| "Para o manejo da dor crônica,
é necessário tratamento com equipe multidisciplinar
formada por médicos, fisioterapeutas e psicólogos. Nos
desconfortos e dores leves, mas constantes, o indicado é procurar
um ortopedista ou reumatologista" |
Inverno, 10 graus, um movimento brusco e a coluna
“travou”! E agora? Vamos para o pronto-socorro, após
radiografias e ressonâncias magnéticas descobre-se que
há um problema crônico na coluna. Na realidade a coluna
já vinha dando sinais de que não estava muito bem, pois
desconforto e dores não muito fortes, mas relativamente constantes
já estavam presentes. Esse tipo de relato é mais comum
do que imaginamos. |
Quando falamos em dor, em especial aquela considerada crônica,
estamos falando de um assunto de saúde pública, que resulta
em abstenções no trabalho ou até mesmo incapacitação
do indivíduo para exercer suas funções. Além
disso a dor costuma ser acompanhada de insônia, depressão,
problemas de relacionamento, dentre outros prejuízos emocionais.
Apesar de procurarmos fugir da dor e buscar o prazer automaticamente,
é importante nos lembrarmos que a dor é um mecanismo de
proteção do corpo e ocorre sempre que qualquer tecido esteja
sendo lesado. Ela faz com que o indivíduo reaja, para remover o
estímulo doloroso agudo. Por exemplo, ficando muito tempo em uma
posição, podemos ter destruição tecidual,
por falta de fluxo sangüíneo na pele, onde ela é comprimida
pelo peso do corpo. Com a dor, deslocamos o peso inconscientemente, para
permitir que a circulação se restabeleça, e o tecido
volte a receber oxigênio e nutrientes. Uma pessoa que tenha perdido
o sentido de dor, como aquela que passou por uma lesão da medula
espinal, não se desloca, resultando em destruição
total e descamação da pele, nas áreas sob pressão
do corpo.
Dor crônica: possíveis causas
Em muitos casos, porém, a dor é crônica e nem sempre
o paciente consegue livrar-se dela. A dor crônica é uma causa
importante de incapacitação. A dor crônica impõe
estresses fisiológicos, psicológicos, familiares e econômicos,
podendo exaurir a energia do indivíduo. As influências psicológicas
e ambientais podem desempenhar um papel importante no desenvolvimento
dos comportamentos associados à dor crônica, como perda de
apetite, distúrbios de sono e depressão. A diminuição
da tolerância à dor e depressão pode resultar da depleção
(perda) de *serotonina e de endorfinas. Os antidepressivos tricíclicos
mostram aliviar uma variedade de síndromes dolorosas crônicas,
dando crédito à teoria de que a dor crônica e a depressão
podem compartilhar uma via biológica comum.
Além dos tipos de dor, um fator que não pode ser esquecido
quando se trata deste tema é que a capacidade dos indivíduos
para suportar a dor é variável. As crenças formadas
durante o período de socialização contribuem para
nosso limiar de dor. Em outras palavras, dependendo de nossa herança
cultural, podemos suportar mais ou menos a dor.
Estudo
**Em um estudo de Bates de 1993, citado por Benson, concluiu-se que em
dores crônicas ou prolongadas, como aquelas associadas à
artrite ou torção das costas, pacientes hispânicos
apresentavam as dores mais intensas, seguidas dos italianos. Ao contrário,
os poloneses e franco-canadenses apresentavam índices mais baixos,
juntamente com os “velhos americanos” e irlandeses. Asiáticos,
africanos e americanos nativos não entraram na amostra.
O entendimento da fisiologia da dor crônica apresenta ainda várias
lacunas. Por outro lado, sabe-se que o estudo da interação
mente-corpo é fundamental na compreensão da dor em seus
vários aspectos. Dessa maneira, para o manejo da dor crônica,
é necessário tratamento com equipe multidisciplinar formada
por médicos, fisioterapeutas, psicólogos e, em geral, o
paciente deve estar disposto a se engajar nos tratamentos na busca de
um alívio.
***Kaplan e colaboradores realizaram um estudo preliminar sobre fibromialgia
e um programa de práticas mente-corpo que reúne yoga, relaxamento
e meditação. A fibromialgia é uma doença crônica
caracterizada por dores em várias partes do corpo, fadiga, distúrbios
de sono e resistência aos tratamentos. Sua etiologia (origem/causa)
específica é desconhecida. Sua prevalência oscila
entre 0,5 a 5% da população, ocorrendo na sua maioria em
mulheres. Dentre os resultados observados com o programa, os autores destacaram
melhoras no bem-estar geral, dores, sono, fadiga, e sintomas médicos
em geral.
A literatura científica necessita ainda de novos estudos bem controlados
sobre os a relação de práticas mente-corpo sobre
dores crônicas, porém o que se observa em boa parte dos estudos
nesta temática é que tais práticas além de
contribuir para a redução das dores crônicas, aliviam
também as dores emocionais representadas pela depressão
e ansiedade principalmente.
Sugestão
Que tal prestar atenção nos desconfortos e dores leves mas
constantes que podemos apresentar e procurar um especialista (ortopedista
ou reumatologista), antes que o problema se agrave? Muitas vezes a indicação
de um tratamento que envolva uma correção postural já
pode trazer grandes benefícios. Uma vez diagnosticados, os pacientes
podem precisar do auxílio de outros profissionais inclusive da
área complementar - clique
aqui.
*Serotonina e noradrenalina são neurotransmissores (substâncias
produzidas pelo cérebro, com funções distintas em
diferentes áreas cerebrais). Genericamente, a serotonina, é
um dos responsáveis pela sensação de prazer e a noradrenalina
está envolvida na reação de luta ou fuga.
**Benson é um cardiologista de Harvard, conhecido por suas pesquisas
sobre a relação mente-corpo. Ele cita o trabalho de Bates,
mas não especifica a especialidade deste último.
***Kaplan é um dos autores de um trabalho clássico sobre
MBSR para fibromialgia, citado em vários trabalhos na área
da relação mente-corpo e dor.
Dicas de leitura
Angelotti, G. Terapia cognitivo-comportamental no tratamento da dor. Casa
do Psicólogo, 2007.
Astin, J. A.; Berman, B. M.; Bausell, B.; Lee, W.; Hochberg, M. &
Forys, K. (2003). The efficacy of mindfulness meditation plus qigong movement
therapy in the treatment of fibromyalgia: a randomized controlled trial.
The Journal of Rheumatology, 30(10): 2.257-2.262.
Benson, H. & Stark, M. (2001). Medicina espiritual: o poder essencial
da cura. Rio de Janeiro, Campus.
Guyton, A. C. & Hall, J. E. (2002). Sensações somáticas:
II. Dor, cefaléia e sensações térmicas. In:
Tratado de Fisiologia Médica. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan,
10ª. ed., p. 516.
Kaplan, K. H.; Goldenberg, D. L. & Galvin-Nadeuau, M. (1993). The
impact of a meditation-based stress reduction program on fibromyalgia.
General Hosital. Psychiatry., 15(5): 284-289.
Porth, C. M. (2002). Função somatossensorial e dor. Fisiopatologia.
Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 6ª. ed., p. 1.075.
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