A ÁRVORE DA VIDA
  
 

Minha mente pega carona na Macabra Fornalha e, viajando no tempo e no espaço, chegamos ao inicio de julho de 1958. Eu, e toda a equipe de filmagem, estamos em uma fazenda em São José da Bela Vista, localizada na divisa com o estado das Minas Gerais. Rodavamos o filme "A Sina do Aventureiro", a cena, um encontro romântico entre o galã e a mocinha. De repente, um temporal desaba com uma violência assustadora, fazendo com que a equipe em peso busque abrigo debaixo de uma árvore frondosa que havia no local. Noto que a mesma parecia meio deformada, com uma copa gigantesca, mas irregular; parecia que algum ser infernal de proporções descomunais havia abocanhado parte daquela copa, deixando um formado irregular e chamuscado pelo hálito mefistofélico de tal leviatã. Para mim, estava mais do que claro de que aquela planta lenhosa havia sido, e sériamente, atingida por um raio! Aquela sensação desagradável de rios de gelo percorrendo minha espinha, começa a se fazer sentir.

Os pêlos de minha nuca pareciam a capota de um cadillac de ville, levantando numa agilidade sem precedentes. Era ela, a minha velha e fiel intuição que gritava com todas as suas forças de que o perigo era iminente. Incontinente, peço para que todos se dirijam para a sede da fazenda mas, como sempre, havia um iluminado entre nós, um "Einstein" portador de toda a sabedoria do Universo. Ele enche o peito e, com um sorriso de escárnio nos lábios nos informa de que não havia o menor motivo de preocupação pois (todo mundo sabe) um raio não cai no mesmo lugar duas vezes! Eu não quero nem saber se o pato é macho, quero ver o ovo! Exijo que a equipe se retire, imediatamente, e assim é feito. Uma coisa é ver... outra é contar; segundos depois um clarão ilumina o descampado e o estrondo deve ter tido similaridade com uma explosão atômica de 1.000 megatons! Era um raio, que veio acabar de vez com a gigantesca árvore. Só sobrou um toco fumegante, com as raízes expostas, tal qual costelas de um esqueleto descarnado! Todos começam a me chamar de vidente, falam que tenho conhecimentos de outra dimensão, etc. Balelas! Apenas prevaleceu a lógica.

Tive dificuldades em terminar aquela cena específica, pois não havia outra árvore semelhante nas redondezas, e terminamos de forma abrupta; de forma bucólica, com um beijo. Deixei o restante da filmagem para depois, achando uma árvore parecida aqui em São Paulo, e a fita foi concluída, seis meses depois! Mais tarde fui informado de que outro raio havia caído sobre aquele resto de vegetação, calcinando-lhe até a última de suas raízes. Graças a Deus, nos três casos de queda de raio, nenhuma vítima tinha sido atingida por aquela lança elétrica. Foi por isto que a denominei: árvore da vida!

Pensamento: o homem é responsável por suas atitudes e ao grupo que comanda. Não há espaço para a dúvida, uma vez assumido o comando... comanda-se!