A DISCOTECA DO CAIXÃO II
  
 

Começar é sempre o mais difícil, já me foi dito. Por mim mesmo, aprendi que um filme só chega ao seu final quando começa e, por isso, já comecei vários, sem os recursos necessários para terminá-los. É muito mais fácil conseguí-los quando se pode mostrar que o produto já existe. E, em matéria de começos, poucos foram mais agourentos que o da "Discoteca do Caixão", no meu velho estúdio da Rua Barão de Jaguara, na Moóca, em agosto de 1978.

Relembrando os leitores, meu filho Crounel tinha proposto que uma discoteca funcionasse ali nos finais de semana, pois, eu não tinha mais tempo para cuidar da escolinha de atores e, se não encontrássemos um jeito de angariar recursos para o aluguel, só restaria entregar o prédio. Eu não sabia quanto tempo mais a Censura reteria o meu "Delírios de um Anormal", e não via saída para o problema, que se tornava maior quando se considerava as pessoas que dormiam no lugar, jovens aprendizes de cinema que haviam sacrificado tudo para se dedicar à "Sétima Arte".

O que dizer para um filho adolescente quando ele chega com uma idéia que lhe parece maravilhosa mas que, para nós, não tem o mínimo de chance de dar certo? Ele não tinha som, nem luzes, e eu não tinha dinheiro ( e, se tivesse, iria investir em Cinema, é lógico ). O estúdio era temido pelas pessoas da região, tinha um estigma de maldito. Havia duas discotecas a menos de 500 metros de distância, pois, era a época da febre da "dance music" entre os jovens. Não havia chance, mas, só errando ele acreditaria. Portanto, disse-lhe que podia tentar, e que eu ajudaria abastecendo o bar ( antes combinei com o fornecedor de bebidas que devolveria o que não fosse consumido)

Uma semana depois, eu não reconhecia o salão. Meu filho e alguns amigos dele aproveitaram o teto coberto com papel luminoso, pintaram a parede de preto e desenharam figuras ligadas ao terror, com tinta fosforecente. Fiquei intrigado, mas ele explicou-me que concluíra ser impossível retirar a fama sobrenatural do salão, e que o melhor seria aderir, com humor, à sensação popular. Até o nome da discoteca foi, para mim, uma surpresa: Discoteca Caixão!

No primeiro baile, a grande ansiedade. Por não terem iluminação, usaram de tudo que puderam arranjar, inclusive lampadinhas de árvore de Natal! Conseguiram convencer o dono de um equipamento de som potente a tentar por uma semana. Como este não tinha caixas acústicas, os garotos toruxeram, a contra-gosto dos pais, caixas de aparelhos domésticos. Por fim, alguns deles foram até a porta das outras discotecas gritando "Discoteca grátis, discoteca grátis!". O primeiro baile, para atrair público, seria gratuito, vindo o lucro apenas do bar. Era uma grande loucura, mas, até os meus técnicos já começavam a se contagiar!

E, não é que as pessoas vieram? Os jovens, algumas dezenas, logo dançavam ao som de uma música totalmente distorcida, pois, as pequenas caixas não aguentavam a potência do som, e chegavam a trepidar em cima das plataformas, como se houvesse um terremoto. Uma hora de baile e duas caixas já haviam queimado. Pouco depois, outra cairia em cima de um garoto, atingindo-o, por sorte, de raspão. O baile terminava ali, com a fúria do dono do som, que apanhou seu equipamento e foi embora, reclamando de toda aquela improvisação.

Longe de se desesperarem, meu filho e os amigos comemoravam. Afinal, não era impossível trazer pessoas para dançar ali. Por mim, achava muita euforia por nada. De graça, podia ser, mas, e pagando?

Na semana seguinte, a situação havia melhorado. Meu filho conseguiu um empréstimo e comprou alguma iluminação. Seus amigos trouxeram outra pessoa que tinha o equipamento de som completo, inclusive caixas acústicas. Novamente, deram o baile gratuito e, desta vez, o número de comparecimentos elevou-se a uma centena. Todos queriam ver em quem sofreria um acidente naquela noite. No final, se houve decepção de alguns, pois, ninguém se machucou, o baile agradou muito à maioria, que prometia voltar no outro dia.

Um mês depois, a casa estava repleta, todas as noites, com pagantes! As outras discotecas da região fraquejavam, com a perda de clientes para o "Caixão". O estúdio estava salvo: nos dias de semana, a escolinha funcionava e, nas sextas, sábados e domingos, um tanto atordoados com a barulheira, eu e os técnicos convivíamos com aquela explosão juvenil. Foram apenas seis meses, pois, não havia alvará para funcionamento da discoteca. Mas, foi bom saber que eu já não era o único "louco" da família!

Pensamento: Ninguém viverá o bastante para dizer que a vida já não possui surpresas, o que aumenta o prazer de viver e esperar por elas.