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28 de novembro de 2006
Mais externas, mais chuvas! Parece até que São Pedro tem problemas pessoais com Zé do Caixão. Foi assim que começou a diária de ontem, com a equipe ainda abalada com a perda de Jece. E, para complicar, mais duas baixas a da terceira assistente de direção, a Carol, e a técnica de Vídeo Assist, Taís Nardi.
Já comentei sobre o número de assistentes de direção neste filme, algo novo para mim. Foi até difícil delimitar o espaço de cada um nos primeiros dias. Agora que conseguimos, a Carol é dispensada! O motivo, uma racionalização de despesas, num momento em que entramos para ficar no nosso quartel-general, uma propriedade no bairro do Cambuci que é um verdadeiro mundo cenográfico, o nosso “Mocó”. Com a paralisação das externas em grandes espaços, os produtores argumentam que a necessidade de pessoas para organizar elenco de apoio, conduzir atores, controlar público externo, tudo isso diminui. Não discordo, é verdade, mas, como ninguém esperava por isso, é sempre com tristeza que somos apanhados por uma decisão destas.
Já com a Taís a ausência é temporária. Com crise renal, oriunda de pedras nos rins, apesar de jovem, teve que passar por uma intervenção cirúrgica, mas, já estará de volta no sábado, na nossa virada da noite para o dia. De qualquer forma, por estes dois dias ela está sendo substituída, pois, se é algo que não pode faltar neste filme são os recursos de Vídeo Assist.
Há 30 anos atrás, a única pista que tínhamos para saber se uma cena tinha ficado boa ou não era a opinião do Diretor ou do Diretor de Fotografia, aquele que houvesse ficado com o olho no visor da câmera. Lembro que meu pai pedia, em algumas cenas, para que ele ficasse na câmera, assumindo a responsabilidade do resultado. Quem estava de fora, no máximo podia falar sobre a qualidade da interpretação, ou se alguém havia olhado para a câmera. Problemas técnicos como foco, sombras diversas entrando em quadro (o que fica mais perigoso com som direto, pois o microfone é um eterno candidato a gerar sombras), desenquadramento ao longo da cena, e outros, só eram percebidos por uma pessoa, ou por todos, na sala de projeção do material já revelado, quando já fosse tarde demais.
Hoje, o assistente de direção fica mais próximo da câmera do que o próprio Diretor, que tem um equipamento de vídeo para assistir à cena. E o melhor, tudo é gravado, para que, na dúvida, decisões de repetição de cenas possam ser tomadas com mais certeza. No nosso caso, temos um pequeno vídeo num aparelho chamado concha (o vídeo-concha) e um monitor grande (apesar de não possuir grande definição). E, haja gente para acompanhar as cenas nestes aparelhos. Eu, meu pai, o Dennison, o Sacramento, a Nilce, o pessoal da arte e da maquiagem, todos querem ver para garantir que seus trabalhos apareçam na tela como nas suas mentes.
Todo este equipamento de acompanhamento é operado pelo técnico de Vídeo Assist, e, como percebemos rapidamente, esta tecnologia vicia! Que me desculpe o Zé Bob, mas, entre optar entre o Diretor de Fotografia e o Técnico de Vídeo Assist, não tenho dúvidas em escolher o segundo. (é brincadeira, Zé). Bem, de qualquer maneira, não ficamos sem o recurso, mesmo que momentaneamente privados da presteza e simpatia da Taís.
Bem, a chuva passou, é hora de filmar! E a seqüência de hoje não é fácil, envolvendo policiais e camburão de polícia, ferozes rottweilers e uma série de efeitos especiais.
O resumo é simples: procurando por Zé do Caixão, os policiais invadem a favela, acham Bruno, o fiel seguidor do funerário e o espancam impiedosamente. Zé aparece com seus servos e ferozes cachorros e aí...
Entre uma e outra cena, chuva, e começa a preocupação por cumprir o planejado para o dia. Ao menos a entrada do camburão no pequeno espaço do quintal de nosso “mocó” foi bastante convincente. De difícil, só restam os cachorros.
“Só?”, perguntaria ironicamente meu pai. Animal em filmagem é sempre sinônimo de problema e, neste caso era ele que precisaria segurar as feras, She-Ra e Nadja, duas musculosas rottweilers, isso com aquelas unhas que lhe tolhiam os movimentos das mãos. Não deu outra, a cena não saia de forma alguma. Os cachorros eram soltos antes da hora, não vinham rapidamente em direção à câmera, enfim, não aparentavam estarem prestes a estraçalhar carne humana.
Para resolver o problema, restou chamar o dublê de meu pai para cenas perigosas ou asquerosas, ou seja, eu. “- Cro, seu pai não está conseguindo segurar os cachorros quando eles querem sair. Veste uma roupa dele, que só aparece da cintura para baixo, e segura os bichos”. Logo eu? Não podia ser o Kapel, o efeitista, ou outro qualquer? “- Cro, eles são magros. Vai aparecer”. Pois é, na vida o normal é que o filho vá e assemelhando ao pai, com o tempo. Entre eu e meu pai foi o contrário. Ele, que já foi magérrimo, engordou com o tempo, e hoje temos quase que a mesma cintura. Quase, porque aquela calça, ao fechar, quase me divide ao meio. Por que diabos a produção ainda não providenciou uma calça que sirva bem para mim?
E lá estava eu, com a missão de segurar as feras quando o treinador as chamasse. E se elas me estranhassem? Não, não é medo, coragem é o meu nome. É, digamos assim, instinto de sobrevivência...
Vou pensar seriamente em mudar de profissão e me tornar criador de rottweilers. Depois do primeiro puxão, ao sentirem a resistência que eu colocava nas coleiras, Sher-Ra e Nadja pararam, nem me arrastaram nem me morderam. Simplesmente pararam, e não adiantava o treinado chamar que elas não iam. Senti segurança, e após algumas tentativas, consegui sacudir as coleiras no momento certo para que elas fossem rapidamente em direção à câmera.
Cena terminada, já sabíamos que seria impossível filmar o espancamento do Bruno. Ao menos, precisávamos terminar com Cristina Aché, chamada para esta noite. Digamos que ela não estava nada contente ao perceber que a sua cena fora deixada por último, ela que havia estado no set desde as primeiras horas. Aparecendo na cena totalmente desfigurada, pela surra que havia levado (sua personagem, é claro) do Coronel Claudiomiro, a nossa Lucy ficou horas e horas com uma maquiagem incômoda, esperando pela boa vontade de São Pedro, Nadja e She-Ra. Esperar por santo, tudo bem, mas, por rottweilers? Vida difícil, esta, a de ator. Mas, tanto ela como o Rui Rezende tiveram que se render aos caprichos do tempo e da animália. Pior para o Rui, que terá uma nova diária, quando virá só para apanhar. Ao menos com a Cristina, conseguimos terminar.
Fim do dia! (falar isso às 5:30 da manhã é um contrasenso, mas, assim é). No nosso pensamento, só uma dúvida. Se hoje, com uma tarefa mais fácil, não conseguimos chegar ao final, o que será de amanhã, quando o programa inclui as primeiras cenas a serem rodadas das ciganas Cabíria e Lucrecia, bem como de sua sobrinha Elena e a cena do pântano, a ligação deste filme com o “Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver”, envolvendo o sócia do meu pai, o americano Raymond Castille? Bem, o que é de amanhã ao amanhã pertence!
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
27 de novembro de 2006
Faleceu hoje, na cidade de São Paulo, o ator Jece Valadão, 76 anos, conhecido no meio artístico como intérprete de personagens sem caráter...
O parágrafo acima bem pode corresponder a algum noticiário de rádio ou televisão de qualquer lugar do Brasil. Um informativo sem muito sentimento, de um profissional que está acostumado a notícias como esta. Se fosse selecionar palavras minhas para começar a descrever nossa diária da noite de ontem, eu nunca começaria. O impacto foi enorme, em todos nós.
Eu não sei se conheci Jece, ou melhor aquele que foi Jece durante a maior parte da sua vida. Ele mesmo dizia que estava muito mudado. Assim, em mim, ficou em mim a imagem da pessoa com a qual convivi no último mês. Afável, sempre disposto a conversar, a contar piadas, a dar mostras de sua fé. Já no primeiro dia em que gravou conosco sentei com ele, a mulher e a afilhada na mesma mesa, na hora do almoço, e notei que, antes de começar a comer, deu graças pelo alimento.
Há coadjuvantes de terceiro escalão mais exigentes do que ele. Paciente na espera, só ficava ansioso na hora de comer, seguindo à risca uma dieta que prescrevia alimentação de duas em duas horas, talvez o segredo da sua vitalidade. Nisso era ajudado pela esposa Vera, que sempre acionava a produção nos momentos certos. Com toda essa preocupação com a forma física, era difícil imaginar que tivesse qualquer problema de saúde, que o levasse de uma hora para outra a uma internação hospitalar da qual não sairia mais.
Com 76 anos, a memória era prodigiosa, tanto a de curto quanto a de longo prazo. Tratou a mim e à boa parte da equipe pelos nomes, a partir do momento em que os ouviu pela primeira vez. E, sobre o passado, não esquecia detalhes. Datas, lugares, pessoas, tudo parecia impresso em pedra para ele, as lembranças não se desgastavam. No vídeo, aparência de 15 anos menos e voz poderosa indicavam uma saúde de ferro. Isso tudo só aumentou nossa consternação.
Meu pai trabalhava com muitas hipóteses a respeito de Jece, conforme durasse o seu tempo de restabelecimento. Os planos de filmagem, é óbvio, vinham sendo alterados nos últimos dias, incluindo cenas em que ele não estava. Ficar sem Jece, no entanto, era algo que ele se recusava a considerar.
Curioso, filmamos a morte de todas as maneiras neste filme. Meu pai criou, inclusive, deu personalidade para ela, que virou personagem, interpretada por Geanine, atriz indicada por Alexandre Herchcovitch. Em uma das falas de Zé do Caixão, encontramos “...a única realidade da vida...a Morte”. Mas, nem isso faz com que encaremos naturalmente a real ocorrência do fim da vida.
Ele baqueou, como toda a equipe. Nem a presença no set de Raymond Catille, o fã americano que veio ao Brasil para interpretar o Zé do Caixão quando moço, conseguiu tirar meu pai da introspecção em que mergulhou.
Sentindo não ter condições para começar as filmagens ontem, ele reuniu os chefes da equipe, conversou, e, em conjunto, decidiram que aquele seria um dia de luto. Estavam todos liberados para ir ao velório Jece. Todo o cronograma de filmagens seria defasado de um dia!
A filmografia de Jece é bastante extensa, com carreira começando em 1949, com o filme “Carnaval no Fogo”. Trazia no currículo participações, a maior parte como protagonista, em obras antológicas de nossa cinematografia, mas, com meu pai, nunca havia trabalhado. Jece, na maior parte do tempo, esteve no Rio, meu pai em São Paulo. Seus destinos se cruzaram uma única vez, na década de 60, quando meu pai participou do programa “Quem tem medo da verdade”, em que personalidades eram julgadas, como num tribunal. Jece foi o advogado de defesa. Desde então, um dos desejos ainda não realizados de José Mojica era trabalhar com Jece numa de suas obras.
A fama de mau de Jece é antiga. Nelson Rodrigues o considerava o ator ideal para suas histórias. Mas, foi com “Os Cafajestes”, de Rui Guerra, em 1962, que ele eternizaria o tipo nas telas. Na filmografia, títulos significativos como “História de um Crápula” (1965), “Os viciados”(1968), “O Mau-caráter”(1974) e “Nós, os Canalhas” (1975) faziam de Jece o intérprete ideal para o nosso Coronel Claudiomiro. Quando Jece aceitou, meu pai exultou, seria um sonho a mais, junto com a realização do próprio filme.
Fomos ao velório de Jece, na madrugada de hoje, com a impressão de um sonho interrompido. Realizado num templo da Assembléia de Deus, aqui na capital, era cumprido um desejo do homem Gecy Valadão, convertido na década de 90 e pessoa de extrema fé desde então. Boa parte da equipe estava presente. Milhem Cortaz, nosso Padre Eugênio também foi, com sua mãe, dar adeus ao parceiro de cena. Para ele, tanto quanto para meu pai, tinha sido a realização de um sonho a convivência até então. Era muito duro ver Jece ali, imóvel no caixão, poucos dias depois de filmar conosco uma cena tão dinâmica como a da perseguição que o Coronel e o padre faziam ao Zé do Caixão.
Do velório, o corpo seguiria para Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, cidade de criação de Jece Valadão, nascido Gecy, em Murundu, no Rio de Janeiro. Já os nossos corpos, voltariam para casa, com a mente voltada nas filmagens do dia seguinte.
Tínhamos todos a convicção de que nosso trabalho tinha que continuar, que esta seria a maior homenagem que poderíamos fazer a Jece, dedicar o produto final de todo esse projeto à sua memória.
Desconhecemos como será resolvido o problema aberto com a morte de Jece. O prejuízo material é grande, independentemente da solução adotada. O emocional é ainda maior, pela perda de um companheiro como ele. Mas, não é o momento de pensar nisso. Precisamos avançar, rever o plano de filmagens, colocar na lata tudo o que não dependa do Coronel Claudiomiro, e então, decidir o destino das cenas com ele. Ontem à noite iniciamos nosso luto, hoje à noite, voltamos á labuta. Se a equipe superará rapidamente este trauma só poderei dizer amanhã.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
26 de novembro de 2006
Quando se fala em José Mojica Marins, logo vem à mente o personagem Zé do Caixão, como se isso tivesse sido a única coisa que ele fez a vida inteira. É certo, são mais de 40 anos com o nefasto funerário, mas, a vida artística do seu criador não se resume a isso.
Meu pai se orgulha de ter sido o primeiro a usar o processo “Cinemascope” no Brasil, o primeiro a colocar um desenho animado dentro de uma película, ter sido pioneiro em fotonovelas e, por aí vai. Não menos importante é o seu histórico como formador de valores, tanto na área artística como na técnica.
Se houvesse uma pesquisa sobre cursos livres de Arte Dramática, o de meu pai ficaria entre os primeiros, tanto cronologicamente quanto por número de alunos. Na verdade, desde criança tornou-se um centro disseminador de conhecimento artístico, que em si mesmo brotou como que por geração espontânea, pois, ele mesmo nunca fez um curso semelhante.
Lembro-me de ter começado a lecionar com ele no início da adolescência. Tinha assistido a algumas aulas de professores formados por ele, e, num sábado em que os mestres faltaram e ele não podia (ou não queria) dar aula, virou para mim e tivemos um diálogo mais ou menos assim: “-Cro, hoje é você que vai dar aula”. “-Mas, sobre o que?” “ –Sei lá, a aula é sua, se vira”.
E lá fui eu ensinar aquilo que eu já havia aprendido junto a diretores de teatro que trabalharam com minha mãe, com meus próprios pais e com a minha experiência infantil como diretor das peças da escola. E, não é que os alunos gostaram?
Muito menos confiante que meu pai, a partir daquele dia debrucei-me em livros de teatro e cinema, e fiz alguns cursos de arte dramática, se não para ser um acadêmico na área, mas, ao menos para ter um embasamento teórico que me desse mais segurança na função de preparar outras pessoas para o mundo cênico. E, desde aquela época, um dos meus maiores prazeres é saber que alguém que começou nos estúdios de meu pai, tendo aula comigo, tornou-se ator ou técnico profissional no ramo.
Um destes alunos é o Rubens, que começou conosco no final do século passado (uns sete anos atrás). Ator compenetrado e versátil, ganhou um concurso que meu pai fez para escolher o “Sucessor do Zé do Caixão”, um ator para interpretar o personagem quando mais moço. Tendo feito alguns shows junto com meu pai, Rubens logo percebeu que o público não aceitaria outro intérprete que não fosse José Mojica, e preferiu partir para uma carreira desvinculada dessa responsabilidade. Sempre ligado a nós, hoje interpreta um dos servos do Zé do Caixão.
Como já disse em outro dia, estes servos foram criados por Dennison Ramalho, inspirado em “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, no episódio em que o Professor Oãxiac Odez (Zé do Caixão ao contrário) prova que o instinto de sobrevivência pode levar as pessoas a cometerem atrocidades. Para isso, conta com assistentes para lá de violentos.
O processo de criação dos servos de “Encarnação do Demônio” não foi simples. No início, Dennison os colocou como retirados de manicômios por intermédio de Bruno, enquanto Zé estava preso. Os servos eram descritos algumas vezes como “babões” no roteiro. Nem meu pai nem eu gostamos desta origem, no que fomos acompanhados por pessoas como a Mariliz e a Nilce, que também leram as versões iniciais do projeto. Meu pai sugeriu que eles tivessem sido criados por Bruno, desde criança. Dennison não concordou, e nós fizemos coro. Era inverossímil. E assim, a origem dos servos não é contada neste filme, eles estão lá, e é isso que basta.
Todos receberam preparação especial do Paulo Barros, para alcançarem o ponto certo de interpretação para as cenas de intensa violência de que participam. Ao final, influi no processo, dando uma personalidade a cada um deles, como se motivos especiais e únicos tivessem colocados eles ali. Assim, Rubens é o servo mais refinado, Karina a mais obediente, Fernanda a mais instável e Zumba o mais feroz e instintivo.
Karina é outra “prata de casa”, sendo aluna de Arte Dramática da Nilce. Fernanda, que trabalhou como recepcionista da agência da Neide, noiva de meu pai, é aluna do Macunaíma, enquanto Zumba foi um achado da produão de casting, quando procuravam atores para performances especiais no filme.
Com Rubens e Karina a conquista dos papéis não foi difícil. Já Fernanda e Zumba tiveram histórias mais complexas.
