Outros carnavais da Orquestra Imperial
Grupo carioca chega ao primeiro disco com repertório inédito

por Beto Feitosa

Há alguns anos a Orquestra Imperial faz parte do Rio e de sua programação. A grande reunião de artistas já movimentou espaços como o Canecão, o extinto Ballroom e hoje em dia leva seu público para sessões de dança no Circo Voador.

A receita do grupo é simples. Nasceu como um encontro entre músicos tocando por prazer, fazendo um caprichado som de gafieira em cima de sambas antigos. A farra sonora tomou vultos de uma grande orquestra e, de cara, conquistou seu público.

Isso foi há mais de cinco anos. Desde então a história só tem feito crescer. E, junto, a cobrança por um disco da Orquestra. Mas a dificuldade de conciliar as agendas sempre adiou o sonho. Ele nasce agora mas, ao contrário do que o público poderia esperar, não traz o repertório clássico das apresentações. E, sim, aposta em um set list inédito, composto por seus membros. Algumas músicas já não conhecidas dos freqüentadores assíduos dos bailes.

Nem de longe é ruim, uma vez que traz compositores de talento como Kassin, Moreno Veloso, Domenico, Nelson Jacobina, Wilson das Neves entre outros. Mas pode causar decepção. Quem for atrás da farra sonora que anima os bailes da Orquestra, vai dar de cara com um disco mais calmo, com a obra de uma turma criativa e que ousa experimentar - e aí estão incluídos grandes nomes da nova geração. Extremamente bem produzido em tempo recorde de 15 dias de gravações, o CD funciona mais como um grande encontro da obra de seus integrantes do que como, propriamente, um disco da Orquestra Imperial conhecida pelo público. O próprio título do disco pode dar essa dica: Carnaval só no ano que vem.

Mas o disco tem muitos méritos, e os fãs da Orquestra vão apreciar. O repertório esbarra no samba de pista, como em Yarusha Djaruba, que mistura música latina com vocais à la Blitz. Ou num samba clássico como Salamaleque, nas maracas de Ela rebola e também no bom humor da carnavalesca Ereção, capaz de corar a tradicional sociedade conservadora sem parar a festa. A voz doce de Thalma de Freitas é destaque em Não foi em vão. O carnaval rock-tropicalista aparece em Supermercado de amor, com o vocal de uma Nina Becker que lembra os melhores momentos de Gal Costa em duo com a guitarra de Lanny Gordin. Saudade reprocessada com direito a discurso de Jorge Mautner.

A tradição está impregnada na inspiração, que flerta com a produção de músicos contemporâneos. Aqui a Orquestra chega a disco não como um registro de seus bailes, mas como uma célula criativa e seu primeiro retrato. O produto é novo e a brincadeira de músicos passa a ser tratada como carreira séria. A Orquestra Imperial renasce criando, renasce nova. A obra coletiva segue o som, mas dá passos para frente e para o lado por fugir do esquema de regravações.

A edição japonesa do disco traz um pouco mais do baile, com quatro faixas de regravações das marchinhas que fizeram a fama da Orquestra como Sem compromisso e Me deixa em paz. Esse bônus chegou aqui com um EP que era vendido a preço simbólico nas apresentações. Mas, infelizmente, ficou de fora do disco.

A Orquestra Imperial continua no palco, com 19 integrantes e constantes visitas. Fazendo sua festa, atraindo um público cada vez maior e já entre as atrações turísticas de um Rio cult. O souvenir está à venda, mas a paisagem sonora é outra. Por hora, a tradicional festa da Orquestra, só ao vivo.


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