Para ouvir para sempre
Sobre todas as coisas é eu é desses CDs que não param na estante

por Beto Feitosa

Para abrir Todas as coisas e eu, Gal Costa escolheu Linda flor, já gravada por várias estrelas da música brasileira desde que foi lançada, nos anos 20. Para encerrar, juntou quatro sambas de Noel Rosa em um medley carnavalesco com O orvalho vem caindo, Fita amarela, Até amanhã e Palpite infeliz. Para exorcizar qualquer baixo astral que tenha ficado no passado.

O CD de Gal Costa é todo assim: um palpite mais do que feliz. O repertório passeia por um óbvio rico, de uma época em que sucesso popular andava de mãos dadas com a qualidade. Os arranjos de Eduardo Souto Netto e a orquestra regida por Julinho Teixeira fazem uma belíssima cama para a voz de Gal Costa, que está com mais brilho do que andava nos últimos tempos. A impressão é de que os olhos da cantora refletem felicidade enquanto passeiam por versos eternizados.

A força das marcantes gravações de Dalva de Oliveira para Ave Maria no morro (Herivelto Martins) e Kalu (Humberto Teixeira) dão lugar a uma delicada Gal Costa. As interpretações de Gal não pretendem mostrar nenhuma novidade e nem, muito menos, imitar as vozes originalmente donas das canções. Ela se aproxima das músicas, trazendo todas para seu estilo cool de cantar, sem negar em nenhum momento a influência de João Gilberto em sua carreira.

Assim, em sua interpretação Gal pode juntar a Copacabana (João de Barro e Alberto Ribeiro) de Dick Farney com o Sábado em Copacabana (Caymmi e Carlos Guinle) de Lúcio Alves em uma única faixa, que funciona como declaração de amor ao bairro que era bucólico e apaixonado quando as músicas foram lançadas.

No ano do centenário de Ary Barroso, Gal faz uma leitura bossa nova para Pra machucar meu coração, faixa que ficou de fora do LP que gravou somente com músicas do compositor mineiro em 1980. Já Nervos de aço (Lupicínio Rodrigues) vira um chorinho brejeiro em uma das melhores interpretações do CD.

A elegante gravação de Fim de caso dá vontade de ouvir mais, e esperar um CD de Gal Costa totalmente dedicado a obra de Dolores Duran. Gravada também no último CD de Miúcha, E daí? é outro grande momento.

Todas as coisas e eu é assim. Um CD de Gal Costa como há muito não se via, desses que não param na estante e não envelhecem nunca. Para ouvir para sempre.

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