Ramiro Musotto extrapola limites do berimbau
Instrumento primitivo é matéria prima para o músico que lança seu segundo CD

por Beto Feitosa
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Para quem vê o lado mais simples, o berimbau é apenas um arame em um arco e uma cabaça. Para o músico argentino (radicado no Brasil há 24 anos) Ramiro Musotto é um instrumento explorado com criatividade e de possibilidades variadas. A prática da teoria segue sua saga no segundo trabalho do músico, o CD Civilizacao & barbarye. Lançado em 2006 na Argentina, o CD chega ao Brasil com distribuição da Tratore.

Sucessor do álbum Sudaka, que mergulha fundo no casamento com a eletrônica, Civilizacao & barbarye (grafado assim mesmo, globalizado até no título) é mais acústico, mas não despluga o berimbau do computador. As lições do mestre Naná Vasconcellos guiam Ramiro, nova geração que dá continuidade e faz sua música a partir do instrumento considerado primitivo.

Antes de mergulhar na world music globalizada e atualizada, Ramiro surpreende fazendo melodia com uma mini-orquestra de berimbaus. Em Ronda, faixa que abre o CD, o músico alinha seis instrumentos com afinação distinta e faz a melodia com apenas duas notas. "Há milhões de nuances tímbricas em uma única nota", explica o músico. "Você pode evoluir por aí também, não só na questão harmônica e melódica", diz Musotto, que usou um capotraste parecido com o dos violões como "truque" para extrair as duas notas afinadas do instrumento.

Técnicas à parte, a música vai além da teoria, é palatável, nova e surpreendente. Ramiro é brasileiríssimo no medley que junta sua Nordeste com Beradero, composição de Jorge Continentino e Chico César já gravada magistralmente por Zizi Possi. Aqui a música aparece com participação dos próprios autores e uma narração sampleada de um LP de 1957 que traz a voz de um cangaceiro do grupo de Lampião, com um timbre que lembra muito Jorge Mautner.

O músico também recria o clássico choro Assanhado, de Jacob do Bandolim. A linha melódica é dada pelo tradicional bandolim que vem acompanhado de uma forte parede percussiva, efeitos, guitarra e teclado. Chorão pós-moderno sem sotaque definido, ousadia corajosa e bem sucedida. Jacob pode entrar na rave.

Ramiro é assim, sua salada musical não vê limites. Seu talento extrapola o patamar conhecido e vai além. Civilizacao & barbarye tem muita teoria, história e conceito por trás. Mas tudo é roteiro para direção livre e criativa do artista voar. E voa.


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