|
|
Tereza Pineschi põe o grammophone em usoCantora pesquisa lundus, maxixes e polcas inéditas e mostra as origens do samba por Beto Feitosa
A capa colorida e o simpático título O teu grammophone é bão... já chamam atenção. O primeiro CD da cantora Tereza Pineschi, lançado pelo selo Pôr do Som em parceria com a gravadora Atração, vai além da boa apresentação quando junta uma seleção de lundus, maxixes e polcas nunca antes registradas.
Tereza faz um pequeno tratado sobre a pré-história do samba. Focando quase um século de música brasileira (entre 1830 e 1910), a cantora mostra uma pesquisa de incrível valor artístico e documental. Todas as músicas são registradas pela primeira vez.
Os arranjos foram construídos a partir das partituras originais. Esse delicado trabalho coube a Carlos Almada, que adaptou as originais leituras de piano para um conjunto de flauta, bandolim, baixo, violão e percussão. Sempre com a preocupação de ser fiel aos registros originais, Carlos encontrou o casamento perfeito com a bem educada voz de Tereza e traz para a luz pérolas esquecidas nos arquivos e na memória de poucos.
A pesquisa nasceu a partir do livro Feitiço decente, de Carlos Sandroni. Tereza percebeu ali a oportunidade de registrar um trabalho particular e único. "Sempre tive interesse em pesquisar o cancioneiro nacional e internacional para montar um repertório eclético e fora do comum, pois nunca me atraiu a idéia de cantar o que já é muito cantado", explica a cantora. "A cada momento aquelas partituras ganhavam vida e nos encantavam. Num ambiente descontraído, fomos revelando um pouco mais das raízes da música popular brasileira", gaba-se com toda propriedade.
A própria biografia de Tereza foge desse lugar comum. Bióloga profissional, há 20 anos transformou em profissão o prazer de cantar, que tinha desde criança. Percorrendo circuito de bares e teatros em Niterói, sua cidade natal, Rio e São Paulo, já cantou as divas do jazz e os clássicos do samba até apaixonar-se por esse repertório totalmente oculto.
A malícia passa a ser inocente se visto em tempos em que a sutileza não está mais na moda. Está presente em vários momentos, como na faixa título: "Eu queria passá uma noite a ouvir o grammophone tocá". Ou em A marrequinha de Iáiá, polca que abre o disco: "Iáiá me deixe / Ver a marreca / Se não eu morro / Leva-me à breca / Se não eu morro".
O encarte traz as letras, com o cuidado de preservar a grafia da época. Ainda inclui notas explicativas sobre os ritmos apresentados e ilustrações das festas e reuniões populares.
Além de musicalmente muito interessante, o CD de Tereza Pineschi é uma divertida aula de arqueologia artística. A descoberta de pérolas inéditas é fruto de um trabalho dedicado e apaixonado. O resultado é um emocionante panorama de uma época e o foco sobre ritmos injustamente esquecidos, mas essenciais para a existência do que hoje costuma-se conhecer como música popular brasileira.
|
| ÚLTIMOS LANÇAMENTOS |