Jards Macalé canta guiado pelo prazer
Novo CD do artista junta músicas que ele quis gravar

por Beto Feitosa
conteúdo relacionado
comente aqui BUSCA: Jards Macalé em  Ziriguidum clique aqui para comprar o CD
 Visite o perfil na comunidade MPB.comjardsmacale

Um disco sem idéia, nem projeto ou conceito, apenas a vontade do artista de gravar o que quiser. Simples assim. Macao, novo trabalho de Jards Macalé, nasceu voz e violão. Depois ganhou acompanhamento de luxo nas mãos de Cristóvão Bastos. Tudo muito natural, guiado pela espontaneidade. Tão à vontade que podem até aparecer alguns ruídos da gravação no estúdio.

Descomplicado, o disco não conta história e nem junta músicas com uma determinada idéia. Não deixa de ser ousado, ainda mais se tratando de Jards Macalé. O que pode parecer simples e natural, vindo dele é um movimento inesperado. Seus últimos trabalhos focam repertório escolhido a partir de uma idéia. Teve o CD com suas parcerias com Wally Salomão, teve aquele que juntou amor com ordem e progresso. Aqui tem, simplesmente, o que ele quis.

O curioso título já é uma dica: Macao é o apelido pelo qual os amigos o chamam. Então o disco entra na intimidade de Macalé, como se ele estivesse cantando em uma roda de amigos à vontade. Nesse repertório Macalé relê a própria obra e passeio por alguns sucessos alheios.

Jards Macalé abre o CD com Farinha do desprezo, parceria com Capinam. A música é resgatada da primeira faixa de seu primeiro LP, de 1973. Seguem outros mergulhos na própria obra como a ótima Boneca semiótica, de 75. Essa foge do caráter acústico do disco e abre espaço para a eletrônica e samplers da versão original, com orquestra conduzida por Wagner Tiso. The archaic lonely star blues, gravada por uma endiabrada Gal Costa em 1970, volta com maquiagem de bossa nova para a letra tropicalista.

A viagem sem rumo de Jards Macalé acabou também revelando algumas inéditas da gaveta. Caso de O engenho de dentro que estava apenas rabiscada. Macalé convidou Abel Silva a retomar a parceria e dar o tratamento final para a música. Também ganha vida o maxixe Se você quiser com balanço que Macalé foi pescar em Chiquinha Gonzaga, João da Baiana, Benedito Lacerda e Pixinguinha. Da safra recente revela Balada, dividindo vozes e parceria com Ana de Hollanda.

O sarau abre para outros compositores. Chega à França de Jacques Brel com o clássico Ne me quitte pas, passa pela noite de São Paulo em Ronda e encontra a paisagem carioca de Jobim em Corcovado. Para essa releitura Macalé foi pesquisar as harmonias originais de João Gilberto, e no final incluiu uma transgressão à sua maneira. Ainda há espaços para reler Lupicínio com Um favor e Luiz Melodia em Só assumo só.

Tão simples que merece explicações. Quem tentar encontrar a linha, o conceito ou o fio de ligação vai só esbarra no prazer. Em tempos de uma volta ao comércio de singles, Macalé serve aqui onze músicas que podem funcionar sozinhas. Mas que, enfileiradas no disco, fazem sentido pelo espírito livre da idéia. Um disco relaxado para ser curtido, não analisado.


matéria anterior:
  • Gilson Peranzzetta e Mauro Senise se encontram em CD
    ÚLTIMOS LANÇAMENTOS