Fernanda foi indicada por meu pai, mas, sua aparência de menina (meu pai dizia que não, mas, sem a maquiagem ela é uma menina) deixou a muitos da equipe de direção inseguros. Estive do lado da equipe ao concordar na questão da aparência juvenil, mas, frisei que o fato de ser menina não impediria que fosse uma das servas malvadas de Zé do Caixão. Citei, inclusive, o caso de Suzanne von Richstoffen, como exemplo. Seria o trabalho com Paulo Barros, constatando uma rápida evolução na sua interpretação que sacramentaria sua posição.
No caso de Zumba, a dificuldade era outra: ele não é ator. Com 150 Kg, tatuagens por boa parte do corpo, piercings e orelhas dilatadas por enormes anéis, sua figura é extremamente ameaçadora, não fossem os olhos naturalmente cândidos que denunciam a personalidade agradável deste profissional na área de “body modification”. Como um dos atores indicados estava causando problemas para a produção, recusando-se a ensaiar, meu pai, responsável pela indicação, liberou a produção de casting para encontrar um substituto. E aí cruzaram-se os destinos de Zumba e do “Encarnação do Demônio”.
Quando vi o teste de Zumba, vibrei. Se num teste ele era capaz daquilo, o que não faria quando fosse para valer. Só que o nosso gigante se define como tímido, e, é óbvio que a situação de ator é nova para ele. Logo, paciência e muita conversa foram as chaves para a sua integração com o elenco.
E ontem os quatro estavam lá, para, junto com Bruno, receberem Zé do Caixão na sua nova morada. Foi uma das diárias mais agradáveis que tivemos, com a seqüência fluindo no ritmo adequado, pelo menos até quase o final da noite, quando Dennison reclamou da opção de filmagem para um plano envolvendo um efeito especial de explosão. Para ele, o ponto de vista da câmera estava errado, e o efeito perdia seu impacto.
Para que discussão? Filmamos dos dois jeitos, e, na montagem podemos decidir entre as duas opções.
“Final do dia!” É assim que Tom, em voz alta, informa a todos que chegamos ao fim de mais um dia de trabalho. Amanhã tem mais. E meu pai vai poder se encontrar consigo mesmo, uns 40 anos mais jovem. Como? Amanhã eu explico.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
25 de novembro de 2006
Eu nunca havia filmado em uma favela na minha vida. Na verdade, lembro-me até de uma seqüência prevista no filme “Mundo, mercado do sexo” (originalmente “Mundo, mercado do lixo”, com subtítulo “Manchete de Jornal”, que teve o título mudado por imposição dos exibidores), de 1978. No caso, seria uma seqüência em que o protagonista, um jornalista à procura de um “furo” passava por uma favela e via um dia-a-dia normal de seus habitantes. Pouco após de sair, uma tempestade arrasa a favela. O roteiro acabou sendo modificado por conta do orçamento e eu fiquei apenas na minha ansiedade juvenil de ver uma cena digna de Hollywood.
Neste filme, temos quatro dias programados para filmagem na Favela do Boqueirão, na Zona Sul da cidade de São Paulo, com cenas de perseguição policial a trombadinhas, invasão de viaturas atrás de Zé do Caixão e outras seqüências bastante complexas. E o primeiro dia foi ontem, na nossa volta da folga.
Com o tempo carregado de nuvens de tempestade, nos deslocamos até lá. Chegando, verifiquei que aquele primeiro dia seria mais fácil do que o esperado, pois, não filmaríamos no centro da favela, mas, numa espécie de galpão que dava vista para o aglomerado de barracos. Tínhamos uma pequena cena para filmar ainda com a luz do dia, e o resto seria de noturnas, isso se a chuva deixasse.
Já chegamos com água caindo, ainda que não torrencialmente. A cena do dia em pouco tempo ficou irremediavelmente comprometida, trazendo receios quanto à nossa noturna. Aos poucos, a chuva apertava, e, como estávamos num baixio, a água descia com velocidade em nossa direção.
Todos olhamos para o nosso Senhor da Atmosfera, o Ulisses, que franzia a testa e balançava a cabeça negativamente. A chuva não iria parar e, se não quiséssemos correr o risco de ficarmos ilhados com equipamento e tudo no meio de um alagamento, era bom que fôssemos embora rapidamente.
O problema era perder a diária, luxo que não podíamos sequer pensar em ter. Alguma coisa precisava ser filmada, ainda na noite de ontem.
Estávamos com o Rui Rezende, e precisávamos de cenas entre o corcunda e o Zé do Caixão no macabro subterrâneo imaginado pelo Amarante. E isso seria no nosso quartel-general, uma propriedade no Cambuci em que vários cenários estão compostos, um lugar carinhosamente chamado por nós de “Mocó”. O problema é que isso ainda era pouco, precisávamos de seqüências importantes, mas, todas exigiam a presença de outros atores que não estavam disponíveis naquela noite.O problema tomava ares de ser do tipo “Missão Impossível”.
Foi proposta uma seqüência que necessitava de apenas mais um ator, que interpretaria o prisioneiro tatuado morto por Zé do Caixão e que vem assombrar o funerário. Tentamos contatar o ator já escolhido para o papel, mas, não foi possível. De repente, o Paulo teve uma daquelas idéias que só a pressão faz surgir. Lembrando que neste filme contamos, por vários dias, com a presença do cineasta experimental Nilson Primitivo, que tomou imagens em 16 mm para um documentário, resolveu convida-lo às pressas para o papel. Ele era imponente, quase 1,90, e tinha muitas tatuagens pelo corpo. Mas, como chegar para alguém numa noite de sábado chuvosa e propor algo como: “- Você quer filmar hoje com o Zé do Caixão? Teremos apenas que pintar seu corpo inteiro, usar uma maquiagem que só sairá totalmente em alguns dias, deixa-lo careca e trancá-lo por algum tempo em um caixão.”
Foi mais ou menos desta forma que o Sacramento abordou o Nílson pelo celular. A resposta, imediata, foi antológica: “- E eu tenho que pagar quanto?” Tínhamos o nosso ator, sem preparação especial para a cena, mas, com a disposição de um jogador de futebol que, do nada, tivesse tido uma chance para jogar a final da Copa do Mundo.
Rapidamente saímos da favela, sabendo já o que teríamos de fazer. Tínhamos perdido umas três horas da diária. Ruim, mas, não uma perda total.
Chegando ao “Mocó”, todos correram para o subterrâneo, para marcar a primeira cena, entre Zé e o corcunda. Enquanto Zé Bob desenhava o quadro com seus pincéis de luzes e sombras varrendo o ambiente, os atores eram preparados. Cena rápida, sem maiores problemas. E daí, passamos para a seqüência do Tatuado.
Ganhamos na loteria! O Nilson ficou horrível, assustador mesmo! Se ele é ou não um ator do quilate de Paulo Autran eu não sei. Mas, colocando os dois para interpretar um espectro vindo do Além, sou bem capaz de apostar no nosso “azarão”. O seu porte físico, bem maior que o de meu pai, ajudou a dar um ar mais ameaçador à seqüência.
A partir deste dia, tenho certeza de que Nilson não será mais o mesmo, e, não será surpresa vê-lo trocar a posição de trás das câmeras para a frente dos holofotes.
Para uma noite que começou com tão maus agouros, saímos vencedores. E, a partir de ontem, até por conta da situação de Jece Valadão, que ainda está internado, antecipamos nossos dias no “Mocó”, onde esperamos por diárias mais tranqüilas do que as que temos tido, talvez até com a chance de acelerar o ritmo e recuperar algum tempo do nosso Planejamento.
Amanhã será um dia especial para mim, quando pela primeira vez aparecerão juntos os servos do Zé do Caixão. Digo especial pois, dos quatro, três são indicações diretas de meu pai, entre atores que já fizeram cursos conosco, e o quarto... Bem, o quarto é o Zumba, uma das figuras mais estranhas com que já topei na vida. Mas, sobre isso, falo amanhã.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
24 de novembro de 2006
Cresci com a idéia que meu pai poderia ser descrito de muitas formas, mas, nunca como “um homem voltado para a família”. Eu e minhas irmãs o víamos pouco, já que ele chegava em casa de madrugada e saia enquanto estávamos na escola. Isso quando não viajava com as filmagens, ficando semanas fora. Dizemos que fomos educados, basicamente, pela nossa mãe. Ao iniciar meu trabalho com ele, na adolescência, já conversávamos de homem para homem. De forma alguma me tratava como um garoto.
Afora a grande ligação que tinha com seus pais, ele pouco era visto por tios e primos, a ponto de praticamente não conhecermos o lado paterno de nossa família. Com a exceção de duas primas e uma tia, recentemente falecida, ele podia ficar anos sem ver qualquer familiar, que reencontrava, basicamente, em enterros.
Sempre teve muitos amigos, alguns dos quais fiéis até hoje. E nós, filhos, até a maturidade, achávamos que ele gostava mais dos amigos do que de nós.
Também com relação a suas ex-esposas, mesmo tendo amizade, ficava meses sem vê-las, reforçando esta aparente característica de isolacionismo familiar. Isso até os seus cinqüenta anos, mais ou menos.
Aparentemente, mesmo com seu intelecto bastante precoce, sua fase de adolescência, em que o indivíduo procura referências fora da família, perdurou por muito tempo, praticamente até a época em que se tornou avô. Somente por essa época sentimos, eu e as minhas duas irmãs, frutos da sua união com minha mãe, que passamos a ser vistos também como filhos, e não apenas como grandes amigos. Outro dia mesmo minha irmã mais nova, a Rose, filha de Nilce, sua esposa após minha mãe, falava sobre isso, reconhecendo que meu pai mudara exatamente quando ela era uma criança. Por isso, nem sua própria irmã, a Nilcinha, tinha tido um pai como ela teve. Só para registro, a Rose não é muito mais velha que meu primeiro filho, o Arinã.
A mudança nele foi gradativa, mas, notável. Talvez com exceção da Rose, nunca pegou os filhos no colo nem fez brincadeiras como faz com os netos. E, aos poucos, foi trocando as eternas mesas de carteado com os amigos por almoços de domingo, com aquele “jogo de buraco familiar”. Nos próprios negócios a situação foi mudando, e, se antes me via apenas como um consultor administrativo ou jurídico, aos poucos passou a tratar-me como um sucessor hereditário, com todos os direitos e deveres inerentes à função. E, não só a mim, mas a todos os meus irmãos e irmãs. E, de pessoa totalmente avessa às reuniões familiares, por muitas vezes passou a convoca-las.
Neste filme, das poucas coisas que colocou como exigências aos produtores foi a presença de pessoas da sua confiança na equipe técnica, pessoas que tivessem trabalhado muito tempo com ele e conhecessem sua linguagem, bem pouco linear. E, dessa vez, todos da “família”.
Neste quesito, é impossível não ressaltar a presença de Nilce, ou melhor, Nilcemar Leyart, ou, melhor ainda, Diomira Feo, visto que Nilcemar é seu nome artístico. Essa italiana, que chegou bem jovem ao Brasil, tem sua vida quase que totalmente dedicada ao trabalho com meu pai, quer seja no Cinema, Televisão ou nos cursos para atores que ministra com meu pai há décadas. Sem falar no tempo em que foi sua esposa, tendo com ele duas filhas, a Nilcinha e a Rose, que juntas já lhes deram três netos.
Nilce começou sua carreira em 1965, época em que eu usava fraldas. Ainda menor de idade, ela acompanhou as filmagens de “Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver”, trabalhando como continuísta e depois como assistente de montagem. Em pouco tempo, ela era a montadora dos filmes de meu pai, tendo sido responsável pela edição de obras como “Finis Hominis”, “O Despertar da Besta”, e “Delírios de um Anormal”, só para citar aqueles disponíveis em DVD.
O trabalho de Nilce é diferenciado, e, no que se pode chamar de “linguagem mojiquiana” ela tem grande contribuição lingüística. “Delírios de um Anormal”, por exemplo, tem 4800 cortes, um número espantoso, principalmente considerando o pouco tempo em que ela realizou o trabalho. E, é bom que se diga, não foi só um trabalho com imagens, pois, ela era a responsável pela trilha de ruídos e trilha musical. Meu pai criou a expressão “áudio para visual”, para explicar e promover o “Delírios...”, no final da década de 70. Mas, se a expressão foi dele, o trabalho, na sua maior parte, foi da Nilce.
Ao começar a trabalhar com meu pai, fui testemunha da rapidez de Nilce com a moviola, máquina utilizada para edição cinematográfica, de manejo bastante complicado. Ela era quase que uma prestidigitadora, uma mágica mesmo, já que era impossível acompanhar com os olhos a rapidez dos seus movimentos.
Neste filme, na teoria, ela assina a continuidade. Na prática, além disso, ela é uma das vozes que meu pai mais ouve sobre interpretação e planos cênicos, principalmente quando Zé do Caixão é o alvo das câmeras. Afinal, ela é a memória viva de toda a trajetória do personagem. Ela estava lá, o tempo todo!
Além da Nilce, estou eu, como assistente do Diretor (uma novidade inventada pelo Paulo Sacramento para descrever uma função que começou bem antes das filmagens e continuará bem além do término destas), e a Merisol, minha irmã, como secretária pessoal de meu pai, e uma espécie de assessora emocional (um misto de psicóloga, conselheira, e, é claro, filha!). Ela é a única da família a ter feito uma personagem central na filmografia de meu pai até agora, tendo interpretado Betinha, de “Exorcismo Negro”, ainda na infância.
Mesmo com toda essa presença familiar, nos ressentimos de uma grande ausência, a de Mariliz, que interpreta a Lizvamp, personagem criada por ela para dar continuidade à história de Zé do Caixão, como a segunda geração de personagens de horror brasileiros. Atarefada com o lançamento de seu primeiro curta-metragem, “Aparências”, e o planejamento do longa que conta a história da Lizvamp, e que começará a ser filmado no ano que vem, ela não pôde assumir responsabilidades com essa produção, comparecendo a algumas filmagens apenas como espectadora, e, é claro, torcedora por nosso sucesso.
Mas, projetos em família é o que não vão faltar, para que estejamos todos juntos. Agora mesmo Mariliz está montando um curso nos moldes que sempre defendemos, privilegiando inteiramente a prática, com equipamentos de última geração, e uma proposta inovadora no setor. E, é claro, já conta com meu apoio, da Nilce, e, principalmente de meu pai, que faz questão de assinar o projeto com ela.
Lembro-me das palavras de José Celso Martinez Corrêa, que ao filmar, fez questão de levantar a importância de um trabalho artístico em família, nos elogiando pela união em torno de meu pai naquela hora, mesmo tendo cada um tantos projetos próprios. Para mim, este trabalho foi das melhores coisas que poderiam me acontecer, e dos melhores exemplos que quero dar aos meus filhos e sobrinhos.
Bem, a folga acabou, e amanhã retornamos às filmagens. Será dia de ir para a favela. Que favela, e porque, isso só falo amanhã.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
23 de novembro de 2006
Externas realizadas no centro de São Paulo podem não ser fáceis. Se o filme possui som direto, então, podem ficar impossíveis. Desde a década de 70 ouço dizer, pela boca de cineastas experientes, que em Paris ou Londres, quando há filmagem da cidade, poucas passantes param para assistir. Ao invés de uma questão de educação, sempre achei que isso expressava bem mais a frieza dos europeus, contrastada com o caráter vivaz dos latinos, aos quais tudo interessa, ( e, se não lhes disser respeito, tanto melhor, vale a pura curiosidade).
Meu pai é dos poucos artistas do seu naipe que leva uma vida absolutamente comum. Anda pelo centro indo a farmácias, bares e supermercados como se fosse um desconhecido. Fala alto, mesmo de coisas íntimas, de tal forma que muitas vezes, quando estou com ele, tenho que pedir para ele parar. Como não dirige, e mora perto de uma estação de metrô, não é difícil utilizar esse transporte coletivo em horários de pouco movimento. Imagine o Zé do Caixão num vagão do metrô reclamando de problemas urinários ou das altas contas de telefone que tem para pagar. Esse é o meu pai.
Sendo quem é, desperta a atenção por onde vai. “As vezes, indo a um shopping, tem que parar dezenas de vezes para assinar um autógrafo ou tirar uma foto. Isso vestido à paisana. Com capa e cartola, então, e uma câmera atrás de si, em plena São João, o que poderíamos esperar?
Mas, a noite parecia ser a “nossa” noite. As cenas eram feitas uma após a outra, sem problemas. As pessoas paravam, é verdade, mas, ficavam em absoluto silêncio quando pedido, acompanhando o pequeno passeio de Zé do Caixão e do fiel corcunda Bruno. Em uma hora fizemos o que pensei não faríamos em duas.
A segunda parte da noite seria filmada do alto das passarelas da Estação Rodoviária da Praça das Bandeiras. Fui de moto, aproveitando para resolver alguns problemas particulares. Ao chegar lá, não encontrei a equipe. Procurei, circundei a região duas vezes, e achei que tinham ido para nossa segunda base, onde dezenas de atores do elenco de apoio eram preparadas para nossa terceira tarefa. Ao chegar, descobri que tinha me desencontrado da equipe, mas, sabendo que as cenas eram muito simples, preferi ficar na base mesmo, já que tínhamos muita gente (e gente importante!) sendo preparada para logo mais.
Me arrependi de não ter voltado à Praça das Bandeiras. Ao invés de uma hora, foram mais de três de espera. Até um assaltante de verdade apareceu, e foi preso por nossos seguranças. O nosso Diretor de Som, Louis Robin, registrou a tentativa de assalto nos seus aparelhos. Sinistro! Nossa noite fora comprometida, e eu não poderia mais fazer gracejos com o Paulo Sacramento. Ele tinha ido para Brasília, por conta do filme “Querô”, do qual é responsável pela edição, e eu queria que, na sua volta, apresentássemos uma noite perfeita, com término antes da hora. É claro que iria dizer que bastava ele não estar para pedir algumas repetições de cenas que tudo era mais rápido. Agora, pensava em como justificar o atraso e as cenas não filmadas que fatalmente teríamos!
