Os tempos de Paulinho da Viola
Documentário flagra encontros espontâneos e ganha CD de trilha sonora

por Beto Feitosa

Em 2003 Paulinho da Viola ganhou um caprichado documentário em 35 mm. O badalado filme Meu tempo é hoje, dirigido por Izabel Jaguaribe, ganhou também uma bem vinda versão em CD, lançada pela Biscoito Fino.

Como no filme, desfilam vários artistas que participam contando a história e montando um painel que mostra o perfil e o dia-a-dia de Paulinho. Para dividir sambas e choros históricos passaram pelo set Marisa Monte, Elton Medeiros, Amélia Rabello, Velha Guarda da Portela, Zeca Pagodinho e Nó em pingo D'água.

No samba 14 anos, gravado por Nara Leão em 1983 e resgatado no CD, Paulinho fala sobre a vida de artista: "Tinha eu que ser doutor/Mas a minha aspiração era ter um violão para me tornar sambista". E ele insistiu e venceu com a nobreza de um príncipe. Meu tempo é hoje flagra a obra de um artista que transcende o tempo.

No CD Paulinho passeia por composições alheias, dando a elas sua marca pessoal e trazendo para seu universo musical, privilégio daqueles que conseguem ter um estilo pessoal. A própria música que serviu de inspiração para o título do filme, Meu mundo é hoje, de Wilson e José Batista, cai como um samba próprio. Assim como quando recebe Elton Medeiros para cantar um medley que junta Injúria, Pecado e O sol nascerá, obras de Elton e Cartola, com a sua Jurar com lágrimas.

O encontro com Marisa Monte rendeu uma bela versão para Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro. Já com Zeca Pagodinho o bom humor ganha em Conflito, de Marcos Diniz e Barbeirinho do Jacarezinho. Os encontros flagrados não são muito ensaiados. O grande valor está na espontaneidade das rodas de samba.

Nas composições próprias, Paulinho recebe o Nó em Pingo D'água para o elegante choro Um sarau para Raphael, refeito em estúdio. Depois de ser reverenciado pela Velha Guarda da Portela, se junta a eles no histórico samba Foi um rio que passou em minha vida. A letra é da época de seu rompimento com a escola de samba, e deixava claro o seu amor em uma época em que os enredos costumavam ter qualidade para viver bem mais que os dias de desfile. Os de hoje costumam morrer na hora da dispersão.

Mas, como prefere Paulinho, sem espaço para lamentos e saudades. E isso prova como todos esses clássicos resistem ao tempo. E, para finalizar, manda seu recado em Argumento: "Ta bom eu aceito o argumento/Mas não me altere o samba tanto assim/Olha que a rapaziada está sentindo afalta/De um cavaco, de um pandeiro e de um tamborim". Está dito.

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