| Imobilidade no yoga
- "Na imobilidade é que você poderá
perceber o seu corpo, onde está necessitando se alongar, etc.
Na sequência rápida por exemplo, não dá
tempo de o corpo receber a mensagem do cérebro de que o músculo
precisa se alongar. A tendência do músculo é contrair
para aguentar impacto e força, quando há a permanência
na imobilidade, o corpo percebe quais locais estão precisando
de alongamento, de 'ajustes' e deixa que o músculo se alongue,
pois já 'percebeu' que não vai sofrer impacto naquela
área, percebe que o comando é para alongar" |
O yoga é uma tradição milenar,
um corpo de ensinamento elaborado e completo, onde não
se pode mudar nada, a não ser a abordagem, para que seja mais
compreensível para época, lugar ou cultura onde é
praticado. Acho importante rever os princípios básicos
do yoga, existem tantos desvios, tantas alterações no
que se pratica hoje, que vou apontar de novo seus preceitos básicos.
|
A primeira característica das posturas, (chamadas
de asanas) é o alongamento dos músculos depois de terem
sido relaxados. Para que esse alongamento seja feito nos limites de segurança,
devemos ficar relaxados, executar movimentos lentos e buscar a passividade
completa, mas com atenção, interiorização
sobre a zona de estiramento.
No texto anterior (clique aqui),
falei da importância da permanência na imobilidade para ultrapassar
os limites corriqueiros de alongamento dos músculos, mas a imobilidade
prolongada nas posturas é uma condição essencial
para que o asana revele seus efeitos específicos. Vou começar
pelo aspecto físico.
Movimentos no yoga e vísceras
O aluno, principiante ou avançado, terão de buscar a imobilidade
total e rigorosa.
A princípio cada postura mexe com a coluna vertebral: torção,
flexão, extensão, lateralização, desencadeando
efeitos profundos na medula espinhal que circula dentro da coluna vertebral
e sobre as correntes nervosas que estão ao longo da coluna. Cada
flexão atua poderosamente sobre a medula, sobre as raízes
nervosas que saem da coluna pelos orifícios de conjugação
das vértebras e sobre a corrente de gânglios do sistema simpático.
| Porém, a natureza nos equipou de um sistema
de segurança para que cada movimento não desencadeie
IMEDIATAMENTE efeitos sobre as vísceras. O que seria de nós
se cada movimento provocasse um efeito sobre o fígado ou o
intestino? Os movimentos corriqueiros não têm efeitos
sobre as vísceras, porque essas mesmas vísceras têm
reações demoradas. |
 |
Se nós imobilizamos o corpo numa determinada posição
que atua sobre a raiz nervosa e que é ligada a um órgão
definido, depois de algum tempo – geralmente alguns segundos –
uma reação acontece no órgão. Quanto mais
longa a permanência, mais efeitos sobre o órgão solicitado.
Lembre que o yoga coloca o corpo em situações “não
usuais” e não em situação “antifisiológica”.
Raramente existe uma contraindicação, os efeitos são
sempre benéficos. A imobilidade é a única condição
para atuar profundamente nas vísceras. Sem imobilidade não
existe esta ação. Quer você seja principiante ou avançado,
vale a mesma regra.
Uma torção, por exemplo, não terá os mesmos
efeitos se a imobilidade for curta (terminar logo, entrar na postura e
sair sem ficar na imobilidade pelo menos entre 6 e 10 respirações,
quanto mais, melhor) ou dinâmica (sequências rápidas,
como se estivesse fazendo exercícios, abdominais por exemplo),
ou prolongada (permanecer na postura enquanto respira e enquanto o corpo
se “adequa, se ajeita”, se alonga).
Modificação das circulações
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A imobilidade prolongada numa posição
determinada vai modificar profundamente a circulação
sanguínea. O exemplo mais evidente é a postura sobre
a cabeça. Nesta postura, por gravidade, o sangue vai irrigar
melhor o cérebro durante alguns minutos, usando sistematicamente
a força da gravidade. |
Isso faz parte do yoga. Olhando a postura sobre a cabeça, parece
evidente esse resultado, mas as posturas gerais do yoga foram elaboradas
levando em conta e usando a força da gravidade. Cada asana condiciona
a circulação sanguínea, a permanência na imobilidade
permitirá usar da melhor forma esse recurso.
O sangue tem tendência a se acumular para as partes baixas do corpo
- pergunte para quem fica em pé o dia todo.
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Cada posição do corpo, cada asana,
re-aloca a massa sanguínea para uma determinada parte
do corpo. Essa postura do diamante “vajrasana”, banha
os órgãos digestivos de sangue renovado pela oxigenação
da respiração lenta e tranquila, e massageia esses órgãos
pela ação do diafragma. Uma permanência prolongada
irá amplificar os efeitos benéficos. |
Um outro sistema circulatório que se beneficiará dessa
imobilidade prolongada será o sistema linfático, responsável
pela nossa resistência imunológica. Os numerosos nódulos
do sistema linfático são cheios de células defensoras
de nossa saúde.
Quando há uma infecção, esses nódulos incham
e dentro do nódulo ou do gânglio ocorre uma luta química
contra os invasores.
