ZÉLIA DUNCANsortimento vivo

Não há lugar onde uma artista se realize mais do que no contato direto com o público. É uma troca intensa de emoções. Se o artista consegue tocar o coração das pessoas, elas reagem com amor, traduzindo em vibração e intensidade. Tudo isto está aqui, nesse Sortimento Vivo, de Zélia Duncan , em CD e DVD. Poucas vezes se viu um encontro tão bonito entre um artista e seu público quanto nos três shows gravados no Sesc Vila Mariana, em junho de 2002, que serviram de matéria-prima para estes lançamentos.

"Sempre me cobraram muito um registro, ao vivo, e um home video, como se usava dizer, porque sou uma artista de palco, que sente imenso prazer em estar em cena, viajar, montar o circo e mandar ver. Por causa de "Catedral", que é uma música lenta, muita gente acabou cristalizando uma imagem a partir disso e, quando assiste, pode ter uma surpresa ao constatar o vigor da apresentação, creio eu" - explica Zélia.

Para traduzir em imagens a comunhão entre ela e o público, Zélia escolheu o diretor Oscar Rodrigues Alves, que dá ao espectador sua visão do espetáculo, mostrando detalhes que escapam ao olhar do fã na platéia e descobrindo ângulos novos, que fazem das imagens um espetáculo dentro de outro.

"Oscar foi uma presença que me encorajou muito, pela sensibilidade musical e empolgarão com meu trabalho. Ele foi me fazendo acreditar cada vez mais no que poderíamos ter nas mãos" - diz Zélia.

O disco de estúdio, a temporada, o DVD e CD, ao vivo, comemoram 20 anos de carreira de Zélia Duncan. Foi muita ralação até chegar aqui, um longo caminho de shows, onde fosse possível e até impossível: ela cantou na noite, fez backing vocals e prossegui, incansável, até chegar à sua primeira proposta pessoal no disco Zélia Duncan, de 1994. A partir dali, foi evoluindo até chegar a este Sortimento Vivo, uma prestação de contas de sua trajetória até este momento e uma prévia de coisas a vir. Quem acompanha Zélia desde seu estouro com "Catedral, verá uma cantora bem mais solta do que antes e uma voz cheia de novas nuances, com uma pegada mais vigorosa, produto da fase que ela vive de aproximação com o rock, e muito balanço. Basta ver que, para a gravação, ela reforçou a percussão, a cargo de Christiano Galvão e Simone Soul, com a presença de Orlando Costa.

A temporada de Sortimento, que teve duas indicações ao Grammy Latino, começou em maio de 2001, e até a gravação, foram mais de 90 shows, uma garantia de que vocês verão e ouvirão um show redondinho, moldado pelos palcos de todo o Brasil e de Portugal, onde Zélia esteve em maio/junho de 2002 para shows no Coliseo do Porto e de Lisboa.

O CD traz 17 faixas, uma delas inédita e exclusiva do disco, "Gringo Guaraná", parceria com Rodrigo Maranhão, o talentoso líder do grupo carioca Bangalafumenga, com quem Zélia também compôs "Chicken de Frango". "A barriga está vazia/ Mas a boca ri todo dia/ Malabares na esquina/ Desequilíbrio é a sina/ Mas ele podia se eu/ Eu podia ser você/ Você podia ser um outro/ Roleta russa de loucos/ Se escapamos foi sempre por pouco", recita Zélia um trecho da letra na abertura desta canção de colorações étnicas fragmentadas e muito suingue.

