Marisa Monte em dose dupla
Cantora lança dois CDs ao mesmo tempo

por Beto Feitosa
fotos: Alexandre Moreira

São 15 anos de carreira e cacife para cometer a ousadia que quiser. Marisa Monte sabe disso e, em meio a uma crise histórica da indústria musical, lança 2 CDs ao mesmo tempo. Infinito particular, de sóbria capa preta, traz a produção com as novidades da cantora e compositora, é o conhecido disco de carreira. Já Universo ao meu redor, embalado por cores psicodélicas que remetem ao disco tropicalista de Gal Costa de 1969, é o que costuma ser chamado de um projeto, aqui apresentando sambas antigos e novos, lidos com o mesmo sotaque.

O lançamento de dois trabalhos simultâneos de um mesmo artista não é idéia nova. Já foi utilizado por Caetano Veloso nos anos 70, depois por Jards Macalé e João Bosco. Mas a ousadia de duas super produções com repertório inédito em uma época de poucos riscos e muita pirataria é de impressionar.

Os dois títulos dialogam. Se no Infinito particular, Marisa mergulha no íntimo da própria obra, em O universo ao meu redor ela olha para artistas do passado e do presente e se banha neles para somar influências, experiências e inspiração. Como a comparação é inevitável por se tratar de dois rebentos contemporâneos da mesma artista, o disco de sambas sai na frente com um frescor moderno no melhor dos sentidos.

Marisa, que sempre se interessou, freqüentou rodas e produziu samba, começou a desenhar esse trabalho a partir de entrevistas que fez em sua casa para recuperar músicas que não foram registradas, existem apenas na memória dos autores e seus amigos. Em paralelo, contagiada pelo clima e pelos papos, arriscou composições ao lado dos parceiros tribalistas Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, além de Cezar Mendes e até mesmo o talking head David Byrne. O disco também traz à luz peças inéditas do baú de Paulinho da Viola, Dona Yvonne Lara e Jayme Silva. Marca a estréia de Adriana Calcanhoto no gênero e desencava uma música inédita dos novos baianos Moraes Moreira e Galvão.

As inéditas do passado e as compostas recentemente têm o mesmo tratamento. Apenas ouvindo fica difícil identificar quais são as antigas e as novas, a consulta ao encarte ajuda. Dos anos 40 até os dias de hoje, a linguagem é sempre moderna e mais sofisticada que o padrão Marisa Monte.

Todas as informações diferentes processadas pela produção de Mario Caldato, que também estréia no gênero. A opção por instrumentos pouco comuns ao samba como mini moog, theremin, violino, fagote e harpa enriquecem ainda mais esse trabalho delicado de uma cantora que se aventura no terreno do samba.

Já o tão aguardado Infinito circular, primeiro título de carreira desde 2000, não chega a empolgar tanto. O disco nasceu a partir de uma viagem de Marisa aos seus diários musicais, quando começou o trabalho de digitalizar fitas antigas com trechos e exercícios de composições. Desse baú de canções inacabadas, começou a seleção do novo disco. Por dentro da capa preta passam seus parceiros de ontem e de hoje como Nando Reis, Pedro Baby, Dadi, Leonardo Reis além dos já citados e sempre presentes Arnaldo e Carlinhos.

A grande novidade fica na estréia de Marisa com novos parceiros, como o festejado Seu Jorge, Marcelo Yuka, Marcelo Campelo e Adriana Calcanhoto.

O tom do disco também é suave, "de menina" como define Marisa. É bem diferente de toda sua discografia. As canções pop são tratadas com maior lirismo, o universo é menor e a festejada voz está mais contida. Logo na faixa que batiza o CD, primeira da playlist, Marisa anuncia: "Eis o melhor e o pior de mim" para depois entregar "Eu não sou difícil de ler, faça sua parte".

Pela primeira vez Marisa Monte investe em um trabalho todo autoral. Em um país com compositoras atuantes como Rita Lee, Sueli Costa, Joyce e Fátima Guedes, a produção de Marisa Monte não está entre as melhores, mas suas realizações sempre são carregadas de competência. O produto final se garante. Baladas como Até parece têm espaço garantido nas paradas de sucesso e não comprometem a qualidade.

O encontro dos dois discos promete acontecer nos palcos em uma turnê que começa no final de abril em Curitiba, passa por Porto Alegre para chegar em São Paulo em maio e no Rio apenas em julho, depois da folia do futebol. Entre 5 de setembro e 15 de outubro, Marisa Monte mostra os dois discos nos palcos europeus e, em novembro, cumpre agenda nos EUA.

Se os caminhos que a turnê promete já impressionam, a ousadia do presente em lançar dois discos simultâneos também não fica restrita ao Brasil. Os álbuns já estão nas lojas de Portugal, Espanha, México, Chile, Argentina e Colômbia. Em abril são lançados em mais 38 países da Europa e, em agosto, é a vez do Tio Sam conhece as novas batucadas de Marisa.

O risco dos lançamentos que a princípio podem parecer megalomaníacos, já tem uma resposta positiva e impressionante. Senhora absoluta de sua carreira, Marisa Monte tem sensibilidade e sabedoria para fazer a coisa certa. O carisma contagia o público, a inteligência que sabe o que, como e quando fazer a coisa certa. Se nem sempre o produto artístico é dos mais festejados, o conteúdo agrada em cheio a seu enorme público e contagia. O que se pode definir como uma carreira bem sucedida.


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