Cida Moreira canta Cartola além dos sucessos
Homenagem ao centenário do mestre revela músicas menos conhecidas

por Beto Feitosa
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O centenário de Cartola está sendo comemorado com ótimos lançamentos de CDs. O compositor de Mangueira recebe agora a homenagem da cantora paulistana Cida Moreira, que lança o aguardado álbum Angenor, pela Lua Music. Ao invés de se prender aos grandes sucessos de sempre, Cida entrelaça composições menos conhecidas, mas de igual quilate.

Subestimada em um mercado que procura o sucesso fácil e descartável, Cida Moreira é uma das artistas essenciais para a música brasileira moderna. No ramo das homenagens, a cantora também já fez um belíssimo álbum dedicado a Chico Buarque. Conseguiu a proeza de se destacar entre dezenas de outros lançamentos. O fato se repete agora, na hora de comemorar o centenário de Cartola.

O compositor vem recebendo diversas merecidas homenagens no ano redondo. Em se tratando de uma obra tão rica natural que surjam grandes idéias e memoráveis trabalhos relendo suas músicas. Mais uma vez Cida Moreira consegue se impor com um resultado muito acima de qualquer média. "Cantei com uma simplicidade desconhecida em mim, pelo impacto da beleza de sua obra", revela a cantora se colocando em lugar de aprendiz do mestre. Mas o álbum Angenor prova mais uma vez que Cida tem muito para ensinar.

Cida tem um traço de interpretação cheio de personalidade e inteligentíssimo. Pelo filtro de seu canto podem passar modinhas brasileiras do início do século passado ou uma regravação de Brecht. Pode ser em clássicos do jazz ou nos sambas de Cartola. Tudo ganha ares de Cida e a nobreza de sua interpretação.

Do Morro da Mangueira, na zona norte carioca, para o corre-corre paulistano, Cida trouxe para o disco a boêmia dos sambas de Cartola, uma poesia sofisticada do homem do povo, as melodias elegantes do sambista genial, que Cida chegou a conhecer em final de vida.

O critério para seleção do repertório não se prende ao que foi sucesso. Cida Moreira sublima regras e rankings de mercado (novamente a arte acima da indústria) e segue seu gosto pessoal. Assim ao lado de grandes clássicos até hoje cantados, ela descobre grandes canções para trazer frescor ao repertório. Cida revela belíssimas composições além do lugar-comum como Feriado na roça, Nós dois, O silêncio do cipreste, Senões e Na manhã que chegou, que abre o disco.

Mesmo nos clássicos existe a marca da artista. Cida traz seu lado atriz para a marcante interpretação de O mundo é um moinho, acompanhada apenas pelo violão de Camilo Carrara. A gravação é dessas antológicas de prender atenção do ouvinte e merecer diversas repetições. Entre os eternos sucessos de Cartola também aparecem Acontece, Cordas de aço, Alvorada, Autonomia e uma belíssima dobradinha de Cida com o piano de Keco Brandão em Peito vazio.

Mesmo não sendo do samba, Cida tem o dom de entender o que canta. No caso de Cartola ela sabe como pode Mangueira cantar, e o fez com maestria. Um disco de música brasileira atemporal, sério candidato a listar entre os melhores do ano (os inevitáveis rankings do mercado). Angenor é uma obra-prima, jóia produzida com brilho suficiente para ser lembrada nos próximos centenários de Cartola.


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