Crônicas de um Brasil urbano
Novo CD de Edvaldo Santana traz realidade para dançar

por Beto Feitosa

O quinto CD de Edvaldo Santana se chama Reserva de alegria. Mas nada daquele sorriso aberto e frouxo de quem quer esquecer os problemas. Edvaldo faz seu ouvinte dançar e refletir sobre o dia-a-dia.

As letras trazem reflexões urbanas que o cidadão se depara todos os dias. Fome, violência, miséria e desemprego passam pelas composições. Mas nada para baixo, triste. Espécie de faixa-chave para se entender o CD, Edvaldo pergunta: Quem é que não quer ser feliz. A bem azeitada salsa revela o desejo comum de "andar por aí sorrindo adoidado" ou "andar por aí desencanado".

A poesia de Edvaldo Santana não procura o banal, mas nem por isso perde seu lado popular. Vestida de xotes e baiões prontos para um bate-coxa reflexivo, sua música é direcionada ao mesmo tempo para o povo e para o intelectual analisar. "Para produzir esse trabalho levei em conta o que o meu coração dizia e procurei retratar os sentimentos de humildade, solidariedade e amizade do povo e do lugar de onde eu venho: a periferia", explica o artista. Ao longo do CD passam influências como Tom Zé e ecos de Jorge Mautner. Tropicália e Lira Paulistana se encontram em um filho legítimo e livre.

A realidade grita. "Não deu na TV, nem deu no jornal / Não foi pra cadeia, nem pro hospital / Não teve caixão, não teve funeral / E tem muita gente que acha normal", denuncia em Chacina, parceria com Arnaldo Antunes que ganhou participação especial do rapper Thaíde. As manchetes dos noticiários ganham um lado mais humano: "Olha para a filha e bate o desespero / A fome é um bicho que mata primeiro", alerta em Desemprego.

Com os olhos no mundo, também traduz seu sentimento em relação à guerra. Em Raios do oriente médio convidou Chico César para perguntar "Será que só com a dor / Que a gente é capaz de lembrar da paz".

A primeira música, Na trilha do tesouro, flagra influência de Raul Seixas, que também está presente na história. Outros personagens conhecidos passam pela letra como Santos Dummont, Luiz Gonzaga, Grande Otelo, Itamar Assumpção, Paulo Leminski entre outros nomes.

O encarte é ilustrado com bonecos de marionete criados pelo artista Sálvio Santana. São personagens populares como aqueles que passam pelas músicas: indignados, com a boca no mundo para gritar as injustiças e a crueldade dos grandes centros urbanos. "Tá difícil ler jornal", garante no blues/sertanejo Abelha e pardal.

"O conhecimento que provém da leitura precisa da vida para se revelar". Cheio de ótimas frases com efeito, Edvaldo Santana consegue unir dois lados. Alegria e reflexão andam juntas em sua música. Reserva de alegria é otimista mas não traz o riso gratuito. Sua música traz reflexão e indignação, de maneira leve e acessível para todos. Taí uma grande crônica musical.


Edvaldo Santana
entrevista no programa Tons do Brasil.



matéria anterior:
  • Fernanda Takai fala sobre o Pato Fu, internet e mercado de música no Brasil
    ÚLTIMOS LANÇAMENTOS