As 17 faixas do CD estão divididas em três blocos. Zélia abre o primeiro com três faixas de Sortimento: o sucesso funkeado "Alma", a suingadas "Chicken de frango", com uma citação do hino "Maracatu Atômico", de Jorge Mautner e a roqueira "Por que que eu não pensei nisso antes?", de Itamar Assumpção, com distorções, ruídos eletrônicos e Zélia caindo de pau num surdo. A seguir, ela dá uma suavizada com "Eu me acerto", de Sortimento e vai buscar "Lá vou eu", de 1994, uma canção de sua ídala Rita Lee, em que a platéia reage à menção da cidade de São Paulo. Ela recebe os rappers do grupo paulista Possemente Zulu, Rappin'Hood, DJ Marco e Johnny MC, para a interpretação de sua parceria com Rita Lee, "Desconforto", uma crítica ácida aos descaminhos do país. O set acústico é sempre um sucesso nos shows de Zélia. Ela se garante no violão e voz e aqui ela conta com o reforço do bandolim tocado por seu guitarrista, João Gaspar em "Por enquanto", uma homenagem à sua grande amiga, Cássia Eller, que converteu essa balada da Legião Urbana em seu primeiro sucesso.

"No dia seguinte à partida de Cássia tive que fazer o show mais difícil da minha carreira, até então, o revéillon na praia de Copacabana. Eu estava muito arrasada e não podia fingir que estava tudo bem. Resolvi tocar 'Por enquanto' para desabafar, cantando, todos aqueles nós que me apertavam a garganta. Não consegui mais deixar de cantá-la cm a platéia, que assim como eu, necessita deste desabafo também. É legítimo, éramos amigas desde 1982, sinto muita falta dela" - conta Zélia que, ao final da canção inclui as palavras finais de outro hit de Cássia, 'O segundo sol' - "não tem explicação, não tem, não tem" - que traduzem a perplexidade de todos nós com a súbita ausência de Cássia.

Zélia canta "Partir, andar", a comovente balada que ela dividiu com Herbert Vianna em O Som do Sim, o terceiro álbum solo dele; "Boomerang Blues", de Renato Russo, gravado pelo Barão Vermelho, um blues em que ela solta um timbre rascante e "Verbos sujeitos", o hit do CD Acesso em que a platéia divide os vocais. A terceira parte começa com o hit "Catedral", em novo e belo arranjo, cantado pela platéia com ela. "Flores", de Fred Martins, gravado em Sortimento, é aquela canção pop perfeita para se cantar junto. "Enquanto durmo" é obrigatória nos shows de Zélia, é a melô da chuvinha, quando toda a platéia levanta as mãos para fazer um chuveirinho nos versos 'espero a chuva cair..." Outro hit de Sortimento, "Me revelar", encerra o CD.

No DVD a festa é completa. Além das belas imagens, há sete canções a mais, duas delas com participações emocionantes do povo. Zélia decidiu abrir com o público cantando "Me gusta" como uma homenagem aos fãs que lhe permitem chegar onde está, no primeiro escalão da música brasileira. Lá pelo meio, durante uma troca de fita, Zélia rege o coro em "Bom pra você. Violão em punho, ela não toca, canta sem o microfone, a platéia canta para ela, um dos momentos mais bonitos do show.

Na primeira parte, versão DVD, soma-se o samba "Na hora da sede", o primeiro gravado por Zélia, uma das novidades de Sortimento, um CD em que ela se abriu a novas experiências, parcerias e a interpretações de outros autores. No set acústico, temos o acréscimo de "Joana Francesa", com Zélia dando uma interpretação de tirar o fôlego para o tema que Chico Buarque fez para o personagem de Jeanne Moreau no filme de Cacá Diegues. Ela visita esta canção desde 1987, tempo em que era apenas intérprete. "Quase sem querer" está no set acústico desde 1996, foi gravado no Acesso e, ao vivo, Zélia agrega a balada "Fala", dos Secos e Molhados.

Em "Pagu", uma parceria com Rita Lee, Simone Soul ocupa a bateria e Zélia pede: "Simone, quebra tudo". E quebra junto com ela, neste manifesto roquenrol feminino cheio de bom humor contra as mulheres que querem vencer na vida unicamente pelos atributos físicos. Zélia incluiu "Alma" no bis para ser fiel aos setlists do show e termina na celebração que sempre se desencadeia em "Nos lençóis desse reggae", com uma citação de "Caio no suingue", de Pedro Luís.

