Opção por um simples que é atípico
Zeca Baleiro lança novo CD com músicas para tocar no rádio

por Beto Feitosa

A estrada de Zeca Baleiro nunca leva ao lugar-comum. Baladas do asfalto & outros blues, seu quinto trabalho de inéditas, é um disco de carreira, nova parada de uma trajetória repleta de transversais e vias alternativas. Sem pegar atalhos fáceis, sempre com um olho na criação, na novidade.

Um álbum simples, de canções. Nada de 60 músicos e várias participações como foi em Pet shop mundo cão (MZA, 2002). Apenas Zeca Baleiro, a banda e um punhado de boas músicas. A opção por trabalhar assim foi do próprio Zeca. "Se não fosse assim não faria um disco tão cedo", contou em entrevista coletiva.

"Meus discos são sempre multifacetados. Sempre senti vontade de fazer um trabalho que fosse mais centrado em uma banda, acho que isso interfere no resultado, acaba dando uma coesão sonora que acho que meus outros discos não têm", conta lembrando do álbum Líricas (Universal, 2001), também exceção à regra.

Plural, Zeca Baleiro não segue fórmulas na hora de criar. "Eu gosto das duas formas, mas nunca tinha feito um disco assim, com uma banda de cinco músicos que tocam todas as faixas. Esse diferencial dá um calor único. Não tem muita teoria, é só prática: vai fazendo até acertar, achar a forma mais interessante". O resultado é um disco mais solto. Segundo o próprio artista, mais radiofônico.

Zeca conta que o processo de gravação foi divertido, sem pressões e prazos. Ao todo foram dois meses de estúdio. "Tem coisas que a gente fez na madrugada. Coloquei voz às quatro da manhã", se diverte. A pré-produção ficou a cargo dos produtores Walter Costa e Dunga. "Eles deram uma abordagem diferente do que eu daria, ficou mais pop, com canções mais para rádio", analisa. Em sua casa em São Paulo, Zeca gravava as músicas em formato voz e violão e mandava para os produtores no Rio.

"Eu queria mesmo fazer um disco diferente", garante Zeca Baleiro. O mais interessante é que esse "diferente" ao qual ele se refere acaba sendo um projeto mais "comum" dentro do universo musical. Na letra da faixa-título diz "Só eu vejo o mundo com meu olhar", e essa particularidade garante uma discografia singular e rica para Baleiro, recheada de influências e interferências. Um disco de banda e canções é, sim, algo diferente nessa estrada.

O disco é focado em repertório inédito, mas traz duas regravações do próprio autor. "Tem canções que não ouso cantar. Ficam tão associadas às intérpretes que seria ousadia da minha parte", contas Zeca. Não é o caso de Musak, que o autor gravou pela primeira vez, mas já era conhecida com a conterrânea Rita Ribeiro. "Ela descobriu a música e quis gravar antes de mim, assim como foi com Lenha, que eu nem tinha como pronta mas virou minha canção mais popular", conta.

Dentre as inéditas, Zeca já vinha mostrando em seus shows a deliciosa Meu amor minha flor minha menina. O disco também junta um dos parceiros mais antigos de Zeca, Nosly, com Fausto Nilo, dos mais recentes em Versos perdidos. A música encontra a literatura em Mulher amada, poema de Murilo Mendes musicado por Baleiro.

Enquanto lança o CD, Zeca Baleiro também põe na rua, ainda esse mês, o primeiro título dos que produziu para seu selo, Saravá Discos. Para o CD de estréia o cantor musicou poemas de um livro da escritora Hilda Hist. Na seqüência músicas infantis, poemas eróticos e um tributo a Sérgio Sampaio, além de um livro de culinária com receitas do cantor. "Sou melhor como cozinheiro do que como compositor", ri enquanto lembra a época em que morava com Chico César e recebia muitos amigos para jantar pratos batizados como o peixe Vera Fish.

No fim, um artista satisfeito com seu ofício. Em pleno processo de criação, jorrando idéias para todos os lados. Baladas do asfalto & outros blues é apenas um desses caminhos. O tempo de Zeca Baleiro se multiplica e, no fim, ele acaba somando mil facetas a sua estrada principal.

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