.
Outra iniciativa conhecida é a "Associação
Prato Cheio", surgida há dois anos e formada por universitários
que passaram a recolher alimentos nos mercados da cidade. Em um ano, foram coletados
mais de 30 mil quilos de alimentos, oferecidos a mais de mil moradores de rua,
mães e crianças carentes.
Há dezenas de outras organizações da sociedade civil trabalhando das formas mais variadas para reduzir o desperdício e a fome em todo o país. Numa outra frente, o Conselho Regional de Nutricionistas dos Estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná vem promovendo projetos e orientando nutricionistas de empresas e instituições a reduzirem as perdas de alimentos.
Desperdício dentro de casa
O desperdício pode ser visto em toda parte. O restaurante
que prepara abobrinhas recheadas, por exemplo, joga fora o miolo e as pontas
dessas abobrinhas. Na seleção dos repolhos que vão aos
supermercados, são descartados todos aqueles que fogem do tamanho padrão.
Mas há outros desperdícios nem sempre visíveis
e que acarretam igualmente grandes prejuízos. Só na agricultura,
20% ou mais de toda a produção são desperdiçados.
Estima-se que só a mecanização no transporte e distribuição
dos alimentos, e sua acomodação correta nas prateleiras, poderiam
reduzir o desperdício em 15%.
Outro cálculo da Secretaria da Agricultura diz que 30%
de toda a comida comprada por uma dona de casa acabam indo para o lixo. Dados
de especialistas em coleta urbana estimam que cada morador das cidades produza
um quilo de lixo por dia. Desse total, de 50% a 70% seriam alimentos.
A mesma Secretaria da Agricultura elaborou um programa detalhado
para evitar perdas em todas as fases da produção e consumo dos
alimentos. O planejamento deve começar pela decisão do plantio,
quando são selecionadas as variedades mais adequadas às condições
locais de clima e solo. Também é preciso considerar as potencialidades
do mercado e as melhores épocas para a comercialização.
Essa espécie de guia anti-desperdício passa pela
pré-colheita - sugerindo o uso adequado de adubos e defensivos agrícolas
- até o adequado treinamento da mão-de-obra na colheita e o correto
manuseio e acondicionamento dos produtos.
A lista de cuidados passa pela pós-colheita, pelo embalamento,
o armazenamento e o transporte, até chegar às nossas casas, os
consumidores. Uma das sugestões simples mas que nem sempre seguimos:
devemos comprar as hortaliças com folhas e talos e utilizá-los
na alimentação, pois têm alto valor nutritivo.
Já há muitos especialistas e instituições
preocupados com o desperdício de alimentos. Falta transformar esses cuidados
em práticas do nosso dia-a-dia e em políticas de administração
que devemos cobrar dos nossos governantes.
Aproveitando o tema e o dia, vale a pena lembrar: o importante, hoje, é não desperdiçar nosso voto.
|
|
![]() |
Jocelem
Salgado - Profª. Titular
em Nutrição LAN/ESALQ/USP/Campus, Piracicaba Mais informações- clique aqui |