A circulação linfática é muito mais lenta
que a sanguínea, porém, o sistema é comparável
ao *sistema de retorno venoso e depende de 3 fatores:
- Linfa - A diferença de pressão: a rede pode ser comparada
às águas da chuva. As gotas descem e vão formando
os riozinhos, que formam os rios e correm para as partes mais baixas.
- Linfa - Da zona de pressão maior até zona de pressão
menor: a linfa é coletada na região do pescoço, onde
existem canais coletores maiores. Só por gravidade podemos influenciar
no conteúdo destes coletores.
- Líquido cefalorraquidiano: o liquido cefalorraquidiano que banha
o cérebro pode ser comparado a linfa, mesmo que ele tenha um ritmo
mais lento, será beneficiado pelo mesmos princípios de funcionamento
do asana.
Contrações musculares
| As contrações musculares contraem as
veias e impulsionam o sangue em direção ao coração
e as válvulas impedem o refluxo do líquido para baixo.
As contrações musculares também, ajudam na coleta
da linfa pela rede. Quando essas circulações são
lentas, as células são carregadas de toxinas, perdendo
sua vitalidade: é imprescindível livrar o corpo dos
“lixos” tóxicos. |
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Infelizmente uma vida sedentária não propicia a circulação
dos líquidos do corpo, ao contrário: existe estagnação
mortal.
Respiração
A cada inspiração forma uma depressão
no tórax, que é criada pela sucção sobre a
totalidade da rede linfática e venosa. A respiração
yogica, completa, lenta e profunda é o ator principal
dessas circulações.
Durante a postura, o corpo se adapta e, gradativamente, a respiração
fica mais ampla e mais confortável: o centro de gravidade da respiração
só desloca durante IMOBILIDADE rigorosa.
Ativador especial e específico ao yoga: a
força da gravidade
O que ativará todas essas funções durante o asana
será a força da gravidade. A aceleração das
circulações é uma garantia de um bom abastecimento
de cada célula. A saúde de cada célula se reflete
sobre a saúde geral.
Mesmo quando a postura parece simples, como a vajrasana (do diamante,
acima), os efeitos são profundos, desde que tenha permanência
na imobilidade. Mesmo que o adepto não sinta nada, a não
ser uma sensação de calor em certas partes do corpo, ou
certa pressão, coisas profundas acontecem em cada órgão.
Imobilidade prolongada
O tempo de duração da imobilidade determina o grau de intensidade
de uma postura. Mesmo que o praticante seja flexível, ele se depara
com as mesmas preocupações e colhe os mesmos benefícios.
Existem, a grosso modo, quatro graus de intensidade, determinados a partir
tempo de permanência:
Grau inferior: imobilidade de um a dois minutos. Menos
tempo que isso não se trata de asana, mas de ginástica ou
movimento cotidiano. É a permanência média em uma
postura que o ocidental costuma ficar.
Grau médio: de dois a cinco minutos. Aumentando
a permanência, um pouco a cada semana, o praticante verá
seus limites expandidos. Parece-me importante apontar que passando do
segundo minuto, o corpo encontra seu jeito de respirar e mais conforto.
O que fica impaciente realmente não é o corpo, é
a mente. A imobilidade rigorosa é uma benção para
o corpo e um desafio para a mente. Seria bom praticar a cada dia, uma
ou duas posturas, com duração maior.
Grau superior: de cinco até 15 minutos. Aos poucos
o adepto prolonga a duração. É geralmente o máximo
que um aluno ocidental pode aguentar, sem a assistência séria
e direta de um “guru” ou professor qualificado.
Grau máximo: trabalhando à vontade....
Até três horas! Além de 15 a 20 min de permanência,
a vontade está testada. Seria interessante saber quais são
os efeitos profundos dessa permanência. Ela é citada nos
tratados clássicos, mas isso quase nunca acontece.
A imobilidade prolongada é um fator essencial e rigoroso do sucesso
do asana. O adepto deve se sentir como “uma estátua que respira”.
É sob essa condição que o asana desvendará
sua mágica.
Por que a imobilidade é tão importante?
Na imobilidade é que você poderá perceber o seu corpo,
onde está necessitando se alongar, etc. Na sequência rápida
por exemplo, não dá tempo de o corpo receber a mensagem
do cérebro de que o músculo precisa se alongar. A tendência
do músculo é contrair para aguentar impacto e força,
quando há a permanência na imobilidade, o corpo percebe quais
locais estão precisando de alongamento, de 'ajustes' e deixa que
o músculo se alongue, pois já 'percebeu' que não
vai sofrer impacto naquela área, percebe que o comando é
para alongar.
É o tempo que a mente precisa para receber as informações,
as percepções e enviar os comandos para que o corpo obedeça
o que a postura está pedindo.
Como você viu, quer seja um adepto avançado ou um principiante...
Não faz diferença. Você pode começar hoje que
seus órgãos e seu sistema imunológico já agradecem!
*Sistema de retorno venoso: Na grande circulação sanguínea,
o sangue rico em oxigênio é bombeado do ventrículo
esquerdo do coração, onde segue para todo o organismo e
“ retorna pelo sistema venoso” até as veias cava superior
e inferior, chegando ao átrio direito do coração
com o sangue pobre em oxigênio.
Bibliografia: no. 107 Revista YOGA – André Van Lysebeth
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