"Um encontro de duas mulheres"
A suavidade que une Maria Bethânia e Omara Portuondo em CD e show

por Beto Feitosa
conteúdo relacionado
ouça  o CD na íntegra veja aqui fotos do show comente aqui o CD BUSCA: Maria Bethânia em  Ziriguidum clique aqui para comprar o CD clique aqui para comprar o CD+DVD

Sobre seu encontro com a cantora cubana Omara Portuondo, Maria Bethânia faz questão de deixar claro: "É um encontro de duas mulheres, cantando sua música, seu povo. Reverenciando um país ao outro e reverenciando a música". As raízes africanas e o encantamento pelas duas culturas também entram na pauta. Asim fica claro: é um encontro cultural, relações políticas não são necessárias. O CD que une as duas cantoras chega ao mercado pela Biscoito Fino, com direito também a uma edição especial que agrega um DVD que documenta os bastidores das gravações.

Mesmo alegando uma certa preocupação com os ensaios, as duas receberam imprensa na sede da gravadora, no Rio, para apresentar o trabalho. "Por mim sempre teria mais ensaio", entrega a perfeccionista Bethânia. Logo depois deixa transparecer que a obsessão nesse caso vai além do ato de montar o show, agrega emoção, item básico para mover as duas cantoras. "Dona Omara me faz chorar a cada ensaio", entrega Bethânia.

O show estréia dia 7 de março no Canecão (Rio) e depois segue extensa turnê. O cenário traz a assinatura de Gringo Cardia. Além disso Bethânia acrescenta apenas poucas pistas, contando que vai mostrar Doce, composição inédita de Roque Ferreira e uma releitura para Havana-me, delícia de Joyce e Paulo César Pinheiro que ganha uma nova parte da letra especialmente para o show.

Para cumprir a agenda, Dona Omara fica no Brasil até junho. Bethânia aproveita para recomendar novos artistas a ela, e aponta nomes como Arnaldo Antunes, Ana Carolina, Vanessa da Mata, Lenine e Chico César. "Ela vai adorar, vai curtir muito!", garante. A cubana, que há uma semana assistiu uma apresentação de Mart'nália, devolve a gentileza mostrando a música contemporânea de seu país.

Mas para o trabalho em que dividem o repertório escolhido foca na década de 50. "Ela estava no bolero e eu em Dolores Duran", compara Bethânia sobre o que tocava os dois países. "Poderíamos ter feito com as canções mais conhecidas de Brasil e de Cuba. Mas quisemos fazer com nossa assinatura", explica Bethânia grifando sempre o adjetivo "suave" para definir o disco.

Apesar de uma extensa pesquisa levantada por Rodrigo Faour e Mozá Menezes, as artistas garantem que o repertório fluiu nos encontros para a gravação. Como a junção do bolero Palabras com as Palavras, de Gonzaguinha em uma única faixa. "Gravar Gonzaguinha pra mim é motivo de alegria, mas eu tenho feito pouco", confessa Bethânia acrescentando elogios para a gravação de Nana Caymmi da música.

Bethânia e Omara dialogam no disco. A cubana abre com uma versão informal para Lacho, canção de ninar que fez Bethânia responder com Menino grande, de Antonio Maria. Um dos momentos mais belos junta as duas na delicada Você (gravada por Nara Leão como Penas do tié), de Hekel Tavares e Nair Mesquita.

A vontade de Omara em cantar com Bethânia existe desde 1986, quando a brasileira fez sua única viagem a Cuba para dois shows. Na platéia Omara se impressionou com a presença e a força da cantora brasileira. "Levei um choque de verdade quando entrei", confessa Bethânia arrancando risos. A cantora conta que a apresentação era em um festival e, antes de sua entrada, um grupo de mulheres cantou equilibrando copos de água na cabeça. Com o chão molhado, Bethânia entrou descalça no palco e quase foi parar na platéia.

"Ela tem uma voz que me estremece, tão sincera que me apaixona", derrama Omara que, em uma turnê pelo Brasil em 2005 manifestou a vontade de conhecer Bethânia. O encontro se deu no hotel e a partir dali foi firmada a amizade e a proposta de dividir um disco. Janeiro de 2007: gravado de forma totalmente sigilosa no estúdio da gravadora Biscoito Fino, no Rio, chega ao público um ano depois. "A agenda das duas é muito complicada", explica Kati Almeida Braga, dona da gravadora, durante a entrevista.

As duas são só elogios. "Uma das melhores coisas que aconteceu na minha vida foi cantar com Maria Bethânia", declara Omara. "Imagina para mim", retribui Bethânia. O show que une as cantoras não tem direção. Tem apresentações individuais e em conjunto. Para valorizar os duetos Bethânia encomendou versões em espanhol de músicas como Cio da Terra e Gente humilde. "Não vamos ter a barreira da língua", explica.

Barreira, aliás, é palavra que não entra nesse trabalho. Um encontro harmônico de mulheres com culturas diferentes, mas próximas. Cada vez mais próximas. Um disco coeso, belíssimo. Momento inspirado para as duas. Suave, inevitável fugir.


matéria anterior:
  • A sucata e a viola
    ÚLTIMOS LANÇAMENTOS