... e se Jorge Benjor tivesse composto seus grandes clássicos hoje em dia? Provavelmente teriam a cara que a cantora Valéria Sattamini deu a seu primeiro CD.
Nos festivais dos anos 60 e 70 surgiu o samba rock. Malicioso e sacana, fez sucesso com nomes como o Trio Mocotó, Jorge Ben, Orlandivo e Bebeto. Até Doris Monteiro flertou com o balanço e se deu bem. Depois a batida foi esquecida no Brasil. Resgatada por DJs europeus e pelo público japonês, voltou também a tocar no Brasil. Hoje o samba rock volta a ser situação. E respira, trazendo boas surpresas.
O primeiro CD da cantora Valeria Sattamini é uma delas. Relembra balanços já conhecidos de Benjor (O homem da gravata florida e Agora ninguém chora mais
), Novos Baianos (Swing de Campo Grande), Moacir Santos (Nanã) e até resgatando o esquecido Orlandivo (Tamanco no samba
, de onde foi tirado o título do CD).
Com as bênçãos da Santa Joana D'arc que protege a contracapa de seu CD de estréia, Valéria mostrando a voz e as obras, e mistura com esses clássicos samba-rock suas próprias composições, como Soul black, Bem cedo e O que me falta
. É ligar o som e dançar o dia inteiro.
Leia a entrevista exclusiva com a cantora:
ZiriGuidum - No seu CD de estréia você misturou músicas de compositores consagrados e composições próprias seguindo o mesmo estilo. Não teve medo das comparações?
Valeria Sattamini - Acho que as comparações são inevitáveis, ainda mais num disco de estréia. Se a gente se preocupar muito com isso, acaba não ousando. Além do mais, o meu estilo é meio "brazuca" mesmo e essa mistura de samba com outros ritmos me atrai demais. O "Blim" é justamente a lacuna a ser preenchida.
ZG - E como você fez para equilibrar esse repertório, já que traz músicas dos anos 70 e também composições atuais?
VS - O repertório do CD foi escolhido com a intenção de resgatar uma sonoridade característica de uma época bastante fértil da música brasileira, lá por volta do final dos anos 60 e início dos anos 70. Os arranjos foram pensados visando criar uma identidade, alinhavando músicas que a princípio parecem díspares, como no caso das minhas composições em relação às releituras, e mesmo dos clássicos entre si, como por exemplo Nanã e Swing do Campo Grande. A gente tentou se transportar no tempo, como se o CD estivesse sendo produzido naquela época, independente de a música ser antiga ou inédita.
ZG - Mesmo em suas composições a influência do samba rock brasileiro é bem forte. O que você acha do resgate desses artistas dos anos 70 que passaram muito tempo esquecidos no Brasil?
VS - Engraçado que eu sempre gostei desse tipo de música... acho que vem da barriga da minha mãe, pois nasci no início dos anos 70. Sempre tive a mania de ouvir coisas que eu não conhecia, principalmente coisas antigas. Meu pai tem uma coleção enorme de LPs, literalmente uma parede, e eu adorava ficar fuçando e descobrir coisas incríveis do tipo Elza Soares, que eu "conheci" aos 14 anos e que é uma das minhas maiores influências, junto com Jorge Ben (não consigo me acostumar com Benjor!). Daí vocês vêem como a minha paixão por essa "galera" é antiga! E quanto mais eu pesquiso, mais descubro músicas maravilhosas dessa época! Por isso eu só posso aplaudir de pé e agradecer a iniciativa de pessoas como o Charles Gavin, que sem dúvida é um dos principais responsáveis por esse resgate.
ZG - Há alguns anos o brasileiro não aceitava dançar sua própria música. Hoje a situação parece que já mudou um pouco, temos até vários discos de remix. Como você vê essa mudança?
VS - Ironicamente, acho que essa situação mudou por causa da globalização. O brasileiro adora importar modismos e isso de remixar música brasileira começou lá fora mesmo, com os DJs londrinos. Felizmente, os nossos DJs não só pegaram carona nessa onda, como "aditivaram" o movimento... vide Marcelinho DaLua, Marky, Dolores, pra citar apenas os mais famosos.
ZG - Quando você concebeu o disco imaginou que tipo de público queria atingir ou acha que isso é conseqüência?
VS - Acho que é conseqüência, mesmo. É bem interessante ver que na platéia dos meus shows tem pessoas de várias idades, desde as mais jovens, que estão descobrindo esse tipo de música agora, até o pessoal "das antigas", que curte esse som desde aquela época.
ZG - Qual o lugar ideal para apresentar esse show: em uma boate com pista de dança ou em um teatro?
VS - O ideal é o Maracanã ou a Praia de Copacabana no Reveillon!!! Ainda chego lá! Mas falando sério, adoro cantar ao ar livre. Já fiz um show no Parque Lage e foi simplesmente o máximo. Acho que a minha música dá vontade de dançar, mas o show tem um lado performático que também cabe no palco de um teatro. Eu, por exemplo, se estiver num show e me der vontade de dançar, arrumo um cantinho e danço, não importa aonde. Acho que tenho bicho carpinteiro!