| "O yoga deve sempre ser confortável.
A prática cotidiana, o treino regular, faz com que os limites
de conforto sejam sempre empuxados para frente e assim as posturas
vão ficando complexas e mais sofisticadas, naturalmente, um
pouquinho de cada vez, sem esforço" |
Vamos rever abaixo as condições essenciais
para que o asana (postura de yoga) aconteça, e assim, caminhar
um pouco mais adiante nesse mundo infinito que o yoga nos revela.
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Quando essas condições são reunidas,
estamos realizando o asana:
- Imobilidade;
- Permanência;
- Sem esforço;
- Controlando a respiração;
- Controlando a mente;
Nos artigos anteriores (clique aqui),
falei da imobilidade e da permanência, ou seja, um certo tempo que
devemos ficar parados na postura. Se eu tiver que dizer a você como
contar esse tempo, vou dizer para contar em número de respirações
e não em número de segundos ou minutos.
Mas... avançando um pouco... Imobilidade, sim! Por certo tempo,
sim! Mas, sobretudo: SEM ESFORÇO! Essa é a condição
principal e que diferencia das outras atividades físicas.
Sem Esforço! Se pensarmos na importância da competição
em nosso mundo, e principalmente no mundo do esporte, podemos já
entender ou vislumbrar a dimensão do yoga. Mesmo que existam campeonatos
de yoga e competição de yoga física, onde se trata
de superar as proezas.
Na competição é necessária uma forma de medir
o melhor, é necessário ter pesos e medidas
e seguir parâmetros. E a competição no esporte
serve para impulsionar, para ultrapassar os recordes, para melhorar o
treino e se superar.
Já no yoga, não existe nenhum titulo que possa “medir
“ e diferenciar um adepto adiantado de um principiante, exceto a
luz que possa irradiar... Não existe nenhum sinal externo, físico,
que permita classificar os adeptos. Pode existir um verdadeiro yogi sem
que ele tenha uma flexibilidade extraordinária, e pode existir
um contorcionista total sem ser um yogi.
Voltando onde eu queria chegar: no yoga não pode existir esforço,
e portanto, não existe competição. Nem consigo mesmo.
Os resultados produzidos pelo yoga, às vezes espetaculares, tanto
do ponto de vista da flexibilidade corporal como do controle muscular
e mental, são obtidos sem esforço.
Ai você me pergunta: como é possível permanecer em
uma postura como a do gafanhoto ou do pavão sem fazer esforço?
Não é necessário produzir um certo esforço?
Antes de responder, precisamos entender a noção de esforço.
Quando o adepto contrai com força certos músculos para realizar
o asana, nunca vai ultrapassar o limite que separa uma contração
normal de um “verdadeiro esforço”. Ele constantemente
vigia suas sensações internas, para usar o mínimo
dos músculos e o mínimo de força que seja compatível
com a execução do asana e a permanência, sem nunca
se agredir. Respeitando o principio básico do yoga que é
“ahimsa” - a não-violência.
O verdadeiro segredo do sucesso está no trabalho cotidiano e paciente,
indiferente aos progressos ou a ausência de progresso.
É nesse terreno que principiantes e avançados se encontram,
porque sua situação física e mental é a mesma.
Nenhum dos dois pode usar esforços violentos para o sucesso da
postura.
Progresso: um pouco de cada vez... naturalmente... e sem esforço
O yoga deve sempre ser confortável. A prática cotidiana,
o treino regular, faz com que os limites de conforto sejam sempre empuxados
para frente e assim as posturas vão ficando complexas e mais sofisticadas,
naturalmente, um pouquinho de cada vez, sem esforço.
A interiorização necessária ao yoga permite que o
yogi tenha sempre uma percepção mais aguçada dos
pontos de resistência para realizar o asana escolhido. Ele procura
sempre o caminho suave, esse que naturalmente se revela, já que
se recusa a fazer o esforço violento. O yogi, com paciência,
observa e descobre os meios internos, quer sejam musculares ou psíquicos
como a paciência, a persistência, que o levarão ao
melhor conhecimento e que afastarão os limites do que ele é
capaz hoje.
Um relaxamento máximo é certamente compatível com
as posturas e somente os músculos indispensáveis à
realização da postura podem ser contraídos, nenhum
outro. A vigilância para o universo corporal é total e assim
o yogi descobre as tensões inúteis e o “desperdício
de energia” das contrações que se instalam –
as vezes permanentemente – quando não se tem acesso às
técnicas de yoga.
Relaxamento muscular e mental
E importantíssimo lembrar que por “detrás”
de um músculo tencionado, existe uma rede de nervos e esse nervo
está ligado ao sistema nervoso, e que, portanto, quando falamos
em relaxar a musculatura, falamos automaticamente, em dissolver também
as tensões mentais.
Lembramos também que cada músculo esquelético tem
seu “antagonista”: quando contraio o bíceps do braço,
preciso esticar o tríceps do braço. Esse trabalho antagônico
só funciona quando os músculos têm possibilidade completa
de se alongar e/ou contrair. Músculos permanentemente contraídos
não oferecem mais essa possibilidade e perceber que existe a possibilidade
de relaxar um músculo que está permanentemente contraído
não só poupa energia nervosa, como também re-equilibra
o trabalho físico.
Falamos até agora das repercussões físicas do não-esforço,
mas existe também uma aprendizagem que se propaga à respiração
e ao pranayama, principalmente quando se trata de retenções
de pulmões vazios ou cheios.
O yogi aprende, com paciência, a se abstrair do mundo de distrações,
concentrando (reunindo suas faculdades de atenção) sobre
um ponto só do seu corpo, da sua respiração. Para
realizar o não-esforço, precisa manter uma atitude
mental adequada, correta.
| Experimente fazer a postura do arado (halasana -
foto), sem concentração: você vai sentir todas
as travas musculares, e mais provavelmente, seus pés não
encontraram o chão por detrás da cabeça! |
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Volte para o chão, em postura de relaxamento e, conscientemente,
relaxe o máximo de músculos possível, como se você
fosse um pano úmido, abandonando seu corpo no chão à
força da gravidade, se espalhando. Relaxe perfeitamente os músculos
das costas. Agora, lenta e conscientemente, preste atenção
aos músculos que você aciona para elevar as pernas e depois
colocá-las atrás da cabeça. Preste atenção
aos músculos que você alonga para colocar seus pés
para trás da cabeça.
Você permanece com os braços relaxados e os pés atrás
da cabeça, mas pode perceber que modificando a posição
dos braços e colocando as mãos em contato com o pé,
você pode ir dosando o alongamento e aperfeiçoando sua postura.
Agora “visite” seu corpo, todos os músculos e perceba
que mesmo esses que estão acionados procuram o mínimo de
esforço possível, como se seu corpo estivesse cheio de ar...
Quando você sentir leveza total, aperfeiçoe mais um pouquinho,
e você vai se surpreender com a beleza e perfeição
da sua postura. Essa ausência de esforço, com descontração
e leveza dá graça ao corpo, como se fosse uma sensação
oceânica.
A mente está em estado de vigilância o tempo todo. Cada músculo
é acionado e relaxado propositalmente. Não existe postura
simplória.
Quanto mais se “trabalha” o yoga com leveza e atenção
focada, mais se aproxima do verdadeiro yoga.
Nessa situação, cada um é principiante: cada um respeita
as regras essenciais para praticar um yoga feliz, que nos deixa sempre
principiantes felizes!
Texto inspirado do Revue Yoga no. 108, fev. 1973 – de Andre van
Lysebeth
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