Bethânia domina o palco para comemorar
Show que celebra 40 anos de carreira é lançado em DVD

por Beto Feitosa

Para resumir em uma frase, Maria Bethânia lança seu terceiro DVD em três anos. Pode parecer um exagero, mas qualquer número vai por água pelo tamanho que o sujeito toma na frase. Em pleno apogeu vocal e artístico, Bethânia celebra seus 40 anos de carreira com mais uma obra prima. O público é testemunha.

Esse público que, apaixonado, grita elogios entre uma música e outra. "Está tudo gravado", adverte Bethânia para, soberana, derramar emoção em Bom dia tristeza, inacreditável parceria de Adoniran Barbosa e Vinícius de Moraes. Logo depois Bethânia relembra Olhos nos olhos, canção de Chico Buarque que tornou sua em 1976. Depois dela pouco pode ser dito.

Bethânia toma o palco, mastiga cada palavra interpretando com emoção. Sua apresentação é de uma riqueza única. Se dessa vez não existe o magistral capricho visual de Brasileirinho, seu DVD anterior, há o essencial: uma cantora emocionada como poucas que domina platéia, músicos e preenche todo o ambiente com sua presença forte. Impossível ficar imune.

O show e o DVD são batizados com o verso de uma música de Caetano Veloso, Tempo, tempo, tempo, tempo. O tempo em questão já soma 40 anos de uma carreira que começou no engajado show Opinião e cresceu com a sofisticação de uma cantora popular, por mais contraditório que essas duas palavras possam soar hoje em dia.

O repertório faz um eclético passeio por essa trajetória ao longo de 43 músicas. A releitura de um caminho que parte da forte Carcará, em rápida citação, e chega até a doçura de Vinicius de Moraes, homenageado do mais recente trabalho da cantora. Vai de rocks do repertório de Roberto Carlos (Vem quente que eu estou fervendo, de Carlos Imperial e Eduardo Araújo) ou Raul Seixas e Paulo Coelho (Gita) até o lirismo de Garoto (Gente humilde, em parceria com Chico e Vinicius) e o drama de Maysa (Resposta). O lado popular fica por uma surpreendente interpretação para Vai ficar na saudade, de Benito di Paula. O pop contemporâneo com Um dia pra vadiar, samba de Totonho Villeroy. Maria Bethânia em multifaces de uma artista completa e complexa.

No extra que acompanha o show, Bethânia se despe do papel de diva dona do palco e, à vontade, mostra a intimidade de sua casa, lê trechos de Clarice Lispector, poemas que seu pai gostava e canta acompanhada pelo violão de seu maestro Jaime Alem.

Qualquer exagero em relação a Bethânia é relativo. Entregando sua emoção e recebendo a energia de volta do público, a mágica de um show de Bethânia, sempre com roteiro bem costurado e direção teatral de Bia Lessa, é um momento único. O DVD é um produto da hora mágica que representa, registra e eterniza o tempo. "Estou só começando", avisa Bethânia entre os aplausos de seu público.


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