Bahia de todos os cantos
Com Brasileirinho e Vozes da Purificação Maria Bethânia inaugura seu selo, Quitanda

por Vita Scapi

É indiscutível: Maria Bethânia guarda a luz das estrelas.

O verso anunciado em Salve as folhas (Gerônimo e Ildásio Tavares), faixa que abre o disco Brasileirinho e inaugura o selo Quitanda, nova empreitada da cantora (em parceria com Kati Almeida Braga, sócia da Biscoito Fino, gravadora responsável pela distribuição das iguarias do Quitanda), parece puro reflexo de sua alma de artista. Sem folha não tem sonho / sem folha não tem vida / sem folha não tem nada, vai adianta a letra, como que dando a senha do atual momento.

Seguindo o conselho de Lina Bo Bardi - certa vez a arquiteta italiana disse que todos deveriam ter a sua quitanda -, Bethânia abre espaço para colocar à mostra toda sorte de sabores que a apetecem: literatura, teatro, música. Sem regra. E, luxo dos luxos, sem pensar no mercado. Além de Brasileirinho, que pincela o sincretismo religioso e cultural do país de negros,índios e brancos na voz da própria Bethânia, a cantora também privilegia a sua memória musical (re)lançando Vozes da Purificação, trabalho da octogenária baiana Edith do Prato; o disco já havia sido gravado com apoio do Governo da Bahia.

O compositor J. Velloso, sobrinho de Bethânia e Caetano é quem assina a produção de Vozes da Purificação - disco-cartão de visita musical do Recôncavo -, e a responsabilidade de recolher os sambas e os convidados com intimidade, prazer e, por que não?, sabedoria. D. Edith, que Caetano já trouxera em Araçá Azul e Bethânia em Ciclo, raspa o prato e canta ao lado de um grupo de senhoras santo-amarenses em treze faixas. Entre os convidados especiais que cantam nessa festa estão: Caetano Veloso em Minha Senhora / How beautiful; Mariene de Castro, cantora, em Casa Nova / Raiz; Roque Ferreira, compositor, em Ariri Vaqueiro; Nené Barretto, cantora, em Ai Dindinha; Erlon Portugal, cantor lírico, em Santo Amaro ê ê, além de Bethânia em Quem pode mais / Dona da Casa / Eu vim aqui.

O trio Jaime Alem (violão e viola de 12 cordas), Jorge Helder (contrabaixo) e Marcelo Costa (percussão) estofa com sutileza e emoção a sonoridade de Brasileirinho. Do início ao fim, uma panorâmica viagem desfolhando brasis: boiadeiro (Cigarro de Palha), caboclo (Cabocla Jurema), índio (Yayá Massemba), santo (Santo Antonio), orixá (Ponta de Macumba). A poética de Guimarães Rosa e Vinícius de Moraes (por Bethânia) e Mário de Andrade (por Ferreira Gullar e Denise Stoklos) evocam a pátria trançada nas canções. Nana Caymmi (em Sussuarana, de Heckel Tavares e Luiz Peixoto), Miúcha (em Cabocla Jurema, domínio público), o experimentalismo do Uakti (em Salvem as Folhas), o sangue novo do Tira Poeira (em Padroeira do Brasil)... tudo embalado pela voz de Bethânia.

Justo quando o mercado fonográfico queima o auri-verde pendão em praça pública, Brasileirinho beija os ouvidos da pátria e a banha nas águas da redenção.

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