Independência e vida
Carlos Lyra monta seu próprio selo e lança CD feito para o Japão

por Beto Feitosa

Vida de artista não é fácil. E Carlos Lyra sabe disso. Com 50 anos de carreira um dos pais da bossa nova toma fôlego e entra no saudável mercado independente. Montou seu próprio selo, o MCK, para lançar seu CD Sambalanço, gravado em 2000 para o mercado japonês.

"O CD foi lançado lá com uma mixagem que não me agradou. Quando eu me recusei a participar do lançamento, eles recolheram os CDs das lojas, então o trabalho é praticamente inédito e agora eu vou exportar pra lá", conta o compositor. "Eu passei esses quatro anos mixando com calma, como queria e agora estou lançando para comemorar meus 50 anos de carreira", explica.

Carlos Lyra garante que estar independente não muda a sua maneira de fazer o trabalho. "Quando comecei os discos eram em 78RPM, passei pelo LP, uma tentativa de 10 polegadas, CD e agora o futuro está na internet", aposta mostrando que, apesar de não ser internata freqüente, não fica alheio aos novos formatos. "A minha música não vai mudar de rumo por causa do meio", garante.

Em Sambalanço, Carlos Lyra mistura alguns de seus clássicos com deliciosos achados de lado B. Compositor inspirado, sua obra é valiosa e sua assinatura está em vários clássicos da música moderna brasileira, como Lobo bobo, Saudade fez um samba e Se é tarde me perdoa, as três reunidas em um medley no CD. "Cada vez que a gente grava dá uma expressão nova", conta. Outros clássicos como Minha namorada, Você e eu, Maria Moita e Coisa mais linda também ganham nova roupagem.

Sambalançoouça um trecho, a faixa-título, também batizou seu LP de 1963. "Quando eu inventei o nome era Depois do carnaval o sambalanço de Carlos Lyra. Seria o sambinha bossa nova, com aquela batida do João Gilberto. Hoje já vai pensando no balanço do samba mesmo", explica.

Provando que os grandes artistas são eternos e atemporais, Carlos Lyra finalmente dá à luz uma letra de Dolores Duran, falecida em 1959. Se quiseres chorarouça um trecho ficou na gaveta do compositor durante quase quarenta anos antes de estrear nesse CD. "Essa letra ela fez um mês antes de morrer. Outra música que fiz com uma letra dela, O negócio é amar, ficou pronta em 40 minutos. Essa ficou esse tempo todo até eu ter a idéia de fazer esse bolero que ficou a cara dela, bem feminina e maternal", conta orgulhoso.

Quem também aparece em Sambalanço é Kay Lira, filha do compositor. De voz miúda, bem colocada e afinada ela divide com o pai os vocais em O barco e a vela e Pode irouça um trecho. "Admiro muito a Kay como cantora, se não gostasse não chamaria para gravar comigo. Ela é afinada, excelente cantora, primorosa e por acaso é minha filha", endossa.

Para lançar o CD e festejar os 50 anos de atividade, Carlos Lyra vai juntar amigos no Canecão no dia 17 de março. A lista de convidados para o palco inclui Maria Bethânia, Marcos Valle, Ivan Lins, Roberto Menescal, João Donato, Miúcha, Toni Garrido, Emílio Santiago, Leila Pinheiro, Leo Gandelman, Leny Andrade, Chico Caruso, Os Cariocas, Quarteto em Cy, Wanda Sá, além do sobrinho Claudio Lyra e da filha Kay. "Minha idéia era convidar dez pessoas para poder contar com cinco. Mas além desses, apareceram outros dez querendo comemorar comigo. Meus companheiros cantam meus clássicos e eu apresento as músicas novas", adianta.

Carlos Lyra estuda a possibilidade de gravar um DVD na ocasião. "Um encontro desses não pode deixar de ser registrado. É um festival, praticamente", entrega. E tem razão.

CD Carlos Lyra - Sambalanço
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