Maestro erudito mostra especiarias brasileiras
Flávio Chamis troca grandes orquestras por samba e jazz em Especiaria

por Beto Feitosa

Maestro respeitado e com carreira consolidada na música erudita, Flávio Chamis mostra suas inserções na seara popular no CD Especiaria, lançado pela Biscoito Fino.

Por mais que sejam freqüentes, essas aventuras populares de nossos maestros poucas vezes rendem trabalhos honestos e inspirados. As especiarias de Chamis felizmente são dessas exceções que confirmam que não há regras. Até pela história pouco comum de sua biografia. Aos 19 anos descobriu o violão. Largou a faculdade de engenharia e formou-se em Regência Orquestral na Alemanha. Sem nunca ter assistido uma grande orquestra, foi a uma apresentação da Flirmônica de Viena. Não só conheceu a maior do mundo, como também assumiu o cargo de assistente do maestro Leonardo Bernstein, com quem trabalhou em inúmeros projetos.

Especiaria foi gravado em 2003 repleto de participações. Para as seis faixas cantadas do disco, convidou Joyce, que dá balanço especial. Especialista em molho musical, foi ela quem alertou que o disco pendia exageradamente para músicas lentas e sérias. O resultado foi que, cinco dias antes das gravações, Flávio compôs a deliciosa faixa-título, sem dúvida dos melhores momentos do disco. A divertida letra brinca com Pedro Álvares Cabral: "Por um temperinho pro seu bacalhau / Pôs-se em sua nau e descobriu o Brasil".

Flávio Chamis também brinca com Tom Jobim e seu Samba de uma nota só em Two note samba. "A música reproduz a mesma forma da canção de Jobim, acrescida de uma introdução, porém com a melodia principal construída exclusivamente sobre duas notas ao invés de uma", explica em nota no encarte do disco. Quem ouvir com atenção vai perceber várias referências ao maestro.

Com clima de bossa apimentada, E daí? quebra regras de composição em favor de uma música mais solta e criativa. Chamis passeia entre o samba e o jazz com desenvoltura. O tempero brasileiro ganha ajuda da percussão de Tutty Moreno. Samba para quem sabe, como garante o título de uma das canções de Chamis, outro destaque do repertório. "Aparentemente simples, essa música tem na realidade uma forma simétrica sofisticada, imperceptivelmente passando por cinco tonalidades", entrega.

Flávio vai mais atrás na história da música brasileira em Modinha fora do tempo. Além de ter nascido um século depois da popularização da modinha, o compositor manteve a referência mas experimentou um novo compasso em sua composição. A mistura continua na faixa seguinte, Qual o quê, classificada pelo compositor como "samba-bossa-pop".

O molho brasileiro não é forçado. As composições de Flávio Chamis têm a sofisticação de seus conhecimentos eruditos, mas o coração é totalmente popular. Balanceando momentos densos e sambas cadenciados, Chamis soma informações e tendências em um trabalho que aproxima mundos diferentes e funde tudo em favor da música.


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