| 1967, sou um dos maiores causadores de polêmica do momento, tudo em função de meus célebres testes de coragem. Ao terminar um deles na TV Bandeirantes, o diretor de programação, Antonino Seabra, não pensou duas vezes; me chamou em seu escritório e uma semana depois lá estava eu estreando o programa "Além, muito além do além". Na primeira apresentação, fiz meus testes ao vivo, enterrando pessoas cobertas com cinco palmos de terra. Como estava garoando, e a terra pesada, deu-se a impressão de que o voluntário iria morrer sufocado. Isso criou um suspense muito grande, não só nos telespectadores, mas também em toda a equipe e funcionários que acompanhavam a transmissão. Um dos mais preocupados era o Sr. João Saad, dono da emissora, que achava que aquele seria seu último dia na área de comunicações, pela repercussão que isto poderia acarretar.
O que ninguém sabia, e estou revelando somente hoje, é que o rapaz era faquir, e estava acostumado a ficar horas debaixo da terra. Finalmente, após 30 anos, meu pulo do gato foi revelado. Agora, aqueles que me amaldiçoaram pela minha frieza e tranqüilidade perante tanto desespero e algo que parecia uma tragédia iminente, irão se penitenciar. Na época o programa foi um sucesso total, às 23:00 horas, São Paulo ficava deserta, e milhares de aparelhos de TV sintonizavam no novo fenômeno de programação. Tudo isto se deve à magistral equipe, sob o comando de Mário Pamponet; fazíamos efeitos especiais que dariam inveja aos profissionais da Hollywood de hoje, só que era tudo feito na raça, na improvisação. As coisas iam muito bem e a Bandeirantes, que já tinha inovado com a novela "Os Miseráveis", junto com o Seabra pretendia apostar numa novela de terror. Só que na véspera de se assinar o contrato, as regras foram mudadas; o plano era elitizar a emissora. Isto me surpreendeu pois, entre meus fãs de carteirinha estavam o próprio governador do estado, Silvio Santos e o Jô Soares, pessoas que me deram muita força no inicio de minha carreira televisiva, ou seja, meu público era formado por todas as camadas sociais. Antes de eu ir para a "geladeira", o próprio Silvio me apresentou à diretoria das organizações Vitor Costa (a Globo de hoje), mas Cassiano Gabus Mendes (diretor da extinta Tupi) foi mais rápido e acertou com a Bandeirantes minha transferência. O plano era inusitado, o Zé do Caixão apresentando um programa infantil, mas não deu outra; o programa explodiu em audiência, sempre sob a batuta do genial Antonino Seabra (hoje no SBT), mas como a emissora estava em crise, e o cinema me fascinava demais, preferi ficar com o "cinemão".
Em 1981 volto à Record em "O Show do outro mundo", em 1982 abdico de muitas coisas para me dedicar a política mas, por absoluta falta de jogo de cintura, "dancei" nas urnas; é como diz o ditado: uma andorinha só não faz verão. Mas não pensem que fiquei parado, participei da novela "Olho por olho, dente por dente", fiz tele-teatro, participei de juris, etc... Mas o destino me reservava uma outra missão, após percorrer toda a Europa, deu-se a explosão de meu personagem no primeiro mundo, nascia o "Coffin Joe", o resto é história. Em função disto, o meu trabalho em cinema também começou a ser divulgado. Logo, a procura por meus trabalhos em televisão começaram a ser procurados por distribuidores estrangeiros. Iniciei uma "via crucis" em busca de material para comercializar no exterior. Não sei se chamo de zebra, uruca ou simplesmente azar, o fato é que quando os "gringos" chegaram ao Brasil (1995), foram direto à Bandeirantes em busca dos tais programas, infelizmente o fatídico incêndio tudo havia devorado. A antiga Tupi foi o próximo local a ser visitado, debalde, a mesma havia falido e as gravações haviam sido apagadas. Depois, na Record, minhas gravações haviam misteriosamente desaparecido. Mas quis o destino (sempre ele) que algo acontecesse, tal qual o "fênix" saio das cinzas deste verdadeiro inferno astral, voltando as minhas origens na Bandeirantes. Pois é, 30 anos depois, e graças a outro arrojado diretor de programação. Está lançado o "Cine Trash", verdadeiro fenômeno de audiência para o horário. Mas a televisão é um veiculo dinâmico, diria até que autofágico, a sede de preciosos pontos nos níveis de audiência obriga as emissoras a sempre estarem lutando contra um vórtice que a tudo carrega. A escravidão imposta pela audiência atordoa e desnorteia, e muitos são aqueles que sofrem os rigores desta esfinge (decifra-me ou devoro-te). O meu personagem esta ciente disto, e sabe que nada pode fazer contra este ciclope, mas ele também sabe que o fim do mundo esta próximo e, mais do que nunca, espera que contatos imediatos sejam estabelecidos, para poder viajar para outro planeta, pois com certeza o lugar dele não é aqui neste "mundo".
Pensamento: hoje é o amanhã que ontem te preocupava, por isto previna-se para garantir teu futuro.
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