Marcelo Camelo em viagem pessoal
Primeiro CD solo do compositor abre possibilidades e interpretações

por Beto Feitosa
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Primeiro vôo solo de Marcelo Camelo traz título afirmativo: Sou. Mas a própria arte gráfica abre a interpretação: ao contrário lê-se "nós", o individual coletivo. O poema concreto assinado por Rodrigo Linares é o primeiro impacto do aguardado lançamento. O álbum pode, sim, ser julgado pela capa: é um disco de surpresas e estética conceitual. Concreta em nuances e idéias, quem mergulhar mais fundo descobre as melhores jóias. Sou merece aquela atenção literária que se dedica aos bons livros.

O compositor que se destacou no grupo Los Hermanos assina sozinho letra e música nas doze faixas. Apenas uma é regravação, Santa chuva. Destaque no disco de estréia de Maria Rita, a música aqui aparece na versão do autor. Emoldurada por um generoso naipe de cordas regido pela maestro Gilson Peranzzetta, tem clima bem mais intimista e introspectivo do que a gravação original. Camelo não tentou repetir a força de Maria Rita, mas trouxe sua canção para o ambiente bem próprio de Sou.

Ao longo do disco a voz é sussurrada, as palavras são cantadas em tom confessional e intimista. Chega a ser minimalista em Passeando e Saudade, viagens instrumentais que ganham letra em que o poema tem o tamanho de um hai-kai. Não por acaso as duas músicas também aparecem em versões realmente instrumentais. Passeando com letra tem voz e violão de Camelo, no extra traz apenas o piano de Clara Sverner. Com Saudade acontece ao contrário, durante o disco a versão apresentada é com a pianista, no bônus volta Camelo voz e violão. A saudade passa pelas duas composições e as melodias se casam, desencontradas na ordem sugerida pelo CD.

"Todo ser humano pode ser um anjo", filosofa em Téo e a gaivota, capítulo inicial do disco. E a "viagem ao fundo de mim" proposta por Marcelo Camelo também abre espaço para outras participações. O jeito folk-teen de Malu Magalhães aparece na bilíngüe Janta, já a sanfona de Dominguinhos costura as cores de Liberdade.

A festa tem vez em Copacabana. Com metais foliões, o bairro de Camelo não é o mesmo de Braguinha, mantém seu charme cosmopolita mas é bem mais misturadão e democrático. Velhinhos, gordinhas, shopping e túnel passam pelos novos cartões postais da princesinha do mar. A marchinha segue em Vida doce, última antes dos bônus

Sou está longe de ser um trabalho convencional, desses que se traçam paralelos logo na primeira audição. Sou é para ser maturado, entendido e curtido por mais tempo. Pede e merece essa atenção, voltar a ele é necessário e agradável.


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