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Thaís Gulin impressiona em estréiaPrimeiro CD da cantora curitibana é resultado bem sucedido de pesquisas e experiências por Beto Feitosa
Poucas estréias conseguem ser tão perfeitas e impactantes. O primeiro CD da cantora curitibana Thaís Gulin, batizado com seu nome, é desses raros casos. A voz bem colocada se casa com a interpretação segura e um repertório que não segue fórmulas, mas encontra uma alquimia especial. O CD, pela gravadora carioca Rob Digital, é a grande surpresa depois das ressacas dos grandes lançamentos de fim de ano.
Sem se prender a rótulos e movimentos, Thaís mistura Nelson Sargento e Arrigo Barnabé, passando por Chico Buarque, Zé Ramalho, Zeca Baleiro e Otto. A unidade é encontrada por uma cantora que mostra habilidade especial para interpretar obras tão distintas. Mas nem de longe passa pelo rótulo genérico das cantoras ecléticas. Aqui a personalidade artística está em primeiro plano.
Resultado de três anos de pesquisas e experiências, não é dos trabalhos mais rápidos de se digerir. Thaís merece mais do que uma audição, o trabalho pede sucessivas repetições. Por fugir do lugar-comum o primeiro susto de felicidade é ampliado com o tempo. "Neste disco não há nada mastigado", garante Thaís. "Um dos seus pontos fortes é a possibilidade que ele dá para cada pessoa entendê-lo da sua maneira". O produto merece atenção, a cantora merece aplausos.
Thaís abre seu disco com Garoto de aluguel, pérola de Zé Ramalho contemporânea de Frevo mulher. Forte e decidida mostra a que veio logo de cara, seguindo por uma corajosa descoberta das filhas da vanguarda. Piano (ofício fatídico), de Iara Rennó e Anelis Assumpção, tem clima de rock com várias referências e citações que torna divertida a história com clima de terror. "Lá em cima do piano tinha um copo de veneno / Quem achou bebeu, não compreendeu".
A vanguarda parece agradar a cantora, mas a tradição também ganha a voz de Thaís, reprocessando com elegante ar moderno Bloco da solidão, de Jair Amorim e Evaldo Gouveia. Ou ainda na descoberta de um delicioso samba de Nelson Sargento, De boteco em boteco.
Chico Buarque aparece na pouco conhecida Lua cheia, parceria com Toquinho que a cantora traz da infância, e a forte e cheia de climas Hino de Duran, original do repertório da Ópera do malandro. As duas músicas são tão distintas que mal parecem escritas pela mesma pessoa, mas ganham coerência dentro do álbum de adjetivos plurais.
Cuidadosa com a seleção do repertório alheio, Thaís parece ter o mesmo controle de qualidade com suas composições. Em seu disco de estréia apresenta apenas duas. Cinema incompleto é assinada em parceria com Arrigo Barnabé. Prova a segurança da cantora que, em sua apresentação, já procura o som nada convencional do compositor conterrâneo. Thaís volta a assinar outra faixa, A vida da outra (dela) ou eu, ótima história para melodia de Rogério Guimarães que marcou a estréia de Thaís escrevendo letras.
Ousada e corajosa, Thaís Gulin consegue prender atenção por um trabalho cheio de nobres qualidades. Se o mercado aponta para o bocejante caminho das cópias em série, Thaís consegue fugir do esquemão e chamar atenção pelo inusitado e surpreendente. Poucas estréias conseguem ser tão perfeitas e impactantes.
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