Maurício Pereira de São Paulo pra Marte
Novo disco do cantor traz crônicas urbanas em repertório autoral

por Beto Feitosa

Maurício Pereira está de volta com Pra Marte, seu novo CD de inéditas. Totalmente autoral, o disco despeja suas composições acumuladas desde 1998, quando lançou a última coleção de músicas inéditas. Em 2003 o artista promoveu um bailão bem ao seu estilo com o divertido Canções que um dia você já assobiou. Assim como os anteriores, o novo CD tem lançamento da Lua Music.

Figuraça inclassificável, nenhum rótulo lhe cabe. Sua música é inconfundível. Cronista urbano da capital paulista, Maurício se comunica de maneira peculiar com o interlocutor. A música é bem elaborada sem se prender a estilos, investe na criação. Suas letras trazem achados impagáveis. "É a primeira vez / Que eu só vejo você em todo canto / Segundo meu oculista / Não há problemas à vista", dispara na apaixonada Um tango, aqui dançado no ar.

O grande destaque é um causo musicado. Com uma brejeirice mineira, A loira do Caravan narra uma história que, jura o contador, aconteceu em uma estrada do interior de São Paulo. Na melhor tradição dos contadores de causos, tem testemunha. E quem é que vai duvidar depois de ouvir essa delícia?

A comunicação de Maurício é direta com as crianças. Mas não pensem aí em uma Xuxa de calças ou numa tia contando os dedinhos. Maurício fala com a garotada estimulando a criatividade, e não tratando com as onomatopéias vazias e fácies. Em duas ocasiões ele entra no universo infantil, com a rara qualidade de não duvidar da inteligência e capacidade de seu público.

Primeiro em Responde Visconde ("música infantil pra adultos", segundo sua própria definição). Trata-se de uma homenagem ao Visconde de Sabugosa, clássico personagem de Monteiro Lobato. Ainda volta a criançada em O dourado, feita sob encomenda para "um livro/disco infantil ou algo assim. Que não rolou", explica. Ex-companheiro de Maurício na dupla Os Mulheres Negras, André Abujamra divide em terça essa moda de viola. "Vocês sabem que pra cantar uma moda os cantores têm de ser, no mínimo, irmãos", declara Maurício no release distribuído para a imprensa.

Nada acontece por acaso, e as participações são bem colocadas. O amigo Skowa, paulistano como Maurício, divide os vocais de Motoboy, girassóis, etc e tal, crônica de uma pessoa que anda por São Paulo observando seu movimento e suas pessoas. Já Alice Ruiz vem de um namoro artístico recente. "A gente tem se cruzado sempre por aí", conta. "Amei o timing, o trato com a palavra falada, o universo expressivo que ela abria falando poesia. Foi pá-pum: ela chegou, olhou, leu. Quando a gente viu, já tava pronto, já tinha aquele raio de luz no meio do Penhasco", explica o artista no release. Esse texto, aliás, enriquece o disco e deveria mesmo vir encartado na edição comercial.

As crônicas paulistanas de Maurício Pereira podem viajar para qualquer grande capital. Quem sabe até um retrato de nossa sociedade para ser enviado, justamente, para Marte. O disco é rico de informações e dá asas a mil interpretações, muitas pautas no jargão da imprensa. Maurício Pereira é dos artistas mais criativos e ricos em atividade. Sua arte é desse tipo que vive à margem das grandes FMs. Um disco de Maurício é como um livro, com início, meio, fim e por quê. E porque não? Ele sabe.


Pra você, e eu e todo mundo cantar junto



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