Vyaestelar: Qualidade de Vida para quem busca o seu bem-estar pessoal

Meio Ambiente: uma questão moral

Por Angelo Medina
Entrevista: Samuel Murgel Branco

Especialista afirma que problema do meio ambiente passa pela vontade política


Samuel Branco:"Soluções para o meio ambiente devem ser globais e não pontuais"

Circuitos ecológicos de Minas Gerais são áreas de preservação ambiental


Meio Ambiente: uma questão moral, Samuel Murgel Branco, ED.OAK Educação e Meio Ambiente , 224 pags, R$34,00

Grupo de Discussão: Através do voto podemos ajudar a preservar o meio ambiente?
Envie esta entrevista para um amigo

Em pleno século XXI, as pessoas têm a sua atenção despertada muito mais pela fumaça negra desprendida pelo escapamento de um caminhão ou pela chaminé de uma fábrica, do que pelo perigo representado pelo monóxido de carbono emanado pelo escapamento de seus carros. Como se a questão do meio ambiente fosse um problema distante e exclusivo de entidades governamentais, fábricas, ONGs...

No entanto, as alterações provocadas pelo homem em seu ambiente são um fato cientificamente estabelecido. Independente dos enfoques: político, sócio-econômico, cientifíco e até mesmo religioso.

Hoje, o problema da preservação do meio ambiente é uma questão moral, porque além de afetar a sua qualidade de vida é a sua sobrevivência que está sendo ameaçada.

Nesta entrevista ao Vya Estelar, o profº Samuel Murgel Branco, especialista em Ciências Biológicas e autor do livro Meio Ambiente: Uma questão Moral, aponta os caminhos para a preservação do meio ambiente, mostrando também como esta questão afeta sua qualidade de vida.

Segundo Samuel, o problema do meio ambiente passa pela falta de vontade política. Já que estamos às vésperas de uma eleição, o momento é muito propício para analisar os programas dos candidatos que propõe, de forma mais efetiva, os caminhos para a preservação ambiental.

Vya Estelar - Por que o senhor trata a questão do meio ambiente como sendo uma questão moral?

Samuel - A questão do meio ambiente vem sendo tratada, até exaustivamente,dos pontos de vista: científico, tecnológico, educacional, econômico e político, sem sensibilizar os grandes responsáveis pela degradação ambiental crescente na medida do desejável ou na proporção das ações e dos investimentos aplicados.

Atualmente, estou convencido, de que a solução desses problemas não depende tão essencialmente do desenvolvimento tecnológico (que existe em abundância, podendo-se contar com grandes especialistas em nosso próprio país e com soluções tecnológicas aqui desenvolvidas para o nosso ambiente tropical). Também não é um problema de custo, que, na maioria das vezes, não é tão alto assim.

Estudos demonstram que, em geral, a produção industrial não é onerada em mais que três ou quatro por cento, pela aplicação de soluções preventivas e corretivas no processo industrial e, para os problemas urbanos, existem soluções eficientes, de baixo custo e, o que é mais importante, amplamente compensadas pelos benefícios que trazem em relação à saúde, alimentação e qualidade de vida dos habitantes.

Meio ambiente: problema moral

O que falta, realmente, é a vontade política de realizar as ações necessárias, seja por uma questão de comodismo, seja pelo fato de tais medidas não resultarem em dividendos políticos, eleitorais, proporcionais aos investimentos aplicados. É, portanto, uma questão de moral.

Vya Estelar - Que moral seria esta?

Samuel - Não existem diferentes "morais", no que respeita ao modo de vida em uma mesma sociedade. A moral é constituída de um conjunto de regras consensuais, tendo em vista essencialmente possibilitar a vida em sociedade e baseada no conceito de liberdade. A preservação de um ambiente sadio constitui, dentro desse conceito, uma obrigação moral, quer dos que utilizam o meio ambiente como fonte de recursos, quer dos responsáveis pela saúde pública e qualidade de vida da população.

Vya Estelar - Já que estamos à beira de uma eleição, o que o senhor sugere aos candidatos em relação à moral política envolvendo o meio ambiente?

Samuel - Qualquer candidato a ocupar uma função no governo, em qualquer instância, tem a obrigação de acenar com soluções para os principais problemas que afligem a população. Esses problemas devem ser abordados não de uma maneira pontual, particularizando aspectos do problema, mas de maneira global, sobretudo dentro de um enfoque de planejamento. O problema ambiental, nesse contexto, não pode ser desvinculado do problema energético, do problema de transportes, do problema alimentar e agrícola, ou do problema de saúde pública. De nada adiantaria, por exemplo, prometer a proteção dos micos-leão-dourados, ou das palmeiras da mata atlântica, exemplos pontuais e completamente desvinculados da problemática da qualidade de vida da população.

