Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2003
Escrever sobre Elis é reviver a dor de sua ausência prematura. Mais um ano sem ela, sem sua voz, suas inquietações latentes e visceralmente expostas nas músicas que escolhia pra cantar...
Sem Elis e sem Tom, ambos espalhados em fotos, CD´s e partituras pelo meu estúdio, nada que ouço me satisfaz, falta o essencial - eles dois. Não consigo parar de pensar no que eles estariam cantando compondo hoje, neste nosso mundinho musical esquisito, onde se conhece e ouve o pior e o melhor não toca, fica esquecido...Imagine Elis ouvindo rádio e vendo os CDs que hoje vendem aos montes! Ao mesmo tempo penso nela diante da internet, na era digital (ela não chegou a ouvir seus próprios vinis em CD), imagino a cara dela ouvindo e vendo Maria Rita e Pedro na vida, pelos palcos cantando mundo a fora... O que ela gravaria hoje? E juntar Elis, Maria Rita e Pedro com César Camargo Mariano ao piano? Meu coração explodiria! Acho que foi por isso que cheguei um dia depois do concerto de Nelson Freire e Martha Argerich em Nice, anos atrás. Deus sabe o que faz!
Estive perto do Tom como não estive dela, infelizmente. Eu ainda morava em Belém quando a conheci depois do show ESSA MULHER em 79, mas gravei umas 3 ou 4 vezes com Tom, "o entrevistei" na casa dele para a Revista DOMINGO do JB, e um pouquinho antes dele morrer, gravando juntos a VALSA BRASILEIRA de Edu e Chico, nos prometemos um novo encontro em breve pra gravar CHORO BANDIDO. Como eu o amava, meu Deus, como sinto falta do que ele tocava, escrevia, cantava, pensava e dizia. Me consolo mergulhando em cada novo acorde que decifro nas partituras escritas por ele e Paulinho Jobim - cinco preciosidades! Abro o livro e toco junto com ele NUVENS DOURADAS, RANCHO DAS NUVENS...e torço pra que ele e Elis estejam juntos, pra que essas conversas terrenas de nuvens, alegrias e reencontros no céu, sejam mesmo verdade. Me consolaria com este absurdo, juro que me consolaria.
Esta semana também se foi a querida Marisa Gata Mansa, mãe de meu amigo Marcelo Mariano, mais um filho de César Camargo Mariano. Lá se vai uma cantora pro céu, mais uma voz que se cala, não canta mais. E isto da voz da cantora se calar me emociona e faz chorar sempre, porque é impossível não pensar na minha partida um dia.
Nestes dias quentes de verão recolhi da porta de meu prédio uma cigarra com as patinhas pro ar, esperneando:
- Vai cantar...vai cantar. Tava tão bom que até caiu da árvore?
Canta...canta... Segurei com cuidado suas asinhas e a recoloquei na árvore.
Quem dera que a vida fosse assim tão simples.
Elis amada, que você esteja na paz de Deus!
Você faz muita falta! Dá um beijo no Tom!
Te beijo com muita saudade,
Leila Pinheiro