No capítulo de extras, Zélia incluiu encontros musicais cm alguns parceiros e afins, começar pelo vizinho de bairro, Lenine, recebido na sala de som da casa de Zélia para uma divertida tertúlia a dois violões que passa por "Tempestade", uma maneira de compensar a ausência desta canção do show, por "A ponte", de Lenine e Lula Queiroga e por duas de Itamar, "Fico louco" e "Nego Dito".

"Quando comecei a aparecer mais, estava ouvindo que nem louca Olho de Peixe (disco de Lenine e Marcos Suzano) e falava em tudo que era entrevista; então ele foi no meu show. Entrou fazendo a maior zona, me chamou pra dar uma canja com ele e Suzano e cantamos, justamente, "Tempestade", no Mistura Fina (casa de shows no Jardim Botânico, Rio de Janeiro). Mais tarde, mudei pra Urca, viramos vizinhos, ele cantou comigo no Canecão e muitas coisas virão! fala Zélia.

Zélia ama Itamar Assumpção desde sempre e foi ao seu encontro num show dele no Supremo Musical, em São Paulo. Fomos eu e Oscar, que sempre leva a camera. Antes de começar, Itamar me chamou lá dentro e perguntou se eu queria cantar. Abri um sorriso, "soldado no quartel tá procurando serviço, vamos nessa" e Oscar, quase sem querer, registrou. Zélia canta com Itamar "Dicionário", que ela gravou em Intimidade (1996), a seguir numa visita à casa de Itamar, na Penha, os dois falam do amor mutuo e Itamar canta "O lado bom".

Lucina ajudou Zélia a curar um complexo que tinha pelo timbre grave. Ela conta que viu um show dela em Brasília e se sentiu encorajada e entusiasmada; comprou o disco, recebeu um autógrafo displicente e, anos mais tarde, viraram parceiras. Aqui as duas cantam na voz e violão "Coração na boca", uma canção sobre os mistérios do amor.

Christiaan Oyens é o parceiro mais constante de Zélia, co-responsável pelos maiores sucessos, como vocês podem ver no repertório. "Me emociono muito com a parceria com Christiaan, porque é o começo de tudo, ele e Lucina também, mas nossas músicas ficaram muito conhecidas e deram um rumo diferente pra minha vida. Nossos encontros são assim, no estúdio dele, normalmente, que agora está mais profissional, mas antes era na casa da mãe, Margritte, na Gávea, onde gravamos muitas ciosas que viraram definitivas, Aliás, fazemos isso até hoje com nossas demos, são muito aproveitadas. Temos a intimidade necessária para que a parceria flua bem, nos admiramos, ouvimos um ao outro, discordamos de vez em quando mas, acima de tudo, acredito que haja a confiança necessária para seguirmos e há tanto por vir", diz Zélia. Christiaan é mestre num instrumento exótico de sonoridade muito especial, o violão havaiano Weissnborn, que fica deitado sobre as pernas e é tocado em slide. Os dois cantam "Intimidade" e "Por hoje é só".

E, finalmente, Fito Paez. Zélia é a rainha da canjas; basta um artista pensar em chamá-la para uma participação e ela já foi. Tudo isso por uma convicção profunda de que é na troca que a música se faz plenamente. Zélia recebeu um convite de Fito para participar de um show se no Directv, em São Paulo, e foi lá cantar furioso "Pétala de sal" com o virtuoso piano do anfitrião, um momento tocante que encerra a seção Artigos do mesmo gênero do DVD. Um brinde especial está no ícone Estoque: os dois clipes do CD Sortimento para as músicas "Me revelar" e "Alma". Sortimento Vivo é Zélia exposta por inteiro.

Bom proveito

Jamari França/Outubro 2002

ZÉLIADUNCAN sortimentovivo por Jamari França download do texto
Sortimento Vivo - Universal Music 2002

 


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