Vya Estelar - Como o senhor traduziria, na prática, esta moral política?

Samuel - Necessariamente, os políticos e candidatos deveriam dirigir a sua atenção aos problemas de: matriz energética, em face da ameaça do efeito estufa, implicando toda uma série de problemas técnicos, econômicos e sociais correlatos; à solução do enorme problema dos transportes coletivos nas grandes metrópoles, que vem condicionando problemas de perdas de horas de trabalho, impactos à saúde causados pela poluição do ar, perda de qualidade de vida e longevidade; à solução dos problemas de poluição e assoreamento dos rios, responsáveis pelas inundações, perda de qualidade estética da cidade, comprometimento de mananciais de água potável. Acima de tudo, pensar em uma política nacional energética e de uso dos recursos naturais que não comprometa as futuras gerações. Tudo isso baseado em estratégias factíveis, em soluções compatíveis com o ambiente tropical e com as nossas condições sócio-econômicas, claramente enunciadas e baseadas em um amplo conhecimento conceitual dos problemas.

Voltar

Vya Estelar - É possível apresentar um programa concreto para se preservar o meio ambiente?

Samuel - Um programa completo e concreto para a solução dos problemas ambientais do Brasil será, antes de tudo, um programa de planejamento integrado do país. Isso porque os impactos gerados sobre o meio ambiente são decorrentes pura e simplesmente da falta desse planejamento: um planejamento que não parta de um viés puramente econômico, mas que leve em conta a qualidade geral de vida e a sustentabilidade de todas as ações que contribuem para o desenvolvimento. É evidente que um tal planejamento não deve ser centrado em um ministério, secretaria ou órgão central de planejamento, mas deve perpassar e receber a contribuição de cada um dos setores de desenvolvimento social do país: uma atividade transversal, para utilizar a terminologia, a meu ver muito apropriada, dos setores educacionais. A conservação do meio ambiente não pode ser objeto de ações de um único órgão ambiental, destituído de quaisquer ações, poderes ou ingerências sobre as atividades produtoras.

A base do programa

Vya Estelar - Daria para explicar qual seria o fio condutor básico desse programa?

Samuel - Um programa de planejamento visando (entre outras coisas) a preservação do meio ambiente, teria que basear-se, forçosamente, em um levantamento de necessidades e potencialidades de recursos naturais, isto é, em uma avaliação metódica das reais necessidades do país em termos de alimentos vegetais e animais, de fontes energéticas, de recursos minerais e etc...

Uma avaliação tanto quanto possível precisa das reservas e disponibilidades atuais desses elementos; das capacidades de reposição dos recursos que sejam renováveis e recicláveis; das possibilidades de permutas de recursos que temos em demasia com recursos absolutamente indispensáveis que outros possuam de sobra. E, em função disso, programar o nosso desenvolvimento de maneira sustentável. Qualquer outra maneira de promover o desenvolvimento seria necessariamente ou predatória em relação às nossas fontes de recursos ou parasitária em relação às fontes de recursos de outrem.

Vya Estelar - A interferência do homem na natureza, a preservação do meio ambiente e a qualidade de vida: como equilibrar estes elementos?

Samuel - Mediante as medidas de planejamento acima indicadas, isto é, equilibrando necessidades com disponibilidades. É como a nossa conta bancária: nunca devemos retirar dela mais do que nela depositamos...

Depredação do meio ambiente passa pela sobrevivência

Vya Estelar - Por que o homem depreda tanto o meio ambiente?

Samuel - O homem necessariamente depende dos elementos da natureza e do meio ambiente. Mais do que qualquer outro ser vivo, pois ele, mercê de sua característica indefesa (sem garras, sem chifres ou outro componente agressivo; sem grande capacidade de proteger-se no alto das árvores, como seus ancestrais símios; sem capacidade para desenvolver grandes velocidades de fuga e sem cobertura de pêlos ou penas que o protejam contra as intempéries), porém dotado de grande capacidade intelectual e habilidade manual, teve que recorrer a estas para sobreviver mediante uma capacidade de indústria, de transformação, que, entretanto, exige grandes quantidades de recursos naturais.

