CASTIGO VERSUS CASTIGO
  
 

Brincadeiras, piadas e gozações, fazem parte da nossa vida; porem é preciso saber discernir, para que uma brincadeira, aparentemente inocente, não acabe trazendo graves conseqüências, prejudicando outras pessoa e, muitas vezes, até nós mesmos. Isto me faz lembrar de um fato ocorrido em junho de 1983. Estava eu na cidade de Atibaia, São Paulo, rodando um longa intitulado "Padre Pedro e a revolta das crianças". Junto comigo estavam o Carlos Aguiar (saudades) Gugu Liberato, Pedro de Lara e a grande Wilza Carla. A filmagem decorria normalmente até que, num domingo, uma cena necessita de participantes muito especiais, um enorme grupo de "motoqueiros ". Na hora marcada, eles foram chegando; alegres, audaciosos e muito barulhentos. O set cobriu-se com a poeira levantada pelas arrojadas acrobacias e derrapagens controladas, realizadas com maestria pelo bando de "malucos beleza". Eles queriam tanto aparecer que o seu comportamento aborreceu, e muito, minha equipe de produção. Juntos, eles resolveram dar um castigo nos moto-boys, planejando uma vingancinha pessoal.

O horário do almoço se aproximava e, num rasgo de genialidade, o diretor de produção teve a brilhante idéia de "temperar" o almoço com litros de um poderoso laxante. Um outro gozador sugeriu, visto o laxante ter um gosto adocicado, que se melhorasse o sabor do suco servido. Eu não sei se foi o desgaste da viagem, ou excitação das piruetas executadas, o fato é que os motoqueiros comeram como loucos! Isto era ótimo, pois as filmagens iriam se iniciar logo após o almoço, e o pessoal teria mais energia para filmar. Eu, o diretor, o produtor, o Gugu e mais alguns atores, fomos almoçar num restaurante próximo do set. Apesar de sabermos do que estavam aprontando, não tínhamos tempo a perder, visto termos muitos assuntos para serem resolvidos. A hora de recomeçar a filmagem chegou, como também chegou o efeito do laxante, atacando à todos que haviam almoçado no local. O desespero foi total, todos corriam de um lado para o outro, enquanto uma fila enorme formava-se diante dos sanitários.

O que se seguiu foi um verdadeiro circo dos horrores, todos se contorciam, com a boca escancarada num esgar misto de dor e pânico. Alguns chegavam até a rolar pelo chão, numa coreografia escatológica, visto muitos não conseguirem controlar seus movimentos internos, deixando um rastro de odor nauseabundo pelo local. Até o meu querido amigo Pedro de Lara foi vítima das tristes cólicas, e isto aconteceu pelo fato dos motoqueiros terem tido a mesma brilhante idéia, temperando com laxante o almoço da equipe técnica! Folgo em dizer que, apesar disto tudo, terminamos todas as cenas planejadas para aquele dia. Felizmente tudo acabou bem; mas esta brincadeira poderia ter dado um grande prejuízo ao produtor, fazendo com que o feitiço se voltasse contar o feiticeiro.

Pensamento: o jogo e o jogador são iguais, paralelos; e um não sobrevive sem o outro. A jogatina só existe se houver o vício e o viciado.