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Precisamos de heróis?
por Elisa Kozasa

“Finalmente Obama ganhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos! Foi um momento histórico e um dos mais importantes da minha vida. Agora as coisas vão melhorar de verdade!” Foi mais ou menos esse o texto enviado por uma pessoa que está morando nos Estados Unidos, refletindo a esperança depositada no presidente eleito.

Uma foto em que ele está em um grafite de rua em um muro de Los Angeles, vestido de Super-Homem, também chama a atenção em uma folha de jornal. Na mesma página, o diretor nacional da Ku Klux Klan, famosa organização racista americana, diz que ele é apenas metade negro, pois foi criado por sua mãe branca, numa posição de ao menos parcial aceitação de sua vitória (uma alegação surpreendente para um grupo tão radical). Seu chefe de gabinete do governo, Rahn Emmanuel é apelidado de “Rahmbo” pela imprensa americana.

Super-Homem, Rambo, do que mais estaremos precisando? A vitória destas eleições carrega um peso acima do normal, em vista da crise americana (e conseqüentemente mundial). Será que os americanos (e todos nós) realmente acreditam que o “mundo vai mudar”? Em qualquer eleição, quando surge um candidato novo, aparentemente com uma vida íntegra (pelo menos até que seu mandato revele características até então obscuras), que nunca tenha ocupado aquela posição, surge quase que uma histeria atrás do “Salvador”! Muitos candidatos se utilizam desta imagem para conseguir a vitória. Outras pessoas, verdadeiramente íntegras, que já conheci nesta situação, até desistem de sua candidatura, seja para qual cargo for.

O peso da vitória, neste caso, pode vir a desabar sobre o eleito, esmagando-o e impedindo-o de recuperar sua imagem imaculada. E é muito provável que isto aconteça, pois super-heróis não existem, apesar de nosso comportamento nos impelir a esperar por um grande líder. A maioria de nós, ainda tem uma forte influência do comportamento de bando que observamos em outros animais, onde se espera que o macho alfa (ou fêmea alfa), domine e dite as regras para todos. Os ditadores muitas vezes se estabelecem porque não somos capazes de reagir a tempo contra estes animais dominantes do grupo, que dispõe dentro da sofisticação humana, não apenas de superioridade física, mas intelectualmente manipuladora.

Esperar por um grande herói certamente não vai nos fazer viver melhor, principalmente se esta figura servir para cobrir nossos próprios erros na sociedade. No exemplo americano, não dá para dizer que não se sabia dos riscos gerados por um consumo exagerado às custas de hipotecas e financiamentos gigantescos. Ou que após eleger e reeleger um presidente com perfil bélico e intolerante, se possa estabelecer a sonhada paz votando em um outro de diferente partido.

O que pode nos fazer viver melhor talvez seja perceber em primeiro lugar o quanto somos responsáveis pelo que ocorre no mundo hoje em dia. E se notarmos que algo não vai bem, identificar nossa parcela nesta situação, e mudar nossa atitude perante este algo. Julgarmo-nos simplesmente oprimidos e incapazes sem a presença de um herói para nos salvar, é a pior atitude que podemos ter perante a vida. Por exemplo, que tal apoiarmos, participarmos ou criarmos uma instituição que educa crianças carentes? Ou ainda outra que desenvolva projetos relevantes para a comunidade? Podemos ser os heróis de nossa própria história!

Dicas de leitura e vídeo:
Obama chama reforços contra acrise- Jornal da Tarde, 6ª. Feira 07-11-2008, pág. 14ª.

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Elisa Kozasa
é pós-graduada em psicobiologia - mestrado e doutorado - (Unifesp)
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