Desenvolvimento populacional + industria mecanizada + consumo excessivo de recursos naturais = depredação ambiental

Suas exigências não se limitam, pois, às suas necessidades fisiológicas, como em qualquer outro animal. Enquanto as populações humanas eram limitadas, essas necessidades se mantinham em certa compatibilidade com as disponibilidades naturais e com as capacidades de renovação natural. Foi, porém, com o grande desenvolvimento populacional, com a criação da indústria mecanizada - exigindo, além do mais, fontes de energia - e com a maior longevidade proporcionada, sobretudo, pelos avanços na medicina e na produção de alimentos, que essa atividade se tornou predatória, isto é, com um consumo de recursos naturais maior do que as disponibilidades. Além disso, o hábito gregário, que levou o ser humano a concentrar cada vez maior número de pessoas em pequenas cidades, gerou um sistema centrípeto de concentração de matéria e energia, processadas na área urbana e sem retorno ao meio rural ou às fontes primárias, acumulando subprodutos nas formas de esgotos, lixo e matérias gasosas.

Voltar

Vya Estelar - Que medidas as indústrias deveriam adotar para a preservação do meio ambiente?

Samuel - Em primeiro lugar, seria necessário conscientizar o industrial de que muitos dos subprodutos que ele lança fora, poderiam ser reaproveitados ou aproveitados por outro tipo de indústria. Algumas indústrias, intimadas a não poluir o ambiente com esses resíduos, acabaram tendo maior lucro, em lugar de prejuízos. É necessário, pois, que se tire o maior proveito possível das matérias primas utilizadas: inclusive a água pode ser recirculada para novas utilizações.

Em geral, a simples racionalização do processo industrial, num sentido conservativo ou sustentável, leva a uma grande economia de matérias primas e energia, contribuindo para benefício do meio ambiente e das fontes de recursos naturais e energéticos. Em relação ao que absolutamente não puder ser reciclado ou reaproveitado, então procede-se ao tratamento, por processos tecnológicos vários, sendo que alguns destes podem levar ainda ao aproveitamento de resíduos finais. Uma outra medida prudente, seria a localização das indústrias em locais onde ocorra maior diluição de resíduos líquidos ou gasosos e onde exista maior disponibilidade de água e outros elementos essenciais. Caberia ao planejamento global do Estado, dotar regiões propícias à localização de indústrias, de facilidades de infraestrutura viária, energética, habitacional e etc... de modo a promover maior descentralização urbana.

Vya Estelar - Qual papel caberia ao cidadão?

Samuel - Os preceitos morais obrigam a todos, indistintamente. Por isso se diz que a moral possui um caráter imperativo, isto é, de obrigação, e categórico, no sentido de não haver alternativas possíveis de comportamento. Assim sendo, a moral obriga todos os cidadãos à observância de algumas condições de comportamento social, em benefício de toda a comunidade, tais como a de não acumular lixo, que possa atrair ratos ou favorecer a proliferação de moscas e baratas; não fazer gastos excessivos de água, que poderá faltar para os outros, ou em épocas de estiagem; não lançar os seus esgotos ou efluentes de fossas ou tanques sépticos nas sarjetas ou galerias de águas pluviais, pois isso contribuiria para a poluição do rio ou do mar nas proximidades, transmitindo doenças aos seus usuários.

Moral e liberdade

Além disso, o conceito de moral guarda íntima relação com o conceito de liberdade e a liberdade de cada um termina onde começa a colidir com a liberdade dos outros. Assim, o uso excessivo de buzinas, ou de aparelhos de som em alto volume, ao interferir com a liberdade dos vizinhos, é imoral. Finalmente, as pessoas deveriam ser movidas sempre por interesses construtivos, criando facilidades e improvisando soluções, em benefício da comunidade. Tais preceitos deveriam fazer parte do conjunto de preceitos morais que são transmitidos às crianças, nas escolas e nos próprios lares.

Vya Estelar - Como deve ser um ambiente ecologicamente equlibrado?

Samuel - Os ambientes naturais - florestas, oceanos, desertos, lagos - são sempre ecologicamente equilibrados. Isso se dá em virtude de um equilíbrio natural, proporcionado pelo fenômeno denominado homeostase, em que diferentes processos na natureza se complementam, de modo a um compensar as conseqüências do outro.

Assim - só para citar um exemplo, pois não creio que seja objetivo dessa entrevista aprofundar o tema nessa oportunidade - o oxigênio que é consumido e o gás carbônico produzido pela respiração animal, vegetal e de microrganismos na natureza é complementado pela atividade fotossintetizante, consumindo o gás carbônico e produzindo oxigênio, de modo a manter estáveis as concentrações dos dois componentes da atmosfera.

Equilíbrio distante

Num ambiente antrópico - isto é, ocupado e modificado pelas populações humanas - o ambiente nunca é ecologicamente equilibrado, mas o equilíbrio natural, prejudicado pelas atividades humanas (por exemplo, a maior produção de gás carbônico e o maior consumo de oxigênio, provocados pelo uso da matéria orgânica como combustível), deve ser substituído por atividades planejadas de modo a garantir um ambiente artificialmente estável, compatível com a própria subsistência do ser humano e com a sua melhor qualidade de vida. O controle de poluição, o uso de energias alternativas, o reflorestamento, o uso sustentável dos recursos naturais são medidas que fazem parte da manutenção dessa estabilidade desejável.

