O sertão de Guimarães Rosa em música
Grupo Nhambuzim lança CD com composições inspiradas na obra do autor

por Beto Feitosa
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O sertão de Guimarães Rosa vira música com o Nhambuzim. No ano em que se comemora o centenário de nascimento do escritor mineiro, o grupo paulistano lança seu primeiro CD, Rosário. Literatura e música se encontram em 17 faixas, grande parte composta exclusivamente para o projeto.

O Nhambuzim relê A terceira margem do rio, parceria de Caetano Veloso e Milton Nascimento já cantada por ambos, aqui apresentada com ótimo novo arranjo do grupo. Fechando o disco trazem Sagarana, de João de Aquino e Paulo César Pinheiro, já gravada por Clara Nunes em 1977. O folclore mineiro também foi aproveitado, com registros de músicas que estão na tradição oral como Aboio e Encomendação de almas.

Único romance e maior clássico de Rosa, Grande sertão: veredas, inspira a maior parte das composições do grupo. De suas páginas saíram músicas como Passagem para o nada, Nonada de mim, Notícia do norte, Acerto de contas, Cantiga do desvendar e Outras rosas. Outros contos e livros passam pelo disco.

O disco segue um clima entre o lírico e o rural. A idéia do grupo é juntar o sertão e a cidade nesse ambiente sonoro particular. A proposta de reler Guimarães é tarefa difícil. Viajar nas histórias e nos personagens do autor é um mergulho na rica obra literária. A matéria prima já é conhecida, ao grupo cabe traduzir isso em música, quase que em uma parceria.

Foi o próprio Guimarães Rosa quem disse que "o sertão está em toda parte". Assim o Nhambuzim mergulha nesse universo mesmo estando no centro nervoso do país. A música vem em contraponto, cheia de sutilezas e meandros que remetem a outro ritmo, outra realidade. Se na literatura a palavra é fundamental, os textos ganham cuidado especial. As três vozes do grupo dialogam em bem cuidados arranjos vocais.

A experiência do Nhambuzim é louvável. A música viaja no mesmo cenário retratado por Guimarães Rosa. Dentre as tímidas homenagens pelo centenário do escritor, o CD Rosário aparece como a mais curiosa e inesperada. Literatura para ouvir, música para acompanhar a leitura.


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