Maria Rita além de cobranças
Cercado de expectativas, Segundo fica como um bom CD

por Beto Feitosa

Passado o frisson do lançamento, a tentativa de escândalo dos I-pods, alguns deboches, descasos e muitos elogios, ficou o novo CD da Maria Rita. O segundo trabalho de uma cantora cercada de expectativas. Os olhos de todo mundo em cima, só aguardando para falar, mal ou bem, já se acalmaram.

A luxuosa embalagem do pack que traz o CD e o DVD chama atenção, os comentários despertam curiosidade, mas o que fica é mesmo a música, o trabalho de uma artista praticamente iniciante.

Segundo, CD de Maria Rita lançado há cerca de um mês, não é genial, não é revolucionário. E nem quer ser. Não é um novo disco de Elis Regina, é um segundo trabalho de uma cantora que, por acaso, é filha de um dos maiores mitos da música brasileira.

Sim, a sombra da mãe interfere no trabalho de Maria Rita. Assim como no de todas as cantoras brasileiras surgidas depois dela. Elis Regina é referência de qualidade para várias gerações. Só que Maria Rita traz essa influência em seu código genético. E cresceu ouvindo historias e discos da mãe. A faca de dois gumes é óbvia. E chovem cobranças, e chovem comparações.

Nesse novo CD Maria Rita repete a vitoriosa fórmula de seu álbum de estréia. Escolheu um punhado de boas canções, vestiu com arranjos econômicos e sem grandes intervenções. O destaque é para a cantora, sua voz e sua interpretação.

A produção de Lenine é dividida com Maria Rita. Ponto para ela que já mostra idéias e vontade própria. O DVD extra que traz o making of das gravações revela a dobradinha entre os dois, a troca de sugestões. A cantora pensa e tem opinião, o que é saudável e promissor para sua obra.

Se no disco anterior sobravam músicas de medalhões como Milton Nascimento, Rita Lee e Paulinho Tapajós, dessa vez o olho de Maria Rita está em uma produção contemporânea, de artistas mais próximos de sua geração. Repete bons nomes como o próprio Lenine e seu predileto Marcelo Camelo. Só recorre ao olimpo quando regrava um clássico de Edu Lobo e Chico Buarque, Sobre todas as coisas.

Maria Rita está de olhos virados para os compositores. Descobre o pop evoluído de Moska e encontra Fred Martins, autor de sucessos de Ney Matogrosso e Zélia Duncan. Pesca duas de Rodrigo Maranhão, líder da Bangalafumenga, e regrava A minha alma, do Rappa, depois de ótimas versões de Leila Pinheiro e Vânia Abreu.

Uma das melhores músicas, Conta outra, aparece em faixa bônus ao vivo. A composição de Edu Tedeschi também tem um registro em estúdio, que pode ser baixado pela internet por quem tiver um CD original e sua respectiva senha em mãos. Como a comparação é inevitável, Elis Regina está praticamente presente nessa música.

Maria Rita é cheia de boas realizações. Abre caminho de rádios e mídia para ótimos compositores que estão fora das badalações do mercado. Por isso só já teria marcado um grande gol. Mas sua importância vai além. Em uma época de músicas descartáveis e pobres, Maria Rita movimenta uma indústria com delicadeza e bom gosto. Seu sucesso abre espaço para cantores e compositores que estão bem além da mediocridade que assola as rádios e TVs.

Entre pagodes feitos em laboratório, sertanejos de boutique e batidões coreografados, não dá para desprezar a importância de uma figura como Maria Rita. Se a força do marketing está virada para o lado dela é motivo de comemoração e não de jogar pedras. Longe de expectativas e cobranças, Segundo é um disco pouco ousado, mas saudável e inteligente. Para ser ouvido sem cobranças, apenas como um bom CD de música brasileira.

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