Nossa base, montada num estacionamento perto do Largo do Arouche, estava uma Torre de Babel, ainda mais com a chegada da equipe completa. E, num canto improvisado para setor de maquiagem, junto a seu grupo, estava nossa inusitada estrela da noite: Alexandre Herchcovitch, provavelmente o primeiro nome do imaginário popular quando o tema é “estilista brasileiro”. Ele fizera questão de vir para um pequeno papel no filme, uma forma de se irmanar a tantas outras personalidades que gostam do trabalho de José Mojica Marins.
A relação de meu pai com Herchcovitch começou em 2003, e de forma surpreendente. Apresentados pelo empresário Eugênio Pupo, suas afinidades com a área de criação logo causaram um estreitamento da amizade. Alexandre chegou a apresentar uma coleção inspirada no Zé do Caixão na “São Paulo Fashion Week”, num momento em que meu pai, tantas vezes classificado como “trash” ou “cult” no cinema, pode estender a polêmica para o meio tão fechado das passarelas.
Desde aquele evento, Alexandre disse que faria as roupas de Zé do Caixão no próximo filme que meu pai fizesse. Disse e fez! Neste filme, as roupas do funerário e de alguns personagens, como a Doutora Hilda recebem a invejável etiqueta “by Herchcovitch”.
Por conta dele e de seu grupo é que eu resolvi ficar na nossa base. Acostumado com o luxuoso mundo da moda, estava preocupado com o seu bem-estar no nosso improvisado quartel-general, com boa comida, é verdade, mas, simples, sem champagne nem caviar. Preocupação tola, como pude perceber, pois, assim como outras estrelas de direito que já trabalharam neste filme, como José Celso e Jece Valadão, de fato ele é apenas uma pessoa que exige o respeito que merece. “Estrelismos”, como bem poderia dizer Zé do Caixão, “é coisa de seres inferiores”.
Caracterizado de forma surpreendente, desafiando qualquer espectador a reconhecê-lo, Alexandre Herchcovitch cumpriu sua missão nessa obra, numa cena rápida e sem problema.
A madrugada, porém, nos reservou mais problemas do que o esperado, com muitos bêbados de verdade insistindo em “trabalhar no filme”. Era difícil filmarmos na frente dos bares e boates da “Boca do Luxo” paulistana, que, sinceramente, de luxo naquela noite só tinha a presença do Alexandre e de seu grupo.
Resumo da ópera: mais algumas cenas para serem completadas num outro dia. Pelo menos conseguimos filmar a parte programada para o espectro de Laura, que começa a ser visto por Zé do Caixão exatamente naquele meio conturbado da cidade. Algo a mais para pensarmos, depois da folga.
Hoje é nossa folga, e após um bom dia de sono, pretendo falar de família, da família de José Mojica Marins, principalmente da sua relação com ela neste filme. Aguardem!
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
22 de novembro de 2006
Já na adolescência, quando comecei a trabalhar com meu pai, aprendi uma regra básica de dramaturgia cinematográfica: um filme precisa ter um bom começo e um bom final, para agradar o público. Se tiver um desenvolvimento fraco, pode até passar, mas, sem começo e final emocionantes, frustrará o espectador. Depois de ter assistido a milhares de filmes, concordo com meu pai. Ao recordar de cenas marcantes de vários longas-metragens, verifico que inícios e finais aparecem com mais predominância, e nem sempre consigo lembrar o que aconteceu no meio de alguns filmes que gostei.
Há momentos incríveis em “Encarnação do Demônio”, mas, os primeiros e os últimos dez minutos serão, realmente, de arrepiar. O começo, já filmamos, enquanto do final, apenas havíamos começado as primeiras cenas, com o início da perseguição a Zé do Caixão pelo Coronel Claudiomiro e Padre Eugênio.
A continuação se dá numa locação bastante conhecida nossa, o Playcenter. Ao entrar no Parque, revejo nosso trabalho de 1988, quando cuidamos do primeiro ano das “Noites de Terror do Playcenter”, evento que mereceria um diário, como escrevo para este filme. E, na noite de ontem, a ordem do dia incluía um insólito duelo entre o Padre e Zé do Caixão, perto do Castelo do Horror. Em melhores palavras, como está no roteiro, “...A cruz contra o tridente”. Infelizmente, não poderíamos dar cabo de toda a seqüência no mesmo dia, pela falta de Jece Valadão, ainda internado devido a um enfarto. Ao menos no início da noite as notícias eram positivas, pois os médicos tinham conseguido reativar os rins do nosso Coronel.
Na verdade, já trabalhamos com a hipótese de deixar as cenas restantes do Coronel Claudiomiro para janeiro, pois Jece precisará de tempo para se recuperar, ao sair do hospital. Nossa tarefa, então, era filmar tudo que não precisasse da presença dele, e foi isso que fizemos ontem.
Uma cena de ação traz sempre preocupações extras, pois, passar da tensão para a comédia é muito fácil. Nas aulas de teatro e cinema dos cursos e workshops que damos, eu e meu pai alertamos para a necessidade de realidade em algumas cenas, basicamente as violentas e as românticas. Beijos e tapas técnicos podem até existir, mas, se for real, não há comparação. É por isso que Bruce Lee é inesquecível e que “Rock, um Lutador” foi o grande sucesso de bilheteria que conhecemos, apesar da “maleabilidade” cênica de Silvester Stallone. Ou será que alguém ainda acredita num beijo apaixonado em que as línguas não se enroscam?
Apesar de vestir preto, Zé do Caixão não é um ninja, e a arma mais corporal mais potente que meu pai possui é a voz. Se não ganha no grito, ele está complicado. Lembro-me da minha irmã, Mariliz, muitos anos atrás, disputando um braço-de-ferro com meu pai. Os dois ficaram minutos com os braços emparelhados, sem que alguém conseguisse deslocar o outro. Meu pai foi ficando vermelho, lilás, roxo, quase preto, quando a Mariliz desistiu, temendo pela saúde dele. Não sei direito quantos anos fazem, mas, mais de vinte são. Resumindo, apesar de toda a vitalidade, disputas físicas não são o forte de José Mojica Marins.
Nesta seqüência, no entanto, ele demonstrou o quanto uma câmera ligada pode motiva-lo. Correu, pulou, se defendeu e atacou, lutando contra um adversário com metade da sua idade. O resultado desta luta, isso não posso contar, por dois motivos: o primeiro, é claro, é por respeito ao prazer que o leitor terá ao assistir ao filme. Não serei eu a estragar a surpresa do final. O segundo é muito mais egoísta: bastaria que contasse e seria demitido imediatamente!
Sobre o adversário de Zé do Caixão, contudo, posso falar tranqüilamente. Como o leitor já deve saber, o intérprete do Padre Eugênio é o ator Milhem Cortaz, nas palavras de Paulo Sacramento, o melhor que o filme “Carandiru” possui. E, neste papel, ele ao menos se iguala, em interpretação, ao presidiário que encarnou no filme de Hector Babenco. Ao conhecer Milhem, pensei: “-Deve ser um excelente ator, ao menos é tão louco como os melhores que conheci”. Depois de um tempo de convivência tive a confirmação das duas impressões: é um excelente ator...e louco de pedra.
É bom lembrar ao leitor que no meio artístico a palavra “louco” não possui o mesmo significado que tem ao ser dita por um cidadão comum da classe média brasileira. Louco é aquele que tem vida própria, e que não faz questão de ter cada gesto, cada atitude pautada por um pretenso “manual de instruções sobre como se portar na sociedade”. Não significa ter a chamada “personalidade forte”, normalmente usada para descrever a teimosia e a intransigência, a arrogância e o desprezo pelo semelhante. Na verdade, significa sim, ter personalidade, a sua personalidade, sem auto-censuras. E é assim que ele age.
Uma vez, Milhem me disse que estava feliz em interpretar o Padre Eugênio, pois esta seria a primeira vez que fugiria de um naturalismo, podendo desenvolver um personagem “over”. Bem, Milhem, você já interpreta um personagem “over” todos os dias, e o cumprimenta sempre que olha no espelho. Pena que haja tão poucas cenas a serem gravadas com o nosso padre aloprado. Vê-lo amaldiçoando Zé do Caixão baseado em fórmulas de São Cipriano é impagável, mas, contar com a presença da “pessoa Milhem” no set, sempre com astral superior, tem ainda mais valor.
Tendo cumprido nossa tarefa da noite, já ao amanhecer, restou ir para casa pensar na próxima noite, em que filmaríamos externas no centro da cidade. Poderiam ser seqüências simples, sem nada para contar, mas, com a expectativa de receber no set o mais “badalado” estilista do Brasil, é óbvio que terei boas histórias para contar amanhã.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
21 de novembro de 2006
A noite começou com apreensão por parte de todos. A notícia do dia anterior, sobre a internação de Jece Valadão fora dada de forma bastante minimizada. Logo à tarde, um taxista amigo nosso me informou que o rádio havia noticiado um infarto de Jece. Este taxista, que havia feito uma pequena ponta no filme, com o nosso Coronel Claudiomiro, me disse que a situação era grave. Fui para o primeiro set torcendo para ser um exagero do radialista, o que não se confirmou. Jece estava em uma U.T.I., e seu estado era extremamente grave. Lembrei-me das conversas que tivemos, eu ele e sua mulher, sobre o diabetes que minara muito a sua saúde. Sendo o mito que é, parece uma fortaleza, mas, como todos nós, padece dos mesmos males que nos tornam tão frágeis.
Talvez pela gravidade do caso, nem eu, nem meu pai e também o Dennison comentamos sobre nossas divergências da noite anterior. Tínhamos duas seqüências para rodar na noite de ontem, e, não podíamos mais pendurar sequer detalhes para depois, sem comprometer nosso orçamento. Mãos à obra, portanto!
A primeira seqüência foi rodada no Instituto Biológico e, contou com a participação da atriz Cléo Paris, uma candidata à Mulher Superior, a eterna busca de Zé do Caixão. Seu personagem, a Dra. Hilda, é, ao meu ver, uma das grandes atualizações de Dennison ao roteiro de “Encarnação do Demônio”. Adepta da utilização de tecidos embrionários para terapias em seres humanos, ela simboliza a moderna ciência, que se não renega Deus, ao menos tenta levar o Homem a este patamar. Bem poderia esta ser a Ciência de Zé do Caixão.
Mas, como de bobo Zé do Caixão nada tem, e nem só de filosofia e ciência vive a Mulher Superior, Cléo é lindíssima, uma perfeita candidata para a geração do Filho Perfeito. E, se na década de 60 o funerário ainda tinha paciência para longos períodos de sedução, depois de maduro prefere ir direto ao assunto, deixando ao Corcunda Bruno e aos seus servos a incumbência de trazer as possíveis consortes para si.
Feita a iluminação e desenhado o plano, restava a última fase, em que nós, os assistentes de José Mojica, fornecíamos algumas sugestões sobre o quadro e a interpretação. Diferentemente da noite anterior, entramos em acordo rapidamente, e, com algum crédito no horário, deixamos a locação com mais um punhado do filme na lata.
A segunda parte da noite era mais delicada, com uma cena envolvendo Maíra e Zé do Caixão. Maíra é uma moça da comunidade para onde Zé vai, que se encanta com a personalidade do estranho homem. Rosto de menina, corpo de mulher e perigosa como uma naja contrariada, ela é interpretada por Thaís Simi. Lembro-me que o teste dela foi um daqueles que causou unanimidade entre os que assistiram. O encanto juvenil mais o malévolo olhar foi uma combinação perfeita na interpretação de Thaís. A nossa Maíra tinha dona!
Cenas envolvendo nudismo são sempre complicadas, isso eu sei desde a época em que comecei a filmar com meu pai. A maioria de nós é outra pessoa quando despido, ainda mais em público. Nem parece que nascemos, todos, nus. Às vezes as imperfeições na interpretação passam despercebido pelo espectador, mas, para o crítico atento não. Portanto, todo cuidado era justificado para que Thaís se sentisse o mais à vontade possível.
Nossa equipe é grande, por volta de 70 pessoas, entre homens e mulheres. No passado, cheguei a pensar que a solução para cenas como esta era deixar a equipe nua, também, como num campo de nudismo. Logo percebi que esta era mais uma das minhas idéias esdrúxulas, que nunca dariam certo (exceto, é claro, num campo de nudismo). A solução, mesmo, é esvaziar o set, deixar nele somente as pessoas realmente necessárias. Foi o que fizemos. Como assistente, ao lado de meu pai, apenas o Dennison. Eu e o Sacramento ficamos na sala do lado, com um vídeo que nos mostrava tudo o que ocorria, de forma que podíamos, no intervalo das cenas, ajudar na direção, principalmente na inflexão das palavras, já que a seqüência tinha sua força exatamente na intenção revelada das frases.
Thaís foi muito bem. Para falar a verdade, só tive uma sugestão a fazer com relação aos ensaios, um pequeno detalhe. Já com relação ao meu pai, tive três ou quatro. Teria a insinuante Maíra desnorteado o Zé do Caixão? Acho que não! Mais provável é que a bela Thais tenha me envolvido com seu casamento perfeito com a personagem.
A noite terminou, sem “rebarbas” para serem filmadas depois. Só a preocupação com Jece nos tirava a sensação de uma noite ideal. Mas, para uma equipe que teria que filmar a seqüência que poderia ser a mais importante do filme na noite seguinte, tínhamos mesmo é que descansar, e deixar de pensar naquilo que nada pudéssemos fazer. Sobre essa seqüência tão crucial para o filme eu falo amanhã.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
20 de novembro de 2006
Ao longo de uma filmagem, principalmente em se tratando de um filme de José Mojica Marins, o roteiro sofre mudanças substanciais. Os motivos são vários: o material filmado resulta num tempo diferente do planejado (apesar que só a edição definitiva vai dizer exatamente com quanto tempo ficará o filme), o plano de filmagem pode não ser cumprido, fazendo com que alguns atores tenham que ter cenas cortadas, por conta de outros compromissos, o orçamento acaba antes da hora, e outras situações que exigem uma reavaliação do roteiro.
O Planejamento deste filme é bastante apertado, e, não é a primeira vez que cenas e seqüências inteiras são excluídas para adequar o filme ao orçamento disponível e ao tempo estimado de exibição. Os cuidados para um corte deste tipo são vários, pois, mesmo quando motivados por razões de economia devem ser realizados de forma a melhorar o filme, de um ponto de vista global.
Com o material filmado, já se pode ter idéia do resultado final, do ritmo que o filme terá e das reações que deverá causar nos espectadores. Aí vemos que algumas cenas são desnecessárias, e outras precisam ser mais valorizadas.
No caso da seqüência das aranhas, que filmamos de forma incompleta alguns dias atrás, nenhuma cena pode ser cortada, e, considerando as imagens que já conseguimos, as cenas restantes poderiam até ser mais valorizadas. Será uma das seqüências mais apavorantes do filme e, por isso, tivemos uma noite inteira reprogramada para termina-la da melhor forma que pudermos.
Pelo menos, acabamos com as aranhas, essas atrizes tão instáveis! Na ordem do dia de ontem, prioridade para o trabalho com os espectros que fazem parte da seqüência, interpretados por Raissa, aquela atriz que tanto sofrera com malfadadas lentes de contato especiais e por Alessandra, que da outra vez sequer havia conseguido filmar, tendo passado a noite inteira com o corpo completamente maquiado.
Antes, porém, uma pequena cena, em que uma executiva é raptada por um dos servos do Zé do Caixão. Sobre estes servos, falarei num futuro próximo. Só adianto que este núcleo é um dos melhores pontos do roteiro de Dennison Ramalho e de meu pai. Dennison, neste caso, conhecedor de toda a obra cinematográfica de José Mojica Marins foi buscar a idéia no terceiro episódio do filme “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”. E, se o funerário já é temível sozinho, imaginem com mais alguns malucos sob o seu comando!
Terminada a entrada, fomos ao prato principal. Raissa foi a primeira a ter sua parte na seqüência terminada. Muitos de nós temíamos pela reação de seus olhos às lentes especiais, pois, da outra vez havia ficado dois dias com intensa irritação. Pelo que disse, ao menos no primeiro dia sequer conseguiu dormir. Mesmo assim, ela concordou em recolocar as lentes, para terminar o trabalho. Obrigado, Raissa, em nome de todos aqueles que aguardam co m ansiedade esta obra!
Uma garoa forte ameaçava nosso trabalho, nada como a chuva forte da noite anterior, mas, o suficiente para nos preocupar. Ulisses, o “Senhor da Atmosfera” nos tranqüilizou: “- Isso não é nada. Pára rápido”. E foi o que aconteceu, confirmando os poderes meteorológicos de nosso gaffer (esse é nome da função dele, que descreverei melhor em outro dia).
Partimos, então, para o trabalho com Alessandra Miranda, mais uma jovem atriz a estrear em longa-metragem com este filme. Seu papel, o espectro de Laura, a mulher que fez Zé do Caixão sofrer, morrendo no parto de seu filho, é colocado numa seqüência enigmática, que transtorna de vez a mente já embaralhada do funerário.
Maquiada da cabeça aos pés, mesmo assim Alessandra foi a que teve melhor sorte entre as atrizes que interpretaram os espectros. Não teve que trabalhar com caranguejeiras ou cobras como Raissa e Janaína, nem teve que ser pendurada numa árvore, como Guta. Segurar um bebê-espectro foi “fichinha”, perto do que as outras passaram!
Mas, se com a atriz tudo eram rosas, com a direção espinhos se formavam. Quase sempre concordantes, desta vez tivemos idéias bem diferentes sobre como efetuar uma transição que ligaria esta seqüência a uma outra, anterior na ordem do filme, mas, ainda a ser filmada. Na verdade, a discordância inicial se deu entre meu pai e Dennison. Tínhamos um problema de tempo, como sempre, e estava difícil filmar como estava proposto no planejamento feito por ele. Meu pai apontou uma possível solução alternativa, mas ele não gostou. Como bom filho, bem poderia eu ter ficado do lado paterno, mas, ao meu ver, Dennison estava certo. Para mim, a vigorar a idéia de meu pai, teríamos uma variação no ritmo do filme que comprometeria aquela parte. O Sacramento, vendo que a polêmica já era grande, preferiu assistir.
Na prática, como já foi dito antes, o Diretor Geral decide, mas, sentindo-se sozinho, ele preferiu nada adiantar sobre a decisão final. E, no processo ficou de mal de mim. A expressão é bem essa mesmo. E, pelas horas seguintes, ele não me dirigiu a palavra! Por sua vez, também chateado, Dennison mergulhou no silêncio.
Mesmo com o núcleo da direção estremecido, ainda tínhamos que terminar a noite, e corremos para a Liberdade, filmar mais um rapto, desta vez de uma oriental, por outro servo do Zé do Caixão. Conseguimos terminar pouco antes do amanhecer.
Ao final, tínhamos ao menos dois problemas. Um, que acho de solução natural, após um bom dia de sono, era restaurar a coesão de nosso núcleo diretivo. O outro, mais complicado, não dependia de nós: Jece Valadão tinha sido internado, com problemas respiratórios, o que preocupou a todos. Mas, para saber como lidar com tudo isso, temos que esperar até a próxima noite.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
19 de novembro de 2006
Domingo difícil para mim e meu pai. Corintianos “roxos”, não é fácil admitir a conquista de um Campeonato Brasileiro pelo São Paulo. Ainda mais num campeonato em que disputamos quase sempre à beira da queda para a segunda divisão. Mas, não adianta lamentar, o jeito é partir para outra, quem sabe no ano que vem tenhamos melhor sorte. Pelo resto do dia, tínhamos que pensar na filmagem, que seria na locação mais distante da cidade do filme.
E, coisas em que pensar não faltavam: filmagem num matagal, cobra no elenco, e o tempo nublado, com ameaça de chuva. Mas, a cena era capital para o resultado do filme, uma perseguição implacável do Coronel Claudiomiro e do Padre Eugênio ao Zé do Caixão. A concentração tinha que ser total.
Chegamos à locação, em um clube de camping a menos de 30 Km de São Paulo. A equipe já descera para o set com o equipamento, passando por estreitas estradinhas de terra. Mal nos posicionamos na base de recepção, e a chuva começa a cair. A terra em minutos tornou-se lama e começamos a temer pelo pior.
Os atores esperavam, com certa impaciência. Jece Valadão tinha chegado de Natal, onde recebera uma homenagem, e estava visivelmente cansado. Sua esposa, que sempre o acompanha nas filmagens estava preocupada. Naquele lamaçal a cena se tornava perigosa, com o risco de quedas aumentando. Muitos da equipe, inclusive eu, também se preocupavam com José Mojica. Ele e Jece não eram mais garotos, a idade ideal para esportes radicais já era passado. Todo cuidado seria pouco, e meu pai decidiu que podia filmar na porção de cima do camping, com menos mato, mas, mais segurança.
A resposta da equipe veio rápido: não era possível. Os carros que haviam descido, inclusive o gerador, estavam presos no set. Só sairiam de lá puxados por um trator. Ou a filmagem se daria no local planejado, ou não haveria filmagem naquele dia. E, já devendo alguns pedaços de seqüências de dias anteriores, somente falar em perder um dia de filmagem inteiro causava pesadelos aos produtores.
Enquanto isso, a algazarra do nosso grupo aumentava. Milhem, o intérprete do neurótico Padre Eugênio havia chegado com camisa do São Paulo, e cantando o hino, só para provocar corintianos, palmeirenses e outros rivais. Toti, a cobra píton albina que participaria da seqüência, atraia a atenção de todos, a maquiagem cuidava dos espectros de Terezinha, interpretada pela atriz Janaína Afonso e de um garoto que vinha assombrar Zé do Caixão, interpretado pelo seu neto Pedrinho. Caio Gullane, sócio da Gullane Filmes, produtora em parceria com a Olhos de Cão, de Paulo Sacramento, havia chegado para tomar a decisão final, que poderia acabar com nossa noite.
No meio disso tudo, chegou um aviso: “- Vamos filmar. O Ulisses disse que a chuva pára à meia-noite.” Longe de ser um meteorologista ou mesmo um índio cheio de sabedoria da Natureza, Ulisses é uma das pessoas mais experientes do nosso grupo. Chefia toda a parte de equipamento, maquinário, eletricistas, e, nessa função é conhecido como o melhor do Brasil. Mas, como homem do tempo?!!...
O fato é que queríamos filmar, não nos conformava a idéia de uma perda tão grande, e o vaticínio climático ganhou ares de profecia.”- O Ulisses falou, ele sabe.” “- É a voz da experiência, a chuva vai parar”. Bem, com aquela altura e de cabelos grisalhos, não seria São Pedro disfarçado? Melhor, então, antecipar o jantar, e torcer.
E não é que o Ulisses estava certo? Meia-noite, nem mais sinal de chuva. E lá fomos nós, nos poucos veículos disponíveis com tração nas quatro rodas, derrapando pelos caminhos, até o set.
Gravação difícil, com ambiente que me lembrou os melhores momentos da filmografia de Tim Burton, em mais uma obra-prima fotográfica de Zé Bob. As cenas se sucediam, e, ao vê-las no vídeo, imaginava o encantamento dos espectadores. Jece e Milhem estavam fantásticos, e o Zé do Caixão, proferindo mais um dos seus tradicionais discursos desafiando os mortos, parecia invocar os espíritos da floresta. E, neste caso, invocou Toti.
A cobra (ou cobro, como chamávamos, pois sua dona garantia que Toti era muito macho), impressionava muito, sua cor amarela contrastando com a macabra luz refletida das árvores. No ensaio, tive o desprazer de sentir sua respiração a centímetros do meu rosto, sua língua quase entrando no meu olho. Mas, quem a viu manipulada pela Janaína sentiu a grandiosidade daquela cena. Mais uma atriz de coragem, juntando-se à Raissa e à Guta, que filmaram em dias anteriores. Pedrinho quase que assustava mais que a cobra, justificando a opinião de meu pai que garantia ser muito mais assustadora a aparição de uma criança do que de qualquer outro tipo de pessoa. (veja-se os recentes “O Grito” e “O Chamado”, ou o clássico “A Profecia”.)
E o impossível aconteceu. Terminamos as cenas planejadas em meia diária, com a colaboração da equipe, que concedeu um “chorinho” no tempo planejado. Meu pai estava esbaforido, mas, realizado. Seria seu dia de maior exigência física. Mas, do jeito que correu, bem que poderia pensar em disputar alguma prova para maiores de setenta e fumantes inveterados.
Amanhecia, quando saímos da locação. Os carros que haviam descido teriam mesmo que esperar um trator. Para nós, que conseguimos sair rapidamente, restava pensar na tarefa da noite seguinte, quando voltaremos ao Parque da Luz, para terminar a seqüência das caranguejeiras, já sem as peçonhentas atrizes. Para os paulistanos comuns, já começou o feriado (que é apenas municipal, o Dia da Consciência Negra), mas, para nós, apenas umas horas de descanso nos separando de outra noite de trabalho, de cujo resultado os leitores saberão amanhã.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
18 de novembro de 2006
Toda folga é bem-vinda, ainda mais quando dá para aproveitar e jogar um futebolzinho. E foi isso o que fiz, junto com meus filhos. Descansar, mesmo, fica para depois das filmagens. Eu queria mesmo era testar se meu corpo não ficaria ressentido após os dois tombos de ontem. Tudo bem, continuo o mesmo de sempre (paradão na área adversária reclamando o tempo todo com o time para ter a bola nos pés.)
Como promessa feita tem que ser cumprida, hoje vou contar sobre a parceria mais interessante deste filme, envolvendo os titulares de duas das posições mais importantes de um time cenográfico: o Diretor de Fotografia e o Diretor de Arte. E, para Encarnação do Demônio, é como se tivéssemos reunido Gerson e Pelé pela primeira vez (ou, ao menos Diego e Robinho, prestigiando uma dupla mais recente do nosso futebol). É essa a sensação que fica após analisar o trabalho de José Roberto Eliezer, o Zé Bob, e Cássio Amarante, profissionais de ponta na cinematografia nacional, mas, que nunca tinham atuado juntos num longa-metragem.
Fotografia e Arte, no cinema, se completam. Se a Arte não estiver boa, fotografar o que, as imperfeições que tirarão a sensação de que tudo não passa de uma farsa? E se a Fotografia não for condizente com a perfeição alcançada por um Diretor de Arte excepcional, quanto não será perdido!
Encarar o desafio de transpor para a tela um verdadeiro delírio visual, como é “Encarnação do Demônio” não é tarefa para qualquer um. Assim, pode-se contar como grande a façanha de, a despeito do orçamento limitadíssimo, termos em nossos sets estes dois magos.
Zé Bob é o mais velho (desculpe, Zé, mas, é verdade), sendo, aos 52 anos, um Diretor de Fotografia dos mais premiados (se não o mais premiado) do país. Só de Kikitos (o prêmio dado no nosso Festival mais importante, o de Gramado) ele tem quatro, verdadeira coleção! Os 30 anos de Cinema foram dedicados à Fotografia, pela qual nutre sua grande paixão. Começando como assistente de câmera, desempenhou a função de fotógrafo antes de chegar ao posto de Diretor de Fotografia. Seu primeiro longa no topo da atividade foi “Janete”, de Chico Botelho, e com ele veio o primeiro prêmio. Com o segundo, “Demência”, de Carlos Reinchembach, repetiu o feito, e, para não perder o ritmo faturou o terceiro prêmio na seqüência, com “Cidade Oculta”, repetindo a parceria com Chico Botelho. Resumindo, sem falsa modéstia, ele conta que mais da metade dos filmes em que foi o responsável pela fotografia foram premiados neste quesito. Seus olhos brilham ao falar em prêmios. Lembra o cachorro Mutley (não sei como se escreve) do desenho “A corrida maluca”, que fazia tudo por uma medalha. Egoísmo puro do Zé Bob. E para os outros Diretores de Fotografia, nada?
Brincadeiras à parte, seu currículo não é desproporcional à seriedade do seu trabalho. Quando perguntado sobre o que separa um Diretor de Fotografia medíocre (de médio, não de ruim) de um bom, ele responde tranqüilamente. “-Um conhecimento amplo de todas as Artes, de forma integrativa. Um profissional com excelência na área precisa ter uma multiplicidade de referências, e transitar bem entre elas.” Essa é a típica resposta de alguém que não separa trabalho da vida, que estuda a todo o momento, tendo a mente aberta para as possibilidades que o mundo do dia-a-dia traz. É, estamos bem de Fotografia...
Na Direção de Arte, o titular é Cássio Amarante, o mesmo profissional de “O ano em que meus pais saíram de férias”, em cartaz nos cinemas. Com 40 anos, e 15 de cinema, coleciona entre os seus trabalhos alguns dos filmes mais conhecidos do grande público, como “Central do Brasil”, de Walter Salles, em que divide o trabalho com Carla Caffé e “Bossa Nova”, de Bruno Barreto, repetindo a parceria na Arte. Oriundo da FAU, o arquiteto Amarante foi primeiro para o Teatro, tendo trabalhado junto com Daniela Thomas. Mas, é em “Encarnação do Demônio” que o público poderá conhecer toda a potencialidade do trabalho do Cássio.
Um Diretor de Arte é como um alquimista de espaços e pessoas. É capaz de transformar qualquer coisa em qualquer outra coisa. Faz de um cemitério uma boate, de um McDonald´s um Fasano, de um Lula um FHC (na aparência, não na política econômica, o que seria fácil demais). É um grande palpitador, pois, mesmo sem “pegar na massa”, interfere com maquiagem, figurino, pintura cênica. Neste projeto, mais de 30 pessoas se reportam diretamente à figura do Diretor de Arte.
Para Amarante, o trabalho está bem feito quando parece “documental”, quando os espectadores acreditam naquele mundo das telas, como se os “sets” de filmagem existissem exatamente daquela forma. Quem não gostaria de conhecer a Terra Média, de “O Senhor dos Anéis”? Trabalho do Diretor de Arte, cada detalhe.
Nesse filme, ele procurou aproveitar o máximo que podia das locações (quase morreu no areal do Purgatório, lembrem-se), para aumentar o realismo e fugir dos altos gastos dos estúdios, que o orçamento não comporta. Sobre orçamentos cinematográficos, ele é taxativo: “- As leis de incentivo deveriam prever orçamentos específicos para a Arte, pois, ali é tudo brasileiro, materiais, lugares, profissionais. É o que faz girar a Economia.” Muitos não acreditarão que ele conseguiu os resultados que já vimos com a verba que possui.
Arte e Fotografia dialogam o tempo todo. É o que fazem Cássio e Zé Bob. Nem sempre concordam, mas, sempre estão dispostos a discutir e chegar à uma conclusão que seja “o melhor para o filme”, como dizem. E que agradem a José Mojica, já que os dois estão nesta produção justamente para poder trabalhar com o lendário mestre do horror brasileiro.
Em comportamento, são os “opostos que se atraem”. Zé Bob parece um plácido lago, Amarante o mar encrespado; Zé pouco muda de expressão ao passar de concordante para contrariado (a não ser quando interpreta o corcunda Bruno, papel que sonha em roubar de Rui Rezende). Já com Cássio, a leitura corporal de seu estado de espírito é extremamente fácil. E, mesmo com essas diferenças, a harmonia dos dois é facilmente alcançada. Como disse meu pai “-Nasceram um para o outro”. Brincando, eles dizem que ainda precisam decidir na casa de quem comemorar a união.
Sem malícia, eles realmente constituem a dupla dinâmica deste filme, Mestre-sala e Porta-bandeira de nosso enredo (êpa, quem será a Porta-bandeira? Melhor dizer Diretor de Harmonia e Diretor de Bateria? Melhor!), ou melhor, o Diretor de Harmonia e o de bateria de uma escola de samba campeã!
Bem, a folga acabou, e amanhã, domingo, é dia de filmagem no mato. É isso mesmo, num grande matagal, numa cena que inicia o grande final deste filme, o encontro mortal entre Zé do Caixão e seus inimigos. Amanhã eu escrevo sobre isso.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
17 de novembro de 2006
Antes de mais nada, é bom dar alguns esclarecimentos aos leitores. Apesar das anotações e redação inicial deste Diário ser feita diariamente, o processo envolvendo a redação final e a veiculação no site pode demorar alguns dias. Para preservar o espírito “diarista”, no entanto, não revemos fatos posteriores, de maneira que algumas informações, quando divulgadas, podem parecer ultrapassadas. Fizemos esta opção para poder passar ao leitor todas as nossas ansiedades, quando e se elas existirem. Por fim, neste período em que a filmagem é noturna, a data do diário será sempre referente ao início da filmagem, já que, necessariamente, nosso período é dividido em dois dias “calendário”, separados pela meia-noite. Como a redação inicial é feita somente após o término das filmagens do dia, nesta nossa fase noturna, “ontem” se referirá à data do cabeçalho, sendo outros dias anteriores nominados pelos dias da semana ou do mês.
Neste dia 17, ou seja, ontem , voltamos ao Cemitério da Vila Formosa, desta vez para uma filmagem com muito terror, bem ao melhor estilo Zé do Caixão. A cena, mais um ataque dos espectros do passado ao funerário maldito. Nesta noite, a cargo de Guta Ruiz, a difícil tarefa de trazer à vida um verdadeiro cadáver ambulante, já bem passado em seu tempo de decomposição. Ao menos, foi assim que me pareceu a moça, depois de passar pela mão de nossos especialistas em efeitos e maquiagem especiais. Só não reproduziram o cheiro, para alegria de todos nós, pois, na aparência, duvido que houvesse muitos debaixo da terra com tão terrível aspecto!
Maquiagem e efeitos estiveram na ordem do dia, além da dificuldade natural de iluminar uma enorme área, para uma descontraída caminhada noturna por aquele local bucólico (ao menos, para o Zé do Caixão). Desta forma, a primeira coisa a me preocupar foi o tempo estimado para cada uma das atividades antes que se pudesse dizer “ação”. E, ainda havia o problema da chuva, pois, alguns pingos foram sentidos logo no início da noite. Não fosse isso a filmagem seria simples, a não ser para Guta, que precisava ser enforcada numa árvore. Contaram que a árvore que escolhemos já tinha sido, na realidade, palco de uma cena como aquela. Mau agouro!
Antes do enforcamento, as cenas “solo” do Zé do Caixão, e as cenas com ele e o espectro de Terezinha, personagem de Guta. Eu temia por ela, sob pesada maquiagem, lentes extremamente incômodas (a atriz do dia anterior, Raissa, tinha sido levada para o hospital, por causa delas) e prestes a fazer uma cena de certo risco (mesmo que nosso efeitista, o Kapel, diga que tudo é absolutamente seguro, ficar pendurado a alguns metros do solo sempre traz preocupações). Mal sabia eu que o risco era para mim!
Tenho feito “stand-in” (ou seja, fico no lugar do ator, para o ensaio) do meu pai, já que possuo algumas características físicas bem próximas (altura, volume do corpo, não barba e unhas). E, na cena com Guta, tinha que retroceder alguns passos, até me encostar numa árvore, atacado de perto pelo espectro, que babando gosma preta e vermes viria beijar Zé do Caixão (ser usado uma cena de beijo com uma linda atriz, como a Guta, até poderia ser um prazer, mas, acreditem, do jeito que ela estava , a cena da Linda Blair vomitando verde em “O Exorcista” era menos nojenta). E lá fui eu, um passo para trás, dois, três, raiz, tombo!
Quem colocou aquela raiz enorme ali? Caí feio, e Guta, muito próxima de mim, caiu no vácuo que deixei (quem manda ser gordo?). Apesar de cair por cima, ela se machucou mais do que eu. Perigoso, pensei, se fosse meu pai, poderia ter quebrado algo, pois, com as unhas fica difícil se proteger. Tom, um dos assistentes de direção, depois de confirmar que eu estava bem, aconselhou: “_ Cro, você interpretou no ensaio. É melhor fazer um ensaio mais técnico, para não ter perigo.” Guardei o conselho.
Ao filmar a cena, meu pai estava visivelmente preocupado com os passos para trás. Quase caiu, salvo na última hora pelo Magoo, o platô, que se jogou no meio da cena para segura-lo, alertado que estava com a minha queda.
Para filmar de outro ângulo, outro ensaio. E eu queria achar uma maneira de ensinar meu pai a, andando para trás, após certo número de passos, encontrar a árvore com as costas. Resolvi marcar a cena sem a Guta. Contei alguns passos para frente, e voltei, sempre lembrando do aviso do Tom “-Seja técnico!” E lá fui eu, um passo para trás, dois, três, raiz, tombo! Fui ao chão com a mesma determinação que da primeira vez. Acho que pensaram que eu tinha bebido algo. Não, fora bobeira mesmo!
O terreno facilitava a queda. Com um ligeiro declive em direção à raiz, era difícil manter a reta que dava no caule da árvore. E difícil perceber este desvio. Os passos não podiam ser rápidos. Ou era a árvore descontente com aquela filmagem sob sua copa? Melhor nem pensar nisso. A cena do enforcamento ainda não havia sido feita.
Chegou a hora. Suspensa, Guta causava aflição em todos nós. Conforme se ajeitava, era motivo de temor. Por melhor que Kapel seja, não dá para transformar uma cena de enforcamento em viagem de primeira classe. O desconforto era grande. Mas, com muita técnica e disposição para o sacrifício, ela completou o trabalho. Será algo que ela não esquecerá tão cedo. (nem os espectadores do filme, que deverão “gelar” com o resultado).
Alguns detalhes mais, e o dia (ou melhor, noite) estava terminado. Dia seguinte, ou seja, hoje, é folga. Dia do leitor conhecer um pouco mais de um personagem importante na realização desse filme. E, dessa vez serão dois, uma verdadeira “dupla do barulho”. Mas, sobre isso só escrevo amanhã.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
16 de novembro de 2006
Ontem foi a noite delas. Silenciosas e apavorantes, extremamente convincentes, apesar de “canastronas”, as caranguejeiras roubaram a cena. E, da mesma forma que iniciamos o primeiro dia de filmagens com cenas bastante difíceis, a marca de nossa transição para as noturnas não poderia ser mais emblemática.
Desde o início, meu pai vinha falando sobre a seqüência em que teria que trabalhar com os animais mais difíceis que conhecera durante todos os anos em que trabalhou com terror. Esses aracnídeos, que tanto “frisson” causam sempre que os filmes dele são exibidos, são mais teimosos que um jumento empacado, mais instáveis que um pitbull contrariado, enfim, mais “estrelas” que um Michael Jackson em qualquer situação. Por isso, ele preferiu começar com elas. Se conseguisse terminar, o resto seria fácil.
Além dele mesmo, mais uma atriz precisaria contracenar com elas. Maquiada de forma apavorante, como um espectro que apavora Zé do Caixão, Raissa Gregori havia feito testes para ver se resistiria à proximidade das peçonhentas companheiras. O problema é que, para o desenrolar da cena, ela teria que estar imobilizada, não podendo fugir, mesmo que quisesse. Se houvesse um Oscar para a categoria “coragem e sacrifício em cena”, ela seria forte candidata.
Ao contrário do que possa parecer, as caranguejeiras são frágeis. Se caem de uma altura de um metro, podem quebrar uma perna ou mesmo ter arrebentado o abdômen, morrendo em seguida. Além disso, não são gregárias, vivem sozinhas, e, quando colocadas em contato com semelhantes podem lutar até a morte. Meu pai conta que, na década de 60, na antológica cena de “Esta Noite encarnarei no teu Cadáver”, utilizou nada menos que 400 aranhas deste tipo; ao final, 330 tinham perecido. Hoje, estes animais são objeto de proteção ambiental, sendo quase impossível obter uma quantidade como aquela para as filmagens. Assim, tínhamos disponíveis poucas dezenas para a seqüência.
Logo na primeira cena, uma série de repetições. As aranhas tinham que correr em certa direção única, mas, cada uma ia para um lado, numa mostra de independência e insubordinação ao Diretor. Aparentemente surdas, somente com muita paciência e alguns “truques” conseguimos as imagens de que precisávamos. Alguns da equipe ajudaram, tomando os aracnídeos na mão e soltando-os no lugar certo. Destaque para a Alessandra, nossa Diretora de Elenco, que segura uma caranguejeira como se fosse um gato Angorá. Era insólito ouvi-la dizer o tempo todo: “-Mas, não são umas gracinhas?”. É, gosto não se discute!
Terminada a cena com Raissa, sob vários ângulos, passamos para o contra-plano, ou seja, a visão do Zé do Caixão. Ele seria atacado pelas aranhas, que subiriam pelo seu corpo até a cabeça. Não tendo a mesma opinião de Alessandra sobre a graciosidade daqueles aracnídeos, ele nem havia dormido direito, pensando na cena. Num telefonema para minha irmã Mariliz ele tinha dito “-Filha, você tem que ver a filmagem hoje, com seu pai sendo atacado pelas aranhas”. Não é o melhor convite que um pai possa fazer a uma filha, mas, ela veio, câmera digital na mão, para colher fotos para o “álbum de família”.
Alguns detalhes foram mesmo inquietantes. Uma das maiores aranhas foi colocada diretamente no rosto dele, e, num arroubo de exibicionismo começou a dar voltas, rapidamente, por toda a sua cabeça. A equipe ia à loucura. Tínhamos uma foto para divulgação, uma cena para o trailler e um momento para o filme de tirar o fôlego da platéia. O fôlego do Zé do Caixão já fora tirado!
Mas, o tempo gasto com as “primas donnas” nos fez falta. Perto das três horas da manhã, ainda havia muito a fazer, inclusive uma outra seqüência inteira, em que Zé do Caixão perseguia um espectro. E, para complicar tudo, um gerador quebrou, paralisando as filmagens por mais de trinta minutos. Raissa sofria muito com enormes lentes incomodando seus olhos. Ela já havia esperado demais para que fossem filmados alguns detalhes finais. Era hora de simplificar, já tínhamos muitas imagens fantásticas, e, se não fôssemos um pouco além, comprometeríamos uma diária inteira.
Assim, após o reparo do maquinário, terminamos aquela seqüência, deixando só uma por fazer. No máximo, meia diária a mais, que poderia, inclusive, ser feita num dia em que as cenas fossem mais simples, sem atrizes tão temperamentais (e, não estou falando da Raissa, exemplo do sofrimento que pode passar uma pessoa para que outras milhões tenham divertimento de primeira classe numa sala de cinema).
Um misto de euforia e desapontamento tomou conta de meu pai. A seqüência mais difícil para ele havia terminado. Por outro lado, juntáramos uma seqüência inteira ao passivo de pequenos detalhes de outras seqüências que ainda precisávamos fazer. A preocupação com o orçamento sempre é forte nele, mesmo quando não é o produtor. Ele já viu muitos projetos irem por água abaixo por faltarem recursos para uns poucos dias de filmagem a mais.
No momento, ainda temos certa folga. Ainda mais se conseguirmos passar por outra seqüência difícil, amanhã, com uma série de efeitos especiais. E, enquanto alguns leitores acordam, estamos indo dormir, trocando o dia pela noite pelos próximos vinte dias. Assim, se quiserem saber sobre os efeitos que teremos que conseguir amanhã, precisam esperar...
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
15 de novembro de 2006
Alerta geral! O Diretor amanheceu mal. Antes de sair de casa, recebi o preocupante telefonema, vindo da casa de meu pai. “_ Cro, o papai não está bem, está sentindo a pressão alta, disse Merisol, do outro lado.” Completou pedindo para que eu pegasse um medidor de pressão com a Mariliz, antes de ir para o set. Eu moro no mesmo prédio que ela, que é uma espécie de consultora médica da família. Fiz o que era preciso, e, antes de sair de casa, outro telefonema, do Tom. “-E aí, Cro, precisa de alguma coisa?” .“- Estou levando o aparelho, disse eu, mas, ele precisa de bateria. Quando meu pai chegar aí, leve-o para uma farmácia. Precisamos saber se o aparelho está confiável”.
Assim como milhões de brasileiros, meu pai tem problemas com a pressão. Um misto de fatores como idade, falta de exercícios físicos adequados e tabagismo faz dele o modelo perfeito de um hiper-tenso. O problema é que ele ainda tem contra si a displicência no que se refere ao seu remédio para pressão. Preocupado com sua eterna dor nos olhos, de origem desconhecida, nunca sai de casa sem os seus colírios. Já não é o mesmo com o Cardizen, que só toma quando sente a pressão nas nuvens.
Quando cheguei no set, meu pai estava indo para a farmácia. Alguns vieram me falar, preocupados com o ritmo das filmagens, que podia estar cansando-o. Eu os acalmei, meu pai é uma rocha, uma rocha hipertensa, mas, uma rocha. Sei que quando terminar as filmagens ele precisará de uns dias para descansar, como todos nós. Mas, por enquanto, sabia que esse problema não era por cansaço.
Ao chegarem da farmácia, a confirmação. A alta estava em 17, a mínima próxima dos 12. Se o remédio não fizesse efeito, hospital na certa. Nós, do núcleo da equipe conversamos então sobre o dia, aparentemente simples. Uma cena de rua, com o corcunda Bruno, uma outra entre Zé do Caixão e Bruno, e a última com o Coronel Claudiomiro e sua mulher. Achamos melhor que a primeira cena fosse filmada pela equipe de assistentes, enquanto meu pai descansava. Eu mesmo não quis ir, preferi ficar e conversar com ele. Nestes momentos, uma conversa descontraída sempre faz bem para ele.
Após uma hora, vendo que ele melhorava rapidamente, e achando que já havia um certo atraso na filmagem, fui para lá, uns quatrocentos metros de distância, na mesma rua.
Ao chegar, senti que algo não ia bem. Pelo semblante de algumas pessoas, figuras chaves na área técnica, li alguma insatisfação. Não demorei para achar o motivo. Uma mudança no ângulo proposto para a cena, alguma divergência entre os assistentes e o conseqüente atraso para a vinda de novos equipamentos eram as raízes da discórdia. A cena foi feita, ficou boa, mas, o evento mostrou a importância do Diretor para este filme.
Após outra ida à farmácia, que confirmou a melhora, passamos para diante. Falei para meu pai do estado de ânimo de alguns, mas, ele não se preocupou. Disse-me que era só filmar o resto do dia sem mudar o planejamento, cuidando para que não houvesse muitas repetições, terminando na hora prevista, que tudo se resolveria.
Ele estava certo. Depois de mais duas seqüências terminadas, com um mínimo de repetições, o dia estava findo. Não antes dele se exasperar com a equipe numa das últimas cenas filmadas, reclamando dos muitos palpites dados de forma desorganizada. Todos ouvimos quietos, e entendemos que, mesmo querendo ajudar, devemos seguir uma hierarquia para a difusão das sugestões, hierarquia que sempre terminará nele.
Depois do último “-Corta”, ele procurou as chefias técnicas e seus assistentes para esclarecer o que havia dito. Ninguém discordou, havia momentos em que o Diretor precisava prevalecer, e foi o que ocorrera. Eu estava preocupado com sua pressão, mas, qual nada. A adrenalina da filmagem parece agir nele como o Cardizen. Ao terminar, ele estava feliz, bem disposto para uma sessão de fotos para a revista Vogue. Cansaço? O que é isso?
Este foi nosso último dia. Amanhã, a filmagem é noturna. Mudança de fuso horário, sem viajar. Aos notívagos, como eu, meu pai, o Tom e outros, nenhum problema. Para os de hábitos diurnos, haja café para acompanhar. Mas, pelo menos amanhã, será impossível dormir. Receberemos dezenas de atrizes especiais, todas muito esperadas. Peludas, com oito patas, elas não poderiam faltar numa filmagem do Zé do Caixão. Acho que vocês já sabem quem elas são. Se não, amanhã ficam sabendo.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
14 de novembro de 2006
Hoje boa parte da equipe, inclusive eu, pôde dormir um pouco mais. Com uma cena simples a ser filmada no mercado do Pari, onde não poderia haver mais do que doze pessoas da equipe, reduzimos ao máximo as necessidades técnicas. Assim, eu e outros pudemos, além de dormir pela manhã, é claro, cuidar de alguns negócios particulares que começam a ficar atrasados. Mas, envolvidos com o filme como estamos, acabamos por passar o tempo ansiosos, querendo saber de tudo o que está acontecendo.
As notícias chegaram rápido, já que a filmagem não apresentou problemas. Tinha sido a primeira cena filmada com o personagem do padre Eugênio, mais um obcecado por vingança contra o Zé do Caixão. Interpretado por Milhem Cortaz, o padre ganha um incrível vigor físico, com traços de desequilíbrio mental inquietantes.
Resumindo, meu pai chega ao set da tarde orgulhoso de ter feito toda a cena com metade do negativo disponível para ela, comentando da tranqüilidade de não ter muita gente para sugerir a repetição dos planos. Eu e o Sacramento, que não fomos, percebemos a ironia, já que por muitas vezes neste filme pedimos por repetições de cenas. Mas, nem por isso pretendemos mudar nosso comportamento. O Sacramento, além de Produtor, é o responsável pela edição do filme, e, como meu pai, trabalha pensando no produto final, já montado. Eu, não tão treinado com problemas ligados a eixos cênicos e continuidade, só peço para voltar quando sinto problemas com os atores, principalmente com meu pai. E, todos querem ver o Zé do Caixão na sua melhor forma nas telas. Portanto, ele pode falar a vontade, que nós continuaremos sugerindo. Até porque, como Diretor, ele pode acatar ou não as sugestões.
No período da tarde, tivemos uma seqüência com o Milhem e o Jece. Os dois inimigos do Zé do Caixão se conhecem e começam a tramar o fim do funerário. Polícia e Igreja juntas, contra a mesma ameaça comum. Sem crer em qualquer coisa que não a matéria, e abominando o sistema social em que vivemos, Zé do Caixão tem mesmo é que atrair a ira destas instituições. E, neste caso, a vingança também é particular!
O Coronel Claudiomiro bem que desconfia do estranho padre, muito distante daquela figura que reza “...assim como perdoamos os que nos ofenderam”, mas, se interessa pela idéia de que o castigo ao inimigo possa ser estendido ao outro mundo.
Para nós da equipe, o inimigo não era o Zé do Caixão, mas, o tempo, bastante instável. Uma hora abre o Sol, outra começa a chover, o Diretor de Fotografia começa a ficar impaciente com a mudança de luminosidade, e o projeto inicial das cenas vai mudando conforme as necessidades. Para não comprometer a seqüência inteira, meu pai inventa uma cena com filmagem em 360 graus, não prevista. A câmera gira ao redor dos atores, enquanto o texto vai fluindo. O Sacramento e o Dennison não gostam da idéia. Eu acho interessante, apesar de ter pensado em algo como aquilo para o final da seqüência, não para o momento que meu pai escolheu. Zé Bob acha interessante, mas, teme pelo resultado, já que não tinha o equipamento ideal para filmar daquela forma. Mas, como já disse nesse mesmo texto, o Diretor é que manda, e nenhum de nós apresentou argumentos que o convencessem a fazer de outro jeito. E, algumas repetições depois, já que disso não abrimos mão, temos a nossa cena em 360 graus!
Para terminar a cena, detalhes de uma surpresa macabra que o Zé do Caixão manda para o Coronel. Que o leitor me desculpe, mas, para saber qual é, só assistindo ao filme. Posso adiantar, contudo, que o ódio que toda a corporação tem pelo homem das “unhas de navalha” explode de vez nessa hora.
Amanhã temos o último dia de filmagem da nossa primeira fase no dia. Depois, iremos para a noite, e voltaremos para o dia apenas no final. Para terminar essa fase, cenas simples, e uma expectativa de algumas horas livres. Afinal, 15 de novembro é feriado. Mas, como em uma filmagem para Cinema nada é certo, nunca é bom contar com facilidades extras, enquanto as dificuldades não previstas são uma certeza. Para o leitor, que nada tem a ver com isso, bom feriado. Depois nos encontramos.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
13 de novembro de 2006
Meu pai se gaba ao dizer que conhece todos os cemitérios da cidade de São Paulo como a palma da mão. Também, após 4 décadas filmando, dando entrevistas para jornais e gravando matérias para a TV nas necrópoles paulistanas, pode-se dizer que ele é um grande especialista. Mas, se for escolher dois ou três com os quais tem mais afinidade, não deixará de colocar em evidência o Cemitério da Vila Formosa.
O maior cemitério da América Latina, onde jazem mais de um milhão de corpos é, para ele, um set diferenciado. As opções são ilimitadas. Se a fotografia ajudar, então...
Desde ontem, torcíamos por um dia nublado. A cena, um enterro de duas crianças vítimas da violência, exigia muita tristeza. Meu pai garante ter sido o primeiro a filmar num dia nublado em “À Meia-Noite levarei sua Alma”. Fala que as equipes se negavam a filmar externas nestes dias, e, que só com muita pressão conseguiu a “colaboração” dos técnicos. (entre as técnicas de pressão ele conta que chegou a apontar um revólver cênico para componentes da equipe, já que não tinha mais dinheiro para pagar outras diárias, caso a filmagem fosse transferida de dia).
Ao menos no começo do dia, tivemos o clima que pedimos. Sem chuva, e com forte nebulosidade. Aproveitamos para agilizar as cenas do cortejo, com mais de 30 integrantes do Elenco de Apoio, o que fizemos após algumas repetições (nestas horas há sempre quem olha para a câmera, principalmente quando se trabalha com crianças).
Meu pai filmava preocupado com a última cena, em que Zé do Caixão dispara o seu maior discurso. É bom lembrar que o funerário, capaz das torturas mais atrozes com homens e mulheres, protege as crianças, por crê-las não integradas ainda ao sistema que despreza. Assim, a morte daqueles dois garotos o revolta a ponto de acusar toda a comunidade de omissão, facilitando que coisas como aquelas acontecessem. E, em cenas como essa, aparece a maldição do som direto.
No passado, lembro que, ao escrever um diálogo para ele, a primeira coisa que me pedia era para cortar ao meio, usando palavras mais simples, na maioria das vezes. Não gostava de longas falas, e, não queria gastar negativo extra. Eu fazia, meio a contragosto, e, algum tempo depois, chegava com o novo texto. Aí ele mudava tudo. Eu reclamava, mas, ele respondia. “-Não tem problema, na dublagem a gente conserta”. Pois é, neste filme não tem dublagem.
Em todo momento possível, eu lia o texto para ele. Mudava uma palavra ou outra, sempre com a concordância do Dennison, que escreveu o roteiro. Afinal, nada mais natural para um escritor do que respeitar a obra de outro escritor. As vezes discutia com meu pai. “-Ao invés de cadáveres, vou falar defuntos, é a mesma coisa.” “- Não, pai, o Dennison escreveu cadáveres porque o Zé tem certa cultura, defunto é vulgar”. A contragosto ele aceitava, mas, me advertia. “-Vamos perder negativo por causa de um cadáver”.
E chegou a hora. Todos nós torcemos os dedos. Ele se concentrou e foi. Incrível, as palavras e frases iam se sucedendo sem erros, as inflexões perfeitas, toda a intenção do discurso sendo passada. Um pequeno erro na última palavra, apenas, facilmente contornável com a montagem da cena em outros ângulos. “-Mojica, vamos repetir – disse o Sacramento”. “-Mas, o que saiu de errado?” “-Vamos repetir, quem sabe saia melhor”. Li a contrariedade no rosto de meu pai. Sabia que ele dificilmente faria sequer igual.
Não deu outra. Com erros nas primeiras partes, e inflexões que não me agradaram, acho que dificilmente aproveitaremos essas outras tentativas. A verdade é que a cena que tanto nos preocupara tinha saído de primeira. “-Tudo bem Mojica, conclui o Sacramento, fica a primeira. Vamos para os planos de cobertura.” Meu pai fez aquela expressão de “Eu já sabia”.
Dali por diante, foi tudo tranqüilo. Fomos ajudados pelo tempo, pois não choveu, apesar da saída do Sol dentre as nuvens nos fazer parar algumas vezes, para que não houvesse diferença na fotografia. Terminando no horário, lá vai a produção a desmontar nossas sepulturas cênicas. (pois, se é algo que não se permite numa filmagem como esta é desrespeitar, de qualquer forma possível, o terreno sagrado em que estamos).
Ás cinco da tarde, já nos concentrávamos em falar do dia seguinte, quando teríamos de filmar o primeiro encontro dos dois inimigos do Zé do Caixão neste filme. Um, como já dissemos em texto anterior é o terrível Coronel Claudiomiro, interpretado por Jece Valadão. O outro, o leitor só saberá quem é ao ler o diário de amanhã.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
12 de novembro de 2006
Hoje é dia de balanço! Afinal, o que fizemos nestes últimos cinco dias? Como medir, comparar? Para mim, o que vêm à mente são as condições diferenciadas que tenho presenciado, quando comparadas com aquelas dos filmes de meu pai do final da década de 70, já que não presenciei as filmagens das primeiras obras com Zé do Caixão.
Entre tantas, me chama a atenção a estrutura de produção relacionada ao elenco. São muitas pessoas com a função de contatar, testar, classificar e organizar os atores. Muito diferente do que era, quando meu pai convidava pessoalmente alguns atores, e a maioria vinha do seu próprio estúdio, alunos que faziam estágio em suas produções. Agora, há toda uma equipe responsável por esta tarefa.
Não há dúvida que é um sistema muito mais profissional, mas, também tem seus riscos. No caso, o de afastar o Diretor de um aspecto crucial da organização do filme, que é a escolha do elenco. Tudo dependerá de como essa equipe funcione. E, como em qualquer equipe, a visão do líder é fundamental para se estabelecer a direção do trabalho.
A líder de nossa equipe de elenco chama-se Alessandra Tosi, e a sua presença no grupo decisório do “Encarnação do Demônio” teve peso decisivo na definição de como José Mojica Marins iria participar do processo. Ela é irredutível neste aspecto. Nas suas palavras: “- Eu trabalho para o Diretor, não para o Produtor, assistentes ou qualquer outro”. Inclusive ela, já que a maior armadilha numa posição assim é querer fazer valer a sua opinião em detrimento da do Diretor. Mas, para Alessandra, isso não pode ocorrer. A responsabilidade é do Diretor. Ela não se nega a dar opinião, a tentar convencer, se for o caso, mas, a última palavra será sempre do Diretor. E, para garantir uma conversa na mesma linguagem, ela chegou a fazer uma das Oficinas de Cinema de José Mojica, afinando o contato com ele.
Alessandra, como muitos outros em posições importantes nesta produção, é jovem, tem 28 anos, mas, experiência de 40. Trabalhou em produções de ponta, como “Quero", da obra de Plínio Marcos, e “O Ano em que meus Pais saíram de Férias”. É uma interessante mistura de pessoa conceitual e prática. Está terminando Filosofia, após seu curso de Cinema, adora escrever, antevendo para si mesma uma carreira de roteirista, discute sobre tudo, mas, quando é para “por a mão na massa”, não é de ficar num processo de decisão interminável. Aponta alternativas e parte para a luta, imediatamente.
Lembro-me de um dia em que ela falava ao telefone e tentava convencer uma atriz a fazer o filme, apesar do cachê. Ela dizia: “- Você sabe, é um filme de baixo orçamento, mas, vale a pena trabalhar com o Mojica”. Ao término do telefonema, disse para ela, em tom sério: “- Alessandra, você não sabe o que é um filme de baixo orçamento”. “- Claro que sei, Cro – ela respondeu, ainda não entendendo minhas intenções”. “- Filme de baixo orçamento é o que meu pai fazia no passado, completei, em que os atores eram o câmera, os eletricistas e o pessoal da produção.”. Rimos juntos. É claro que este não é um filme de orçamento compatível com a proposta do produto final. Para um “diretor gastador”, como define meu pai, com esse orçamento dá para fazer uma das seqüências com efeitos especiais. Mas, está longe de se comparar às produções do passado, em que saíamos para filmar sabendo que não haveria interrupção para almoço, já que não havia dinheiro para almoçar!
O fato de ser versada em “assuntos filosóficos” com certeza ajudou na relação com meu pai, que adora “viajar” numa boa conversa. É por isso que ele já me confidenciou. “- A “Alexandra” me entende, ela sabe o que eu estou fazendo”. E a permissão para chama-la de Alexandra, ao invés de Alessandra é exclusiva dele, ela determina.
Valorizando o Cinema Nacional, ela diz que fica emocionada, ao trabalhar com pessoas que eram suas referências no período de estudante, como meu pai e Carlos Reinchembach (seu primeiro trabalho foi no filme “Garotas do ABC”). Mas, isso não a inibe, no que tange ao resultado do trabalho. Dos protagonistas ao Elenco de Apoio, dá para ver a sua mão. Gosto de brincar com ela, dizendo que, por ser uma Produtora de Elenco (ela não gosta da terminologia americana “Produtora de Casting”, por conta da palavra inglesa, enquanto temos equivalente brasileiro), contando com muitos assistentes, ela só fala com os “top de linha”, os protagonistas. Ela fica brava. “- Ô, Cro, eu falo com todo mundo, sou simples, não tenho estrelismo, e é o meu trabalho cuidar do ator principal ao figurante”.
É verdade. Alessandra não é falastrona, não é de chegar gritando e fazendo questão que todos percebam que ela entrou no ambiente (entre as pessoas de Produção que eu conheci no passado esse era o tipo mais comum). Mas, com cada um, do Produtor ao varredor, do ator global ao iniciante que aparecerá “de raspão”, ela age da mesma forma. Exceto com o Diretor, ao qual ela reserva um abraço especial. Mas, não é discriminação, acho que é paixão!
E amanhã, leitor, temos filmagem. E, nesta produção, será a primeira vez que Mojica filmará no ambiente que mais conhece: o de um cemitério. Para saber onde, e sobre o quê se trata a cena, conversamos amanhã!
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
11 de novembro de 2006
Os detalhes iam sendo filmados, um a um, sem a necessidade de meu pai entrar naquela água sangüínea. Meu pai estava tenso, pois, o detalhe do rosto afundando era fundamental para a beleza e credibilidade da cena. O problema é que o dia de filmagem seria longo, com duas outras cenas a serem gravadas, uma delas razoavelmente complicada.
Na sua mente deveria passar a conversa tida com o Sacramento no dia anterior. Ele dissera: “- Mojica, eu fico uns dois minutos e meio debaixo d´água, você deve ficar uns trinta segundos”. “O que? – meu pai respondera – eu acho que não fico três!” E era verdade. Meu pai tem fobia de ver-se mergulhado, ainda mais numa água como aquela. Deve ser trauma de infância, mas, que eu me lembre, nunca vi meu pai mergulhar, quer seja no mar ou em piscinas. Ao entrar na água, principalmente quando estávamos em alguma praia, dava poucos passos, procurando proteger as unhas.
Quando finalmente chegou a hora, alguém lembrou: “- E, se o Mojica gripar com esta água gelada?. “- Se o Mojica gripar, o filme acaba, responderam.”
Então, a decisão mais sábia foi tomada, que foi a de deixar aquele detalhe para o final, já que no plano o cenário nem precisaria estar montado. Uma sensação de alívio tomou conta de todos, e fomos todos para a locação do dia.
As cenas seriam filmadas em escritórios do SENAI, e envolviam Jece Valadão, ou melhor, o Coronel Claudiomiro, extremamente convincente no seu uniforme da Polícia Militar. A primeira cena fluiu facilmente. Texto em ordem, iluminação e som ligeiros, todos os planos e coberturas já na cabeça do diretor, que só ia mudando a posição da câmera. E depois, todos ao almoço, pois a tarde prometia...
“Em mulher não se bate nem com uma flor”, diz a frase que virou clichê. Mas, para um homem violento, como Claudiomiro, o bom mesmo é aplicar uma surra de cacetete. E chamar a tropa, para ajudar! Coitada da Cristina Ache, que interpreta a advogada Lucy, mulher do militar!
Seqüência difícil, já que a realidade é necessária, mas, o ator não pode sair machucado. A textura e o peso dos cacetetes cênicos é importante, neste caso. Nem muito leve, a ponto de vergar no ar ou no corpo do ator, nem pesado, que possa machucar. Experimentei a pancada. Ardia!
Graças à interpretação da Cristina e à experiência do Jece, as repetições foram poucas. Terminamos no tempo programado, no que foi o dia mais ritmado até agora.
Depois, fomos ver o resultado das filmagens da semana. Curiosos, queríamos confirmar a impressão que vínhamos tendo durante as filmagens. Não deu outra. As cenas estão fantásticas, especialmente as mais esperadas, as do Purgatório, com fotografia magistral e arte absolutamente surreal. Encantado, meu pai dispara. “- Cássio, você nasceu para o Zé Bob, e o Zé Bob nasceu para você”. Como já foi dito, Cássio Amarante é o nosso Diretor de Arte, e o Zé Bob o Diretor de Fotografia. Foi a frase do dia.
Terminada a exibição, fui cuidar de outros afazeres, e deixei a equipe pensando na raridade daquele dia tranqüilo em uma produção do meu pai. Mas, foi só eu sair que meu pensamento mostrou-se um grande erro. Nilce, a nossa continuísta, e ex-esposa de meu pai, recebe um telefonema de sua filha, minha irmã, dizendo que o marido havia perdido o filho quando estava num mercado, junto com outra criança, seu sobrinho. Ouvindo sobre o neto, Nilce quase desmaia, acompanhada de meu pai, que sente sua pressão subindo perigosamente.
Com os carros da produção dispensados, só restava chamar um táxi. Mas, nosso platô, o Magu, rapidamente põe todos no seu carro e ruma rapidamente para o local do incidente, a movimentada Av. Rio Branco, aqui em São Paulo.
Foi só depois de tudo resolvido, com o meu sobrinho Eduardo tendo sido achado por um casal de motociclistas, e entregue na multidão formada na avenida aos braços dos pais, é que meu pai pôde tomar consciência da atitude desprendida de Magu, que deixara seus afazeres, com o dia de trabalho terminando, para acudir meu pai e a Nilce. E, logo o Magu, contaria depois meu pai, que, graças a seu trabalho como platô grangeara uma certa antipatia por parte dele.
Depois do ocorrido, meu pai quis saber o que fazia, exatamente, um platô, termo desconhecido para ele (e para mim também, até essa filmagem). Ao leitor curioso, fica a garantia que ainda vou falar disso, e do próprio Magu, que eu conhecia de outros trabalhos. No momento, é hora de encerrar. Amanhã é o primeiro dia de folga da equipe, e quero aproveitar um pouco com a família. Mas, vai ter diário, contando sobre uma pessoa da equipe que se tornou especial para o meu pai. Quem? Tem que esperar para saber.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
10 de novembro de 2006
Ao perguntar onde está, Zé do Caixão ouve do Mistificador: “-Entre a mentira e a verdade”. Não é de forma diferente que me senti naquela caverna artisticamente concebida por nosso Diretor de Arte, Cássio Amarante. Mas, o que era aquilo? Difícil de definir. Sinto apenas que se o cinema americano fosse construir um cenário como aquele, gastaria todo o orçamento do filme.
Hoje rodamos a continuação do Purgatório, não mais no areal, mas, em uma caverna cenográfica. Não mais com sessenta atores do Núcleo de Apoio, mas, apenas com o Zé Celso e o meu pai. Dois Zés com muita história para contar.
Eu pensava no Zé Celso como uma pessoa difícil para se trabalhar, uma estrela esquisitona, como um Michael Jackson envelhecido. São os mitos do meio artístico. Muita gente tem medo dele. Bem, dizer que ele é normal seria até uma ofensa. Mas, daquela figura neurótica que eu esperava, nem sombra. Extremamente gentil, não cansava de agradecer a cada cuidado que alguém da equipe reservava a ele. Era carinhoso, na medida do carinho que recebia. Diretor, assistente, costureira, não diferenciava ninguém. Concluo que os mais vividos são os mais simples, as estrelas intragáveis são as mais novas, as meteóricas que, a não ser que mudem a tempo, cairão mais rapidamente do que subiram!
Pelas fotografias tiradas hoje, imagino como estarão as imagens na tela. Se existisse justiça na Academia Americana de Cinema, e pudéssemos disputar pau-a-pau em todas as categorias, já poderíamos nos candidatar em algumas delas. Mas, se não der em Hollywood, que seja em Gramado!
Com dois atores apenas, e cenários tão bem construídos, tudo fazia pensar que terminaríamos antes do horário. Mas, havíamos esquecido da “traquitana”...
Fazia tempo que eu não ouvia essa palavra. Fui ao dicionário (Houaiss) e encontrei-a significando um tipo de carroça, ou um carro velho, mal conservado. Não, não era nesse sentido que eu lembrava já ter usado a palavra, o mesmo sentido que cabia na ocasião de hoje. Por isso, dicionaristas, da próxima vez que compilarem os significados desta palavra, não se esqueçam deste: “traquitana: máquina ou arranjo mecânico complexo, de função desconhecida; geringonça”. E, após a filmagem na “Caverna Amarante”, com todas as suas estranhezas, fomos parados pela “traquitana”.
Zé do Caixão, na cena, surge de um lago de sangue. Para realiza-la, foi imaginada uma plataforma que o traz de um poço cheio com água tingida por corante para ração animal. E, para dar estabilidade à plataforma, um conjunto de canos, correntes e polias, a “traquitana” mencionada.
E para estabilizar a danada? Precisávamos de um movimento contínuo, sem solavancos. A plataforma balançava, mesmo com técnicos com mais equilíbrio que meu pai, que sequer de bicicleta consegue andar. E, se é algo a que ele não estava disposto era mergulhar numa água “batizada” com corante para depois não aproveitar a cena.
Por mais que a equipe tentava, o resultado não estava bom. Chegou um momento que entendeu-se ser melhor não insistir. A imersão do Zé do Caixão seria deixada para depois. Naquele momento, o melhor a fazer era filmar todos os detalhes com o Zé Celso, que não teria mais datas disponíveis até o término do filme. Aliás, esse tinha sido o motivo pelo qual a filmagem do Purgatório tinha sido trazida para o início dos trabalhos.
Ao terminarmos essas cenas, começou a tarefa de desprodução, ou seja, o desmonte de materiais cênicos e de equipamentos. Procurei o Sacramento e disse para ele que precisávamos, com urgência, definir quando continuar aquela cena interrompida. Percebendo que a melhor data seria amanhã, com toda a “traquitana” ainda montada, junto com o equipamento de luz, ele deu ordens para que o cenário não fosse mexido. Amanhã, como temos programadas duas cenas não tão complexas, podemos aproveitar as primeiras horas da manhã para terminarmos os detalhes de hoje, inclusive a imersão do Zé do Caixão.
Meu pai não gostou muito. A idéia de mergulhar em água gelada, com corante vermelho, e ainda ter que prender a respiração por um tempo submerso nela, em nada o agrada. Ele nunca foi um bom mergulhador (nem mergulhador de qualquer categoria). Mas, para sabermos como José Mojica Marins se dará como mergulhador aos 70 anos, sem sequer saber nadar, temos que esperar o dia de amanhã.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
09 de novembro de 2006
Em muitos aspectos, a seqüência de hoje era considerada a mais difícil de ser realizada, pela quantidade de detalhes, número de pessoas envolvidas em condições extremadas e por ser uma referência para todo o filme. Pudera! Após a seqüência da ida de Zé do Caixão para o Inferno, em “ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER”, a curiosidade natural por conhecer o Purgatório na visão de José Mojica Marins é muito grande. Assim, uma parcela substancial do orçamento do filme foi reservada para esta seqüência, a ser filmada em dois dias. O primeiro, que foi hoje, de longe é o mais difícil, para começar por conta da locação escolhida.
Desde às 5:30h da manhã a equipe foi tomando conta do lugar. Nós, da Direção central, chegamos antes das 8:00h. A sensação foi de estar no centro de lugar nenhum, como se fôssemos tele-transportados para outro planeta, ou, ao menos para algum ponto distante, inóspito e desabitado. Somente alguns caminhões que passavam transportando areia, e a vegetação a alguns quilômetros não nos deixava esquecer que estávamos na Terra. Mesmo assim, bem poderia ser um sonho... ou pesadelo.
Meu pai conta que, após o lançamento do “Esta noite...”, vieram dizer que seu Inferno lembrava o de Dante. Ofendido, disse que jamais assistira a um filme desse tal de Dante. Ao saber que se tratava de Dante Alighieri, que escreveu a Divina Comédia no início do século XIV, só garantiu que nunca havia lido a obra, que sua concepção fora original. Mas, durante todo esse tempo, precisou responder perguntas sobre a comparação entre o seu inferno e o do escritor florentino. Assim, ao definir o atual roteiro junto com Dennison Ramalho, quis garantir que as semelhanças entre a concepção clássica e essa releitura fossem mínimas, quase reminiscências, já que ambas precisam ser ancoradas na visão cristã, basicamente a visão católica, atacada por Zé do Caixão desde o primeiro filme.
Na “Divina Comédia”, Dante é conduzido pelo poeta Virgílio. No nosso Purgatório, Zé do Caixão, mais confundido do que esclarecido, divide a cena com um personagem que deverá ter seu lugar garantido na galeria de personagens de filmes de Horror: O Mistificador. Interpretado pelo monstro do teatro brasileiro José Celso Martinez Correa, foi impossível dizer se sua imagem assemelha-se mais a um xamã de filmes como “Conan, o Bárbaro” ou a um líder futurista de uma época em que a Terra teria sido vítima de um cataclismo nuclear. (graças ao vestuário criado pela equipe de David, o figurinista do filme, que caiu como uma luva na excêntrica figura de Zé Celso”.
Após conhecer nosso purgatório, muita gente rezará para ir direto ao Inferno, quando morrer. Haja purificação...
Aos poucos, o lugar ia se tornando insólito, com levas e levas de atores maquiados com feridas, mutilações, pelados e sujos caminhando por todos os lados. No elenco de apoio, muitas pessoas do grupo de Zé Celso, no Teatro Oficina, e do grupo Satyros, garantindo a excelência daquela performance. O problema era o tempo, pois, diferente de um Purgatório real, onde o tempo deve ser relativo, no nosso caso ainda estávamos comandados pelo Sol, e, pior, pelo relógio da equipe técnica, que tinha seu horário para parar.
Na parte da manhã o atraso fora grande, com o trabalho de produção e maquiagem de Zé do Caixão e do Mistificador, e a marcação da cena dos dois, longa, recheada de diálogos importantes para a conceitualização da seqüência. Sob o Sol quente, sobre a areia fervente, os dois suavam. Principalmente meu pai, vestido com aquela roupa preta que absorvia muito calor. A cada erro, a cena era repetida. A filmagem sob vários ângulos garantia que aquele insólito cenário fosse aproveitado ao máximo, mas, consumia avidamente os minutos, que se tornavam horas.
Quando nos demos pelo tempo, tínhamos um terço do tempo e ainda precisávamos filmar todas as torturas reservadas aos purificandos (deveria ser assim que aqueles que vão ao Purgatório sejam chamados). Perder aquelas imagens seria um crime, pois, não poderíamos voltar lá com todas aquelas pessoas. E ainda tinha o sacrifício a que tinham sido submetidas, algumas amarradas por horas, cegadas pelas “tempestades” de areia, sedentas pelo calor, arranhadas e feridas pelas quedas na areia durante os ensaios. Aquilo não poderia ter sido em vão.
Foi aí que apareceu o lendário diretor José Mojica Marins, conhecido pela capacidade de filmar muitas cenas num tempo reduzido, tendo junto de si a equipe certa. Livre dos difíceis diálogos do Zé do Caixão e do Mistificador, já filmados, pôde dedicar-se integralmente à tarefa de direção. E, tendo à disposição um inspiradíssimo Diretor de Fotografia, José Roberto Eliezer, o Zé Bob, partiu para o desafio. A equipe toda sentiu aquela força dos dois, e, solidária, foi “para o pau”. Independente da função de cada um, o que era necessário para a cena era rapidamente providenciado. Presenciei até uma atriz sendo levada no colo por um integrante da equipe técnica, para não machucar os pés descalços.
“Pega desse ângulo”, “Joga mais areia ali”, “Muda o foco, troca a lente”, “Detalha aquele ali, todo ensangüentado”. Os comandos eram dados, a análise da fotografia feita em questão de segundos, cena após cena os metros de negativo iam sendo consumidos.
Mesmo assim, seria impossível terminar no prazo das 16:30h. A equipe, sentindo que estava em jogo muito mais que direitos trabalhistas, concorda em filmar por mais algum tempo, além do horário. Naquele momento, todos estavam cansados, é verdade, mas, vibrantes porque viam os resultados.
Pouco depois das 17h, terminamos. O dia de filmagem havia chegado ao final. Havíamos tido momentos de tensão, algumas discussões, mas, como se diz, “colocamos o filme na lata”. Éramos “Os 70 de Itaquá”, disse Dennison Ramalho, numa alusão ao filme “Os 300 de Esparta”. Com os atores, passávamos de 120, com certeza. Tínhamos vencido.
O Purgatório, no entanto, não chegara ao seu final. No outro dia, em outra locação, a maratona continuaria. Amanhã, então, esperem por mais bizarrias do insólito mundo de Zé do Caixão.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
08 de novembro de 2006
Para compensar a difícil cena escolhida para o primeiro dia de filmagem, tínhamos para hoje uma expectativa diferente, com cenas mais tranqüilas. O produtor pensava, inclusive, na possibilidade de aproveitar a tarde para adiantar cenas programadas para outros dias. Meu pai achava que a última cena poderia dar algum trabalho, pois, exigia um efeito especial, incluindo até o uso de um dublê para ele. Nós, da equipe, bem que esperávamos umas duas horas a menos de trabalho, para nos prepararmos melhor para amanhã, que terá uma programação complicada. Estávamos todos enganados.
A locação foi o Presídio Feminino de Santana e isso fez toda a diferença. Ontem, tivemos o prédio do velho Presídio da Rua do Hipódromo só para nós. Hoje, dividimos o espaço com centenas de outras pessoas, funcionários e parentes das detentas, visto que foi o dia de levar pertences para elas (alimentos, material de limpeza, higiene e outros itens). Foi um exercício de paciência para ambos os lados.
O maior inconveniente de trabalhar com som direto, sem o artifício da dublagem é a dependência que se tem do som ambiente em externas. Veículos, conversar paralelas das pessoas que param para assistir, curiosas, e celulares, os modernos vilões do sossego alheio, podem inviabilizar uma cena perfeita, com detalhes técnicos e artísticos irrepetíveis. Lembro-me que na década de setenta poucos usavam som direto, a qualidade sonora, ficava sofrível. Hoje, com o desenvolvimento da tecnologia de captação, e mesmo de reprodução nas salas de cinema, ocorre o contrário. Afinal, quem não sente uma certa estranheza ao assistir um filme brasileiro do passado a perceber falta de sincronismo entre imagem e som, vozes diferentes de atores conhecidos, entre outros problemas originados pela dublagem da língua pátria?
Neste filme, o som direto é fundamental, para captar emoções que, dificilmente poderiam ser reproduzidas num estúdio de dublagem. Portanto, paciência, vale tudo pela qualidade. E as cenas, fáceis em teoria, foram se arrastando por horas a fio, atrasadas pela entrada e saída de veículos, pessoas, e até por um cachorro que, virava e mexia, aparecia frente à câmera numa insistente tentativa canina de alcançar a fama de Rim-Tim-Tim ou Lassie.
Para nós, valia a espera, para desfrutar da excelência da interpretação da Cristina Ache, do Rui Rezende e do Jece Valadão. Isso sem contar o Zé do Caixão, é claro.
Um momento de emoção nos tocou de forma especial. Foi a cena do encontro do fiel corcunda Bruno com o seu patrão, quarenta anos depois. A forma como Rui Rezende encarnou o personagem, numa euforia contida ao lado de seu adorado mestre, do qual estivera separado tanto tempo, foi indescritível. Basta dizer que o produtor Paulo Sacramento, ao cumprimenta-lo no final da cena, segurava o choro para não parecer excessivamente emocional (produtores emotivos sempre correrão mais riscos de receberem pedidos de revisão contratual).
Mais um ponto para a equipe técnica, ao filmar as cenas finais, com efeitos especiais e enquadramentos difíceis, num tempo menor do que alguns de nós achávamos que iria acontecer. E parabéns ao Kapel, nosso chefe de efeitos especiais, ao garantir que o dublê Marcelo, bom amigo de meu pai, saísse ileso da cena, tecnicamente perfeita.
Ao final do dia, apesar de não termos as tão esperadas horas de descanso, nem adiantamento de filmagens programadas para outros dias, um encerramento tranqüilo nos lembrou que amanhã dificilmente teremos tanto sossego. Não é para menos, já que teremos o dia mais difícil de toda a programação, ao menos na teoria. É a filmagem do Purgatório, com as mais complexas cenas do roteiro, dezenas de atores do núcleo de apoio em condições de sofrimentos físicos extremas, efeitos especiais em externas, num lugar longe de tudo... É, será difícil, se não impossível cumprirmos toda a programação amanhã. E você, leitor, terá que aguardar para saber o que houve.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
07 de novembro de 2006
Começou!
Toda a ansiedade acumulada nestes meses esvaiu-se num antológico primeiro dia de filmagem. De hoje até o final das filmagens, ao menos trinta e cinco dias de trabalho, em mais de 400 horas de uma verdadeira maratona cinematográfica.
E não foi um dia fácil. Nada de cenas tranqüilas para aquecimento e entrosamento da equipe. A primeira cena rodada foi um plano-seqüência (longa cena, sem cortes) dos mais complexos, envolvendo caminhos tortuosos por meio dos estreitos corredores de um presídio, hoje desativado, que voltou à função através da presença de dezenas de atores interpretando presos e carcereiros.
O protagonista da cena, o brilhante Luís Melo (conhecido do grande público como o antipático Bento Manoel de “A Casa das sete mulheres” e o revoltante Coronel Licurgo, de “JK”), teve que suar (e suou muito!) para coordenar longos textos a marcações extremamente precisas, como exigia a cena.
Uma cena de mais de 3 minutos, com câmera na mão, acompanhando o inconformado diretor do presídio dirigir-se até a cela onde estava trancafiado Zé do Caixão, para conceder-lhe (de muito mau grado) a liberdade.
Nos ensaios, as dificuldades para coordenar movimentos, texto, equipamentos, num “timing” exato. Na primeira tentativa, a aparente perfeição, até que, faltando menos de um quarto da cena, a bateria da câmera arriou! Mas, alguém sequer sugeriu dividir a cena em duas partes? Não! Esta cena tinha que ser a guia para todas as outras. Nada de ceder à tentação para o mais fácil!
Como não poderia deixar de ser, as tentativas seguintes não foram tão boas. É a tal da Lei de Murphy (se algo tem que dar errado, dará). Mas, Murphy é exorcizável pela persistência, e, ao final de mais de quatro horas entre preparação e tentativas imperfeitas, a cena saiu.
A partir daí, cenas mais simples foram sucessivamente rodadas. Com a agenda lotada, o Luís só tinha disponível um dia de filmagem. E conseguimos! Pena que seu papel seja tão restrito, e, não avance para fora do presídio. Nos intervalos pudemos conversar bastante, e tive a grata surpresa de saber que ele conheceu minha mãe, numa época em que ela trabalhava com o Antunes Filho. Quando minha irmã Mariliz ( a intérprete da Lizvamp) chegou no set para dividir a emoção deste primeiro dia conosco, o Luiz lembrou de conhece-la, ainda bem jovem, acompanhando minha mãe. É “clichê”, mas, esta coisa do “mundo pequeno” vale mesmo!
Nas cenas de hoje, já pudemos sentir como se dará a “química” com a equipe. Lembro que no passado a equipe do meu pai era minúscula, poucos executores e algumas cabeças bem criativas. Neste filme, um batalhão de executores e, grata surpresa, um número impressionante de pessoas criativas, que se utilizam do planejamento como uma ferramenta de apoio, e não como uma prisão para a inventividade. Bons presságios!
E o José Mojica, deve estar perguntando o leitor? Como é que ele esteve? Bem, para ele foi, realmente, um aquecimento. Afinal, o Zé do Caixão pouco apareceu, e as cenas gravadas proporcionaram mais problemas para o Diretor de Fotografia do que para o Diretor Geral. O duro foi voltar a trabalhar com as unhas todas compridas, já que ao longo dos anos ele teve que corta-las para que os dedos não atrofiassem. É como se um pianista ficasse uns 10 anos sem tocar e precisasse, de repente, dar um concerto.
Amanhã, depois do reencontro com as unhas, é a vez do Zé do Caixão se reencontrar com o corcunda, seu fiel seguidor. Quem irá interpreta-lo agora? Isso eu conto amanhã.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
06 de novembro de 2006
Há pessoas que trabalham melhor sob pressão. Outras, travam completamente. Meu pai pertence, seguramente, ao primeiro grupo. Nunca encontrei alguém que, nos momentos mais extremados, produzisse com tanto acerto. As soluções mais criativas, as mais revolucionárias, surgem na última hora.
É difícil saber se isso é uma qualidade ou um defeito. Por um lado, todo e qualquer planejamento que o envolva está fadado ao fracasso, a não ser que conte com um grau de flexibilidade bastante acentuado. Ele mesmo, quando planeja, é um desastre, proporcionalmente maior quanto mais distante no tempo está o ato de planejar da ação.
Neste filme, as pessoas estão sobre-avisadas. Os técnicos sabem que ele pode mudar muita coisa, até os produtores sabem disso, e só pedem alguns cuidados. Meu pai ri e diz “_ Calma, eu vou mudar para melhor, nunca mudaria algo para pior.” E a equipe responde: “- O filme é teu Mojica. Quais são as mudanças?”. “- E eu sei lá! – ele completa – No dia eu descubro, mas, vai ser para melhor.”
Às vezes eu acho que ele brinca com todo mundo, que sabe o que vai fazer, mas, prefere esconder até o final. Outras vezes acho que não, que só a urgência é capaz de excitar a parte de sua mente que o faz transcender aos outros.
Como disse ontem, ele me chamou para discutir o primeiro dia de filmagem. Tinha lido os diálogos, mas, sentia que precisava mudar. “- Mas, pai, eu disse, o roteiro está na oitava versão. O senhor leu este diálogo inúmeras vezes, ensaiou com o preparador de atores, e só agora, a dois dias do início quer mudar?” E ele fala na maior naturalidade: “-Mas, filho, agora nós vamos filmar!”
Num dos casos que ele conta de um passado antes mesmo do Zé do Caixão, ele tinha que descer da torre de uma igreja, por uma corda, sem proteção. Ele tem medo de altura, paúra de avião, e não foi diferente no passado. Ele disse ao operador da câmera: “- Liga a câmara quando eu estiver lá em cima” O câmera retrucou: “- Mojica, temos pouco negativo”. “-Eu sei, por isso quando eu souber que você ligou a câmera eu desço.” E foi o que aconteceu, a cena foi feita na primeira tentativa!
Os dotes físicos e mentais dele ficam multiplicados nos momentos mais difíceis. É por isso que, a poucas horas do início das filmagens, enquanto todos vão ficando mais nervosos, ele relaxa e até sorri sozinho. Chega de treino, ele deve pensar, o jogo vai começar!
Amanhã será o dia, caro leitor. Às seis da manhã a equipe se reúne (seis da manhã, no horário de verão, é sacanagem, Sacramento!) e, vamos todos ao set. Torça por nós!
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
05 de novembro de 2006
Trabalhar neste filme é fazer história. É tornar-se História, com “aga maiúsculo”! Décadas à frente, quando Zé do Caixão for lembrado, será esse o fecho da trilogia mais longa da cinematografia mundial. Somado a tudo isso, o respeito que possui José Mojica Marins, mais o seu carisma pessoal, motivou milhares de pessoas a procurar uma forma de participar do projeto.
O administrador do nosso site, por exemplo, nos passava centenas de emails manifestando essa vontade. Após cada entrevista que dava, indicando as empresas que faziam a seleção dos atores, choviam telefonemas e emails com currículos e fotos. Isso sem contar os inúmeros indicados, tanto por nós como por pessoas da produção, todas muito relacionadas no meio.
Ao menos 50 personagens tinham que ser escolhidos a dedo, por características artísticas, físicas e, pela disposição em se entregar ao projeto. Eram muitos testes, e os candidatos precisavam passar por fases bem diferenciadas.
Neste processo, poucos deixaram de passar pelas mãos de Arnaldo Faria, nosso assistente de “casting”. Guardadas as devidas proporções, ele foi,na prática, uma das pessoas mais poderosas do projeto, já que, sem impressiona-lo positivamente, muitos sequer poderiam chegar para a avaliação de José Mojica e de seu corpo de assistência de direção, incluindo eu.
Foi muita responsabilidade, mas, esteve em boas mãos. Arnaldo é um jovem cineasta, com apenas 27 anos, mas, com currículo muito positivo em pouco tempo de profissão, com trabalhos feitos para “Carandiru” e “O Ano em que meus pais saíram de férias”. Simpático, extremamente atencioso, apesar das feições que lembram representações de Jesus Cristo, nem por isso deixa de ter uma navalha cênica precisa ao cortar quem não preenche os requisitos necessários.
Quando o conheci, ele testava belíssimas mulheres em trajes sumários, para cenas em que estas eram agarradas ou seduzidas por Zé do Caixão ou seu fiel seguidor Bruno, o corcunda de “Esta noite encarnarei no teu cadáver”. Junto com o produtor Paulo Sacramento, perguntei quanto o Arnaldo pagava para trabalhar, já que eu tinha uns amigos que podiam, quem sabe, pagar mais por aquele “árduo ofício”. Todos rimos!
Alguns dias depois, a outra face da moeda. Arnaldo testava pessoas que deveriam bater e torturar outras. E, adivinhem quem era o torturado e espancado! É claro, era o Arnaldo! As cenas eram tão violentas que eu pensei em fazer uma espécie de continuação de “Paixão de Cristo” do Mel Gibson só utilizando esses testes. Quase quebraram o seu braço (uma mesa foi quebrada num teste), dois socos no estômago o puseram fora de combate (num teste com o Rodrigo, do Dead Fish), alguns pequenos hematomas...pois é, nem tudo foram rosas para Arnaldo Faria!
Tarado? Masoquista? Nada disso, só mais um profissional dessa equipe de bambas que não aceita errar. Nem ator ele diz ser. Discordo, já que vi testes bem convincentes. Para ele, é um desafio que precisa ser aceito com toda a disposição. A seleção, neste caso, não é simples. As pessoas precisam entender que tudo será real. Nudez, violência, contato com “bichos asquerosos”, tudo tem que ser muito bem explicado. Por isso, alguns testes nem terminaram. E os candidatos, vendo tal entrega de alguém como o Arnaldo, percebem que a coisa é séria, muito séria!
Reclamações? Nem pensar...bem, um seguro contra acidentes não seria mal, no caso dele! Mas, para ele o pior (e o melhor) já passou, com o elenco entregue para outras mãos.
Ei, hoje é domingo! Dia de descansar! Não, nem pensar. A dois dias do início da filmagem, a ansiedade é muito grande. Tanto que meu pai me ligou para que eu fosse à casa dele, discutir sobre as possibilidades para o primeiro dia de Luz! Câmera! Ação! Sobre o efeito da subida do nível de adrenalina nele nestes últimos dias eu falo amanhã.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
04 de novembro de 2006
Num projeto como esse, não há sábados, domingos ou feriados. O descanso nunca atinge a todos de uma vez. O filme caminha muito antes de ser rodada a primeira cena. A formação da equipe técnica é muito anterior à escolha dos atores, já que muitos problemas precisam de solução para que se possa programar a filmagem.
De posse do roteiro, paralelamente às preocupações sobre quem encarnará os personagens, estão aquelas sobre as locações, a construção de cenários, o figurino, os efeitos especiais (e haja efeitos especiais num filme de José Mojica Marins!), e outras peças neste verdadeiro quebra-cabeça.
Alguns testes técnicos começaram há mais de um mês. Se é algo que enche de orgulho meu pai é ter feito muita coisa pioneira na cinematografia deste país. Para isso, além de idéias e coragem, nunca prescindiu da competência técnica em vários setores. Afinal, uma coisa é pensar, outra é executar. Hoje, com o computador, muita coisa impensável passou a ser plenamente possível. Se não, como justificar que apenas há pouco tempo foi levado às telas “O Senhor dos Anéis”? O universo de magia de Tolkien teve que esperar o avanço da tecnologia para ganhar vida. Se meu pai concorda com isso...? É claro que não!
Lembrando a antológica cena das aranhas de “Esta noite encarnarei no teu cadáver”, ele desafia qualquer um a produzir, com o computador, cena tão realista. Aranhas mecânicas? Talvez. Alguns milhões de dólares podem bastar! É certo, muitos atores já morreram durante as filmagens dele, mas, nunca de picadas de aranhas, cobras ou outros acidentes cenográficos. Nenhuma história como a de Brandon Lee, alvejado por tiros de verdade durante as filmagens de “O Corvo”. Acidente de automóvel, tuberculose e até congestão foram “causa mortis” para os seus atores. Sempre nos dias, ou horas, de folga!
O principal motivo para essa segurança nas cenas mais ousadas que ele já imaginou sempre foi a qualidade e o cuidado da equipe técnica. Se existe um risco, primeiro um técnico o experimenta, depois o ator. Foi por isso que, há poucos dias, meu pai, com certa aflição, deixava que caranguejeiras passeassem pelo seu braço, mostrando para uma das atrizes que não havia risco!
Mas, e isso pode acontecer, os técnicos sofrem os verdadeiros riscos! Ontem mesmo, quase perdemos nosso Diretor de Arte. Visitando uma locação, num enorme areal, para uma cena em que qualquer americano pensaria em fazer por computador, ele afundou em areia movediça. Ficou atolado até o peito e, teve que ser resgatado com uma corda. Se fosse um homem pequeno, e caminhasse por lá sem testemunhas, seu destino poderia ter sido trágico. Com a área isolada, agora não há mais risco para os atores.
Alguns são heróis, outros gênios, há quem seja os dois. Nesta equipe o conformismo e a acomodação passam longe. Pelo melhor do filme vale arriscar a própria pele. Amanhã darei mais um exemplo do que passa esse intrépido grupo.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
03 de novembro de 2006
Hoje temos mais um dia de ensaio. Tenho acompanhado esta rotina como quem reaprende andar de bicicleta. Não é tão difícil, mas, é sempre bom lembrar que alguns truques precisam ser deixados para mais tarde. Ainda mais quando se aprende numa bicicleta simples e, depois de anos sem prática, temos à disposição uma de 18 marchas, liga leve, e outras modernidades.
Desde criança, fui criado numa dicotomia artística. Meu pai, defendendo a supremacia do cinema, minha mãe apaixonada pelo teatro. Trabalhei primeiro com a grega arte, ainda aos nove anos de idade. Por volta da mesma época, meu pai me levou para fazer um papel num filme bem apropriado para a minha idade: “O Fracasso de um Homem nas duas noites de núpcias”. Naquela época, ele às vezes dirigia uma comédia picante (belo eufemismo para pornochanchada, não?) de forma a ganhar dinheiro e a simpatia dos produtores para os filmes que realmente queria fazer. Usava o pseudônimo de J. Avelar. Foi uma experiência breve.
Depois disso, foram longos anos fazendo com teatro infantil até voltar a trabalhar com a sétima arte, em 1977, num filme em que meu pai usou uma de suas fórmulas mágicas para fazer cinema: ele daria um filme para seus técnicos, e estes trabalhariam de graça em outro filme para ele. Eu entrei como sócio, no primeiro, e como seu assistente e continuísta.
Meu pai não gostava de ensaiar (alias, não gosta até hoje), e seus filmes, aos menos os do final da década de 70 tinham muitos improvisos. Eu escrevia diálogos, que nunca eram ditos da mesma forma. Ele dizia que ensaiar e se prender a diálogos era coisa de teatro. Cinema era imagem, a imagem dizia tudo. Sempre concordei com ele em relação à primazia da imagem no cinema, mas, o que o ensaio tem a ver com isso?
Neste filme, há um preparador de atores, que exercita e ensaia o elenco um mês antes das filmagens. Não é o diretor, nem mesmo um de seus assistentes diretos. É um “expert” em interpretação e tem um trabalho diretamente proporcional à inexperiência dos atores. Neófitos ensaiam mais, veteranos menos. Mas, todos ensaiam.
À primeira vista, isso dá segurança aos atores. Também permite que haja uma equalização do elenco, já que muitos vêm do teatro, outros da televisão, alguns são iniciantes, enfim, origens diferentes para um destino semelhante: as telas (ou telões, como frisa meu pai, quando compara o cinema com a televisão, ou “telinha”, como jocosamente diz).
Já que o início das filmagens foi adiado para o dia 7, terça-feira, por conta da disponibilidade de uma locação, teremos mais alguns dias de preparação. Mais ensaios, para amenizar a ansiedade, afinar os detalhes artísticos finais.
Enquanto os atores ensaiam, a equipe técnica, qual grupo de formigas obreiras, constroem, incansavelmente, a infra-estrutura para que os atores possam ter o seu potencial multiplicado. Sobre isso, falo amanhã.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
02 de novembro de 2006
Ontem, no início da noite, houve uma reunião geral, envolvendo técnicos e atores do elenco central. Foi uma reunião de consolidação de tudo o que foi construído nestes dois meses, afinando o foco para o período de filmagem que, todos sabemos, será tão excitante quanto desgastante.
Assim, nada melhor do que uma sessão de motivação com José Mojica, o centro deste projeto. Trabalhando justamente como professor de assuntos como motivação e liderança, é difícil para mim, num momento desses, não pensar em todo o conhecimento adquirido em livros, e correlaciona-los com o que estou vendo (e, principalmente, com a reação das pessoas envolvidas).
Costumo dizer aos meus alunos que a melhor forma de reconhecer um líder é procurar por seus liderados. E é por isso que procurei, ontem.
Enquanto meu pai comentava cenas reproduzidas numa TV dos dois filmes iniciais da trilogia, centrando os comentários nas dificuldades que teve que transpor para terminar algumas das seqüências mais difíceis, eu observava as feições das pessoas, e o brilho geral nos olhos presentes. Não foi difícil, pelos sinais corporais emitidos, constatar a aceitação do que estava sendo dito. Para muitos, era um sonho concretizado, trabalhar sob a direção do “mestre”, sobre o qual tantas lendas correm no meio cinematográfico nacional, boa parte absolutamente verdadeiras.
Num projeto como esse, é importante que haja um líder aglutinador, capaz de conviver com pessoas diferentes sob todos os aspectos, e coordena-las, para que trabalhem juntas e em sintonia. Foi esse o motivo final da reunião. Ressaltar que, mesmo com todos brilhando individualmente, o resultado não está garantido. Só com o verdadeiro espírito de equipe, em que todos procuram ajudar, e não ficam circunscritos ao estrito campo dos nomes de suas funções, é que algo transcendente pode surgir. A mensagem foi bem recebida.
Ao término da reunião, tivemos a presença de um amigo de longa data, o cineasta Ivan Cardoso, que deve fazer um trabalho fotográfico sobre o filme. Aproveitamos para algumas fotos artísticas com os atores e José Mojica.
Para meu pai, sua dupla função no filme é um grande desafio. Não pelo fato de dirigir, comandar um grupo de pessoas como estas, a maioria jovem, cheia de talento e com uma enorme vontade de fazer deste trabalho um marco em suas vidas profissionais. Mas, interpretar o Zé do Caixão, aos 70 anos, não o Zé do Caixão da TV, mas, o funerário Jozefel, este será um desafio à parte.
Como já foi dito, o roteiro original remonta a 1966, quando o intérprete de Zé do Caixão contava com 30 anos de idade. Para este filme, uma decisão precisava ser tomada, logo no início do projeto: continuar a história, da época em que ela tinha parado, utilizando outro ator para interpretar o funerário, ou adaptar o roteiro existente para que Mojica, 40 anos mais velho pudesse continuar encarnando o personagem que o projetou para a fama.
Verificamos, ao longo dos anos, que se não for impossível, é extremamente difícil que alguém possa encarnar o Zé do Caixão, a não ser o próprio Mojica. Em simples shows, notamos a frustração do público com sósias e “covers” em geral. A verdade, quer Zé do Caixão aceite ou não, é que ele envelheceu na mesma pele do criador que lhe deu vida. Assim, uma adaptação do roteiro a este fato foi uma condição inicial do projeto.
Mas, onde esteve Zé do Caixão após tudo o que aprontou no passado, as mortes, as torturas, e tudo o mais? Por incrível que pareça, num país em que a impunidade aos ricos e poderosos parece regra, o abastado funerário (Zé do Caixão é rico, ao contrário de Mojica, que nunca conseguiu enriquecer com o seu talento), ele esteve preso! Foram 30 anos, que é o máximo permitido por nossas leis, mais alguns anos como doente mental.
Dá para imaginar o seu ódio, ele, que já desprezava a sociedade humana, pela sua “inferioridade”. Agora, solto após tanto tempo, dá para imaginar o que ele pode fazer?
Bem, isso é conversa para outro dia, quem sabe amanhã.
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
01 de novembro de 2006
Ao pensar em Zé do Caixão, é impossível não pensar no sobrenatural. Afinal, desde a década de 60, com programas de televisão como ALÉM, MUITO ALÉM DO ALÉM, em que o personagem narrava histórias que causaram pesadelos em muitos quarentões (e mesmo em gente bem mais velha), até o CINE TRASH da década de 90, em que o mesmo Zé apresentava, sempre acompanhado de belas garotas, vestidas como pombas-giras, os filmes mais mambembes que se possa imaginar, os espíritos e criaturas do outro mundo pareciam interagir de forma muito à vontade com nosso monstro tupiniquim de capa-e-cartola.
O que nem todos sabem é que o personagem é justamente o avesso do que sempre foi veiculado pela televisão. Ao contrário, por mais absurdo que possa parecer a quem não conheça essa história, Zé do Caixão não acredita no sobrenatural, e tem com este uma relação, no mínimo, bastante desagradável.
Tudo começa em “À meia-noite levarei sua alma” , o clássico de 1964, reconhecido por alguns críticos internacionais como o melhor filme de todos os tempos (isso mesmo, independentemente do gênero). Jozefel Zanatas é um agente funerário que vira de cabeça para baixo uma cidade do interior brasileiro. Acreditando-se superior aos demais homens, atribui qualquer crença à ignorância do povo. Somente ele é superior, o exemplar de uma nova raça, uma transcendência do homem.
Movido pelo instinto, para Jozefel até a ética torna-se uma crença inferiorizante. Para ele, só existe a perpetuação pelo sangue, pela descendência que ele precisa gerar, junto com uma mulher que compartilhe suas idéias. E, para conseguir isso, qualquer pessoa que cruze o seu caminho precisa ser exterminada (inclusive as mulheres que se mostram “inferiores”, segundo sua análise).
Ao final do filme, vê suas vítimas numa Procissão dos Mortos, e, enlouquecido, tomba sobre os túmulos de um cemitério, aparentemente morto.
Em 1966, o segundo filme sobre o personagem mostra que ele não morrera. Ao contrário, em “Esta noite encarnarei no teu cadáver”, Zé do Caixão, como foi apelidado na sua cidade, torna-se mais violento, e mais obcecado pela missão que acredita ter. Há mais mortes, e mais cruéis torturas. O sobrenatural, por sua vez, aparece com força ainda maior, quando Jozefel é arrastado para o inferno, num pesadelo, e encontra a si mesmo como um demônio executor (é a épica seqüência do Inferno colorido dentro do filme em preto-e-branco, um dos maiores marcos da genialidade do cineasta José Mojica Marins). Ao final do filme, parece que ele morreu...
ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO mostra que Jozefel não morreu (tem mais vidas do que um gato!), apesar de ter desaparecido de circulação por 40 anos. Como? Isso eu explico amanhã!
ATÉ LÁ, ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
INTRODUÇÃO
VOCÊ, VOCÊ, OU TODOS VOCÊS: PREPAREM-SE PARA ASSISTIR AO MAIOR FILME DE TODOS OS TEMPOS!
Não, não sou o Zé do Caixão, nem mesmo o seu criador, o cineasta José Mojica Marins. Meu nome é Crounel Marins, e sou filho do Mojica. Por isso, tomei a liberdade de iniciar este diário de uma forma bem próxima a que meu pai faria, com seu discurso naturalmente épico.
Quem já é fã do Zé do Caixão (e de José Mojica Marins, é claro) há muito tempo, deve lembrar de te-lo ouvido falar por muitas vezes no filme que terminaria a trilogia da história do Zé do Caixão. Não é para menos. Os dois primeiros filmes foram grandes sucessos da década de 60, e o roteiro original do terceiro é de 1966. Nem eu consigo contar quantas vezes meu pai preparou-se para filmar essa história.
Foram dezenas de vezes, com certeza. Algumas não passaram de promessas vazias, em outras o projeto foi abortado por conta dos custos e substituído por um mais barato, e houve até vezes em que o produtor morreu (pé-de-pato, mangalô, três vezes!).
Quando Paulo Sacramento, responsável pela produtora “Olhos de Cão” apresentou-se para executar o projeto, partindo para a captação de verba, há cinco anos, esse era um sonho que parecia longe demais. Mas, aos poucos, verbas estaduais e federais para a cultura foram ganhas pelo projeto, produtores associados envolveram-se com parcerias, e o que parecia impossível tornou-se realidade.
O filme começa a ser rodado no próximo sábado, dia 4 de novembro. Bem que meu pai preferia começar no dia 2, o Dia de Finados, mas, o processo de pré-produção está meticulosamente planejado para o início no dia 4. Foram dois meses de muita preparação, envolvendo boa parte da equipe técnica, a maior que meu pai já teve, com absoluta certeza. Os testes para atores e atrizes foram feitos às centenas, se contarmos os figurantes. Para os papéis centrais, dezenas de testes envolvendo capacidade interpretativa, disposição para atuar num filme em que a violência é grande (alguns saíram com hematomas), e, para alguns casos, coragem para lidar com cobras e enormes caranguejeiras!
Todo esse processo de preparação, bem como o desenrolar das filmagens será contado, diariamente, no novo site do Zé do Caixão. A partir de amanhã, os visitantes poderão conhecer mais sobre o personagem, sobre o cineasta, e sobre esse incrível projeto que demorou 40 anos para ser efetivamente iniciado.
Então, parodiando novamente o estilo paterno, ATÉ LÁ...ATÉ LÁ...
CROUNEL MARINS
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