Fernanda Cunha e Zé Carlos visitam obra de Tom e Chico
Em disco intimista e acústico dupla relê grandes parcerias dos compositores

por Beto Feitosa

No ano em que completaria 80 anos Tom Jobim recebe uma série de homenagens. A cantora Fernanda Cunha não quis ficar de fora da festa e se juntou ao exímio violonista Zé Carlos para reler Jobim em um CD intimista batizado de Zíngaro, lançado pela Cid. Dentre milhões de caminhos que permitem a rica obra do compositor, Fernanda Cunha e Zé Carlos se debruçam sob a parceria do maestro soberano com outra unanimidade inteligente, Chico Buarque.

Dentre a vasta coleção de parcerias Tom+Chico, Fernanda e Zé Carlos selecionaram dez músicas. A grande maioria é de clássicos absolutos da música brasileira, mas há também espaço para músicas menos lembradas como A violeira, Olha Maria e Meninos eu vi.

Fernanda Cunha se sai bem no maior desafio: retomar músicas que foram magistralmente imortalizadas por Elis Regina como Pois é e Retrato em branco e preto. Mesmo que essas músicas tenham milhares de regravações, é sempre a voz de Elis a mais lembrada. Fernanda não se intimida diante do tamanho do mito e encontra seu próprio caminho. O mesmo acontece com outras músicas do disco que já tiveram versões marcantes como Anos dourados com Maria Bathânia e incontáveis interpretações magistrais de Sabiá, como as do Quarteto em Cy, Elizeth Cardoso, Clara Nunes e Gal Costa. Com coragem e inteligência, Fernanda se estabelece encontrando seu caminho longe das comparações.

O disco ainda reserva para a cantora um desafio maior. Fernanda volta a Eu te amo, música que ficou famosa no dueto de sua mãe, a cantora Telma Costa, com o autor Chico Buarque nos anos 80. Juntando a emoção natural de cantar uma obra prima com a inevitável referência familiar Fernanda se sai bem mais uma vez. Emocionada como pede a música que conhece tão bem.

O violão criativo de Zé Carlos também é destaque em vários momentos. Um exemplo pode ser pinçado em Retrato em branco e preto (cujo título original em italiano batiza o disco), quando o músico casa seu instrumento com a interpretação da cantora em perfeita sintonia. Momentos de brilho são divididos entre os dois artistas, reforçando o conceito de parceria do disco.

Com a grande quantidade de tributos a Jobim as músicas, mesmos as menos badaladas, vão se repetindo. Mas a incrível riqueza de sua obra permite ainda releituras emocionantes e com vigor. Como é bom ouvir Jobim. Fernanda Cunha e Zé Carlos sabem disso, e mostram um álbum de sábia delicadeza e incrível frescor. Como sua arte sempre está entre nós, aos 80 Jobim ainda permite suspiros e sonhos renovados.


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