O som múltiplo de Andreia Dias
Primeiro álbum solo da cantora desfila informações com cara própria

por Beto Feitosa
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De cara dá pra perceber que foge do comum. O primeiro álbum solo de Andreia Dias, curiosamente batizado como Vol. 1, tem essa linha evolutiva de uma música brasileira pop temperada por influências e referências mil mas com rosto próprio. O álbum está sendo lançado pelo selo Scubiudu com distribuição da Tratore.

Ela é capaz de dizer, brincando, "Espero ser uma pessoa quase sã / Pra nunca ter que conhecer o Diazepam". Andréia traz bom humor em suas composições. A comédia não é barata, é dessas estimuladoras de neurônio que fazem pensar e prestar atenção. Musicalmente a liga pode fazer com um samba, um tango ou com o rock. Andreia é neta do Tropicalismo, filha da Lira Paulistana. Claro que irmã da Dona Zica, banda bacana de São Paulo que junta nomes como Anelis Assumpção, Iara Rennó além da própria Andreia Dias.

Só mesmo com esse DNA para se ousar a ótima letra da debochada Homem: "Seu desejo secreto é me ver no necrotério / Branca como a neve / Bela adormecida esquecida". Toda poesia chocante embalada por um tango eletrônico recheado de guitarras distorcidas. Assim é o som de Andréia Dias, inexplicável, inclassificável. E corajoso no samba latino Seu retrato: "Ai que gostoso esse seu orgasmo". "Foi no Crepúsculo que perdi todo escrúpulo", canta e confirma a (falta de) tese.

A interpretação de Andreia pode esbarrar num certo ar de Carmen Miranda, que chega paranóica em Vampiro tupiniquim. Desse pós modernismo urbano nem o rock nervoso escapa. Da brazilian bombshell pula para algum beco dark dos anos oitenta no centro de São Paulo em Veia urbana. Inocentes, Garotos Podres encontrados a tempo, antes de cair de volta no samba Madrugada, que tem a ilustre participação de Osvaldinho da Cuíca e inserções de um coro feminino, das jovens pastoras vanguardistas.

Primeira faixa do disco, Asas já deixa claro tudo que vai seguir. Andreia confessa que é uma resposta a Paulinho da Viola e suas Memórias conjugais. "Sei que minhas asas não são só belas / Sim, eu tenho asas e prefiro abri-las", anuncia já em pleno vôo. Quando dá as cartas a viagem já começou e não é para deixar nada parado em seu lugar.

Andreia é da turma que mistura e experimenta em busca de sua própria linguagem. Tem as influências, mas trata tudo num liquidificador criativo para, antropofagicamente, devolver com sua própria cara. Enquanto o país pausa para reouvir os 50 anos de bossa nova, Andreia traz a boa novidade. Se é Vol.1 sinal de que vem mais por aí.


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