Jornal O Globo | Segundo caderno
19/07/2005

Zélia faz um manifesto contra as caras e bocas do mundo pop que a rodeia.
João Pimentel

 

Pré-pós-tudo-bossa-band

Zélia Duncan é a melhor cantora de um mundo pop cujo entorno ela recusa. Sempre teve aversão a revistas de fofoca, festas, à imagem em detrimento da arte. Ano passado criou um selo para quebrar sua rotina musical, Duncan Discos, com o bom “Eu me transformo em outras”. Ao retomar sua trajetória na gravadora Universal, ela mostra que a experiência foi válida. “Pré-pos-tudo-bossa-band” é o seu melhor disco de carreira e um manifesto contra estereótipos que limitam a criatividade e padronizam a inspiração.

Não à toa, ela ampliou seu universo em parcerias com Lenine, Lucina, Pedro Luís, Moska, Mart’nália, Lulu Santos e ousou letrar Guerra-Peixe. Não à toa, ela incluiu quatro faixas de um de seus compositores prediletos: Itamar Assumpção.

Com Lenine, ela fez a faixa que abre, dá as cartas e nome ao disco: “Todo mundo quer ser bacana/ Álbuns, fotos, dicas para o fim de semana”, diz “Pré-pós-tudo, bossa, band”. Para em seguida falar sobre a alegria de “não ser divina”, de “estar na terra”, em “Carne e osso”, parceria com Moska.

Se esta canção traduz em palavras o que pensa a cantora, “Vi, não vivi”, de Assumpção com Christiaan Oyens, e “Mãos atadas”, de Simone Saback, as faixas seguintes, representam filigranas de emoção pura, subliminar. Já “Benditas” (“Benditas coisas que eu não sei/ Os lugares onde não fui”), com Mar’nália, é uma declaração sincera de amor pela novidade.

Mas o melhor está na seqüência que começa na música-síntese “Tudo ou nada”, inédita de Itamar Assumpção com Alice Ruiz. Os versos “Come on baby/ Transformar esse limão em limonada/ Passar da solidão pra doce amada/ Pegar um trem pra próxima ilusão”, sobre uma melodia simples e um belo arranjo é sucesso certo.

Cantora acerta em cheio ao letrar um choro de Guerra-Peixe

“Distração” é uma letra preciosa de Zélia, assim como “Dor elegante”, de Itamar, desta vez com Paulo Leminski, em um reggae certeiro: “Um homem com uma dor/ É muito mais elegante/ Caminha assim de lado/ Como se chegando atrasado/ Andasse mais adiante”. Pura Zélia, não?

Ainda não. A cantora ousa na tradição, letrando “Inclemência”, de Guerra-Peixe, com uma precisão incrível, casando letra e melodia e abençoada por um arranjo delicado da maestrina Bia Paes Leme. Tradição reinventada também no arranjo jazzístico para “Não”, com Moska, ou no curioso samba-exaltação-elétrico “Quisera eu”, com Lulu Santos. Zélia fecha o disco regravando “Milágrimas”, outra de Assumpção, dando a receita para transformar mil lágrimas em um milagre. Assim como está dando, disco a disco, a receita para fazer do pop um mundo plausível e menos vazio.

 

© Todos os direitos reservados a O Globo e Agência O Globo.

[imprimir]