Vya Estelar - A questão da poluição do ar e das águas. É possível combater?

Samuel - Sim, naturalmente. Primeiro, mediante o planejamento integrado, procurando não localizar grandes indústrias e grandes povoações às margens de pequenos rios, ou em locais em que o espaço exíguo já se encontre saturado de gases e matérias particuladas. Segundo, mediante processos de reutilização e tratamento de resíduos, de que já falamos.

Voltar

Vya Estelar - Como fica a questão moral em relação à legislação ambiental?

Samuel - A legislação, na verdade, é a expressão escrita de preceitos morais consensuais. Entretanto, ela é por vezes muito mais específica, devendo considerar particularidades que o simples senso moral não atinge. Ela deve estabelecer condições para a realização do que pedem os preceitos morais, mais genéricos. Ao estabelecer essas condições, freqüentemente o legislador deve entrar am matéria técnico-científica que lhe permita conceituar convenientemente o problema. Quando isso não acontece de maneira adequada, a lei se torna uma "colcha de retalhos", constituída de uma série de dispositivos desconexos, quando não contraditórios, abordando questões pontuais, sem uma doutrina geral que permita resolver um grande número de situações sem que seja necessário pontuá-las especificamente. Apesar de que temos grandes juristas com competência reconhecida internacionalmente na questão ambiental, parece-me, não obstante, que eles nem sempre são ouvidos pelos legisladores.

Vya Estelar - Qual é a imagem de caos ecológico, dentro do nosso cotidiano, relacionado ao meio ambiente, que será a mais alarmante para o futuro de nossos netos ou bisnetos? Existiria alguma solução para eliminá-la?

Samuel - Uma guerra nuclear tornaria o ambiente da Terra inabitável, pelo menos para a espécie humana. Se não ocorreu até hoje foi muito menos por respeito à moral e à dignidade humana, do que pelo temor de resposta de igual poder destruidor, ou por estar o poder nuclear concentrado praticamente nas mãos de um só contendor. Mas a hipótese não está definitivamente afastada. Pelo contrário, cada vez mais os povos se empenham em obter armas nucleares.

Efeito estufa

Uma outra fonte de preocupação, diz respeito ao efeito estufa que, a mais longo prazo, poderá produzir efeito semelhante. E os mesmos detentores de poder, que não abrem mão do poderio nuclear são, também, os que não abrem mão da exploração, comércio e uso dos combustíveis fósseis, os causadores dessa ameaça global. A solução para eliminar ambos os problemas é obviamente de natureza moral e não tecnológica.

Vya Estelar - O que está sendo perdido, atualmente, com relação ao meio ambiente, que será indispensável no futuro?

Samuel - De uma maneira global, os ciclos sazonais e as características e equilíbrio climático em todas as partes do mundo. Ou as reservas florestais, capazes de absorver grandes quantidades de gás carbônico e contribuir para a manutenção da estabilidade desejada. Mais especificamente, alguns metais como o chumbo, ou o mercúrio, e inúmeras espécies vegetais e animais, representativas de uma reserva de importância potencial, alimentar, farmacológica e industrial.

Vya Estelar - Gostaria que o senhor explicasse o Protocolo de Kyoto assinado em 1997 e o que vem sendo feito até hoje?

Samuel - Esse protocolo, assinado em Kyoto, após cuidadosas medidas e pesquisas realizadas por cientistas de todo o mundo e amplamente discutidas em mesas redondas em várias ocasiões, visa reduzir os impactos causados pelo lançamento de gás carbônico à atmosfera, pelos processos de combustão. Como os efeitos da combustão de carbono não reciclável, como o de origem fóssil, constituem a maior ameaça, por não ser reversível, houve um consenso mundial no sentido de se reduzir o consumo de petróleo, gás e carvão minerais, de maneira progressiva, à medida que fossem sendo desenvolvidos processos alternativos de obtenção de energia, a partir da luz solar, do hidrogênio, do álcool ou mesmo dos ventos, marés ou fontes hidrelétricas.

A maior parte dos países, inclusive os Estados Unidos, assinaram esse protocolo, convencidos da sua urgência. Entretanto, o novo governo dos Estados Unidos, logo que assumiu no início de 2001, retirou-se do convênio, sob alegação de que o mesmo prejudicaria os seus interesses econômicos. Como 25% do gás carbônico fóssil produzidos no mundo provêm daquele país, a sua retirada significa um forte golpe contra o interesse de todos os países do Globo. Um problema moral...

Voltar