Pré-pós-tudo-bossa-band
Zélia Duncan é a melhor cantora de um mundo pop cujo
entorno ela recusa. Sempre teve aversão a revistas de fofoca,
festas, à imagem em detrimento da arte. Ano passado criou
um selo para quebrar sua rotina musical, Duncan Discos, com o bom
“Eu me transformo em outras”. Ao retomar sua trajetória
na gravadora Universal, ela mostra que a experiência foi válida.
“Pré-pos-tudo-bossa-band” é o seu melhor
disco de carreira e um manifesto contra estereótipos que
limitam a criatividade e padronizam a inspiração.
Não à toa, ela ampliou seu universo em parcerias
com Lenine, Lucina, Pedro Luís, Moska, Mart’nália,
Lulu Santos e ousou letrar Guerra-Peixe. Não à toa,
ela incluiu quatro faixas de um de seus compositores prediletos:
Itamar Assumpção.
Com Lenine, ela fez a faixa que abre, dá as cartas e nome
ao disco: “Todo mundo quer ser bacana/ Álbuns, fotos,
dicas para o fim de semana”, diz “Pré-pós-tudo,
bossa, band”. Para em seguida falar sobre a alegria de “não
ser divina”, de “estar na terra”, em “Carne
e osso”, parceria com Moska.
Se esta canção traduz em palavras o que pensa a cantora,
“Vi, não vivi”, de Assumpção com
Christiaan Oyens, e “Mãos atadas”, de Simone
Saback, as faixas seguintes, representam filigranas de emoção
pura, subliminar. Já “Benditas” (“Benditas
coisas que eu não sei/ Os lugares onde não fui”),
com Mar’nália, é uma declaração
sincera de amor pela novidade.
Mas o melhor está na seqüência que começa
na música-síntese “Tudo ou nada”, inédita
de Itamar Assumpção com Alice Ruiz. Os versos “Come
on baby/ Transformar esse limão em limonada/ Passar da solidão
pra doce amada/ Pegar um trem pra próxima ilusão”,
sobre uma melodia simples e um belo arranjo é sucesso certo.
Cantora acerta em cheio ao letrar um choro de Guerra-Peixe
“Distração” é uma letra preciosa
de Zélia, assim como “Dor elegante”, de Itamar,
desta vez com Paulo Leminski, em um reggae certeiro: “Um homem
com uma dor/ É muito mais elegante/ Caminha assim de lado/
Como se chegando atrasado/ Andasse mais adiante”. Pura Zélia,
não?
Ainda não. A cantora ousa na tradição, letrando
“Inclemência”, de Guerra-Peixe, com uma precisão
incrível, casando letra e melodia e abençoada por
um arranjo delicado da maestrina Bia Paes Leme. Tradição
reinventada também no arranjo jazzístico para “Não”,
com Moska, ou no curioso samba-exaltação-elétrico
“Quisera eu”, com Lulu Santos. Zélia fecha o
disco regravando “Milágrimas”, outra de Assumpção,
dando a receita para transformar mil lágrimas em um milagre.
Assim como está dando, disco a disco, a receita para fazer
do pop um mundo plausível e menos vazio.
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