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Guinga, o grande Compositor lança Noturno Copacabana, seu sexto CD por Vita Scapi
Guinga, o indiscutivelmente genial compositor carioca (perdão, leitores, pelo inevitável lugar-comum) passa por uma fase especial em sua carreira que, poucos sabem, já tem mais de três décadas. O artista conjuga o lançamento de seu sexto CD, Noturno Copacabana, com uma viagem à Itália, convidado para ministrar workshops durante a próxima quinzena. Noturno Copacabana (Velas), assim como os anteriores, é ansiado por boa parte da imprensa e dos músicos antes mesmo de chegar ao mercado. Ouvir um CD de Guinga é como receber um mapa do tesouro. No final do percurso entremeado de surpresas sensoriais - sim, pois a música de Guinga tem densidade, aroma, sabor e imagem -, é certo haver encontrado o pote de ouro.
Noturno Copacabana é, antes de tudo, uma viagem pela alma do compositor. Modinha, valsa, choro, baião, lundu (!) e uma miríade de ritmos trespassam Copacabana e desembocam no melhor porto da atual música brasileira: o violão de Guinga, filho do subúrbio e afilhado das praias do Rio de Janeiro. São 14 faixas, seis parceiros, três cantoras convidadas, um punhado de excelentes músicos e incontáveis momentos de emoção. Boa viagem.
Simone Guimarães, cantora e compositora paulista - da melhor estirpe - a quem Guinga considera "um gênio", co-assina três faixas e mostra que tem fôlego de sobra para muitas mais ao lado do compositor. Na 'amaxixada' (seria um xaxado? Teria um viés de maracatu?) Desavença, conta a história de um certo Popoto e sua viola; no baião Pra Jackson e Almira, homemageia o impetuoso pandeirista a partir do acróstico "Para Jackson do Pandeiro e Almira esta homenagem"; no lundu Rasgando Seda, celebra a música de Guinga ("tu és o anjo novo da canção"). Pena não ouví-la ao seu lado em nenhuma faixa.
Luís Felipe Gama se mostra profícuo letrista, basta conferir o choro Silêncio de Iara, que ganhou bela interpretação da cantora paulistana Ana Luiza. Mauro Aguiar soa divertido em Concubinato (que traz Guinga e Fatima Guedes em hilária dobradinha) e comovente na valsa Canção Desnecessária ("abrace o precipício / e valse a valsa imersa / num silêncio insano"). Letrada por Francisco Bosco, a faixa-título traduz o clima do desejo que pulsa na noite em imagem talvez naturalista demais para o lirismo do conjunto ("noite à beira-mar / homens vêm montar / centauros de silicone / por cem reais / nalgum motel").
Aldir Blanc, mestre e parceiro de grande parte da safra recente de composições de Guinga, faz literal gol de letra em Abluesado, trançando paralelos entre o blues e o samba-canção ("um é azul e triste / o outro reza e peca"). Paulo Cesar Pinheiro, primeiro parceiro constante de Guinga, paira emocionante em Senhorinha, com pungente interpretação do músico. Fonte Abandonada, outra composição da dupla, dificílima valsa que amargou 20 anos de gaveta, é molhada pelo som do Quarteto de violões Maogani e pela voz de Leila Pinheiro, cantora que já dedicou um de seus discos - o estupendo Catavento e Girassol (EMI, 1996) - à obra de Guinga e Aldir Blanc.
Não bastasse o selecionado das cordas que estofam com tecido fino O Silêncio de Iara, Depois do Sonho e Rasgando Seda, Noturno Copacabana traz ainda primoroso escrete de sopros. Em Garoa e Maresia, tema instrumental que descortina o CD, rebentam as notas de Carlos Malta (flautas), Paulo Sérgio Santos (clarinetes) e Jessé Sadoc (flugelhorn) - além das cordas cruzadas de Guinga (violão), Lula Galvão (guitarra) e Jorge Helder (baixo). Os sopros também dão o tom de Abluesado, com o trombone de Sérgio de Jesus mais sax e clarinete de Paulo Sérgio Santos. Nailor Proveta (sax alto) sobre a cama de cordas realça Depois do Sonho. Na mezzo-sorumbática mezzo-sedutora faixa título, é o trompete de Jessé Sadoc rasgando a noite do bairro até o lento amanhecer em frente ao mar que banha Copa.
Ao ouvinte emocionado, resta o êxtase. E a certeza de ouvir a música de um gênio.
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livro